Seis anos depois de Punisher, Phoebe Bridgers volta finalmente ao lugar onde a sua música fica mais exposta: um álbum a solo. Lost Weekend chega hoje, 14 de agosto, editado pela Dead Oceans, com 16 canções e mais de 50 minutos de música. É um regresso aguardado, mas também um regresso diferente, porque a artista que entra agora em cena já não é exactamente a mesma que deixou o público em 2020.
Nesse intervalo, Bridgers ganhou Grammys com boygenius, colaborou com nomes como Taylor Swift e Paul McCartney e viu crescer uma influência que ultrapassou claramente o circuito indie onde começou. A expectativa em torno de um novo disco deixou, por isso, de ser apenas curiosidade. Lost Weekend chega com o peso de tudo aquilo que aconteceu entretanto.
O silêncio entre dois álbuns mudou tudo
Quando Punisher apareceu em 2020, Phoebe Bridgers estava a transformar uma escrita muito pessoal numa linguagem que rapidamente encontrou milhares de ouvintes. O disco tornou-se uma referência da música alternativa da década e canções como “Kyoto”, “I Know the End” ou “Garden Song” ajudaram a definir a dimensão artística da cantora e compositora.
Seis anos depois, o ponto de partida é outro. Bridgers já não precisa de apresentar o seu nome ao público. Precisa de lidar com o que esse nome passou a significar.
Lost Weekend nasce precisamente dessa tensão. A artista continua a escrever sobre perda, amor, memória e desconforto, mas fá-lo a partir de uma fase da vida marcada por mudanças profundas. A morte do pai e a relação com o passado familiar atravessam o álbum, ao mesmo tempo que aparecem questões ligadas ao amor e à tentativa de perceber quem somos depois de determinadas versões de nós próprios deixarem de existir.
Um disco mais íntimo, mas também mais ambicioso
A primeira surpresa de Lost Weekend está na forma como Bridgers usa o espaço. Em vez de procurar simplesmente repetir a fórmula de Punisher, o álbum abre novas possibilidades sonoras.
A folk continua presente, mas encontra electrónica, vozes processadas, guitarras mais densas e ambientes que por vezes parecem quase cinematográficos. A Pitchfork descreve o disco como o trabalho a solo mais silencioso e coeso da artista, enquanto a NME destaca a dimensão emocional e a riqueza dos arranjos.
“Bobby” aproxima-se do shoegaze para falar de amor de uma forma simultaneamente intensa e irónica. “Other Plans” reduz o espaço sonoro e deixa a voz de Bridgers mais exposta. Outras canções exploram vocoders e texturas electrónicas, criando um contraste interessante com os momentos acústicos. O resultado não é uma ruptura completa com o passado. É antes uma expansão daquilo que já conhecíamos.
A grande mudança está menos naquilo que Phoebe Bridgers escreve do que na forma como decidiu deixar essas histórias respirar.
O regresso começou antes do disco chegar
A campanha de Lost Weekend também ajudou a transformar o lançamento num acontecimento. Antes da chegada oficial do álbum, a música foi levada para planetários de vários pontos do mundo, numa experiência de escuta criada em parceria com Spotify. Mais de 40 espaços receberam sessões especiais, com o disco apresentado integralmente num ambiente visual pensado para acompanhar a sua dimensão mais atmosférica.
A escolha faz sentido. A própria estética de Lost Weekend trabalha frequentemente com imagens de distância, espaço, memória e deslocação. Colocar estas canções debaixo de um céu artificial acrescentou uma dimensão física a uma obra que já procura esse tipo de sensação.
O lançamento também chega depois de “Lost Boys”, single que antecipou o novo álbum e voltou a aproximar Bridgers de Julien Baker e Lucy Dacus. A ligação a boygenius aparece assim como memória, mas não como uma tentativa de repetir aquele capítulo.
Phoebe Bridgers já não precisa de voltar a ser quem era
A recepção inicial confirma que Lost Weekend está a ser tratado como algo mais importante do que um simples regresso discográfico. As primeiras críticas apontam para um álbum denso, introspectivo e emocionalmente exigente. A NME vê nele uma obra particularmente ambiciosa, enquanto outras leituras destacam a evolução da escrita e a maior complexidade da produção.
O mais interessante é que Bridgers parece ter percebido o perigo de tentar corresponder às expectativas criadas por Punisher. Em vez de procurar outro Punisher, construiu um disco sobre aquilo que aconteceu depois dele.
Esse talvez seja o verdadeiro significado de Lost Weekend. Não é simplesmente o regresso de uma artista que esteve seis anos sem lançar um álbum a solo. É o primeiro retrato de Phoebe Bridgers depois de tudo o que mudou à sua volta e dentro dela.
E quando a última canção termina, a sensação não é propriamente a de fechar um capítulo. É a de perceber que a história ficou mais complicada.
