Criar um novo projeto artístico é apenas o primeiro passo. A pergunta mais difícil surge logo a seguir: quem garante que esse projeto consegue continuar a existir?
É a partir dessa questão que o Coliseu Micaelense apresenta, esta quarta-feira, 10 de setembro, o Matriz Atlântica, um novo projeto dedicado às artes visuais contemporâneas, criado em parceria com o Centro Português de Serigrafia. O lançamento, em Ponta Delgada, será acompanhado por uma conferência dedicada ao mecenato, ao investimento privado e ao problema da descentralização cultural.
A escolha do tema não é casual. Falar de novas oportunidades para a criação artística nos Açores significa inevitavelmente falar de financiamento. E, quando o território está longe dos principais centros económicos e culturais do país, a pergunta torna-se ainda mais concreta: como criar projetos culturais continuados sem depender exclusivamente de decisões tomadas fora da Região?
Matriz Atlântica quer criar uma plataforma continuada para as artes visuais
O Matriz Atlântica nasce de uma parceria entre o Coliseu Micaelense e o Centro Português de Serigrafia e pretende afirmar os Açores como território de criação, reflexão e diálogo nas artes visuais contemporâneas.
O projeto não está pensado como uma iniciativa isolada. A programação prevista inclui exposições, residências artísticas, edições de serigrafia e gravura, ações de mediação cultural e momentos dedicados à reflexão sobre a arte contemporânea.
A direção conceptual e curatorial está a cargo de D. André de Quiroga, historiador de arte e curador.
A ambição é criar uma estrutura com continuidade e aproximar artistas, instituições, colecionadores, fundações e empresas. Para os artistas açorianos, o projeto procura também abrir novas possibilidades de criação e reforçar a ligação ao panorama artístico nacional.
É aqui que o Matriz Atlântica ganha uma dimensão que vai além da apresentação de uma nova programação. O projeto parte de uma questão estrutural: a criação artística nos Açores não pode depender apenas da circulação de projetos vindos do exterior. Também precisa de condições para produzir, crescer e criar ligações a partir do próprio território.
O problema não é apenas financiar cultura, é saber onde chega o financiamento
A apresentação do Matriz Atlântica será acompanhada pela conferência “Mecenato e Arte Contemporânea”, que reúne responsáveis por fundações, especialistas, gestores culturais, galeristas, empresários e colecionadores.
O primeiro painel, “Do Papel para o Território: Ferramentas Fiscais e Financiamento Cultural”, coloca em discussão o Estatuto do Mecenato e a aplicação prática dos incentivos fiscais à realidade açoriana.
A questão parece técnica, mas o problema é maior do que a legislação.
Um incentivo fiscal só produz efeitos quando existem empresas, instituições e agentes dispostos a utilizá-lo. Entre aquilo que está previsto na lei e aquilo que chega efetivamente aos projetos culturais existe um espaço que depende de relações, confiança, capacidade económica e conhecimento das ferramentas disponíveis.
Nos Açores, esta questão ganha outra escala. A descentralização não depende apenas de levar programação para fora de Lisboa ou do Porto. Depende também de perceber se os territórios conseguem construir condições próprias para financiar e sustentar a criação cultural.
O painel conta com Filomena Marques, Frederick Lehmann, Piedade Lalanda e Vera Champalimaud Cortês, com moderação da jornalista Rita Rodrigues.
Descentralizar não pode ser apenas deslocar programação
A palavra descentralização é frequentemente utilizada no debate cultural português. Mas levar temporariamente um espetáculo ou uma exposição para fora dos grandes centros não significa necessariamente criar um ecossistema cultural descentralizado.
O segundo painel da conferência, “Descentralizar o Investimento: As Fundações como Motores do Ecossistema Local”, vai precisamente ao centro dessa questão.
Participam Rui Gonçalves, da Fundação Calouste Gulbenkian, Ana Feijó da Cunha, da Fundação “la Caixa” Portugal, Teresa de Albuquerque, da Fundação Casa de Mateus, e Carlos Costa Neves, da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. A moderação estará a cargo de Mafalda Anjos.
A pergunta que atravessa esta conversa é simples, embora a resposta esteja longe de o ser: como transformar apoios pontuais em relações capazes de permanecer?
Para territórios afastados dos principais centros de decisão, essa diferença pode determinar o futuro de muitos projetos. Receber programação é importante. Mas criar condições para produzir programação, apoiar artistas e manter estruturas culturais é outra coisa.
A descentralização começa verdadeiramente quando o território deixa de depender apenas do centro para existir culturalmente.
O mecenato pode ajudar, mas não resolve tudo
O último painel, “A Arte de Retribuir: Colecionismo e Responsabilidade Social”, desloca o debate para o papel dos colecionadores e do investimento privado.
António Prates, fundador do Centro Português de Serigrafia, António Saint-Silvestre, Tiago Mendonça e José Costa Rodrigues participam na conversa moderada por Bruno Batista.
O colecionismo pode desempenhar um papel importante no apoio aos artistas, na circulação das obras e na criação de novos públicos. O investimento privado pode também abrir possibilidades que os modelos tradicionais de financiamento não conseguem garantir.
Mas existe uma tensão que não deve ser ignorada.
Se o futuro da criação cultural depender demasiado da vontade de empresas, fundações ou colecionadores, o risco é transformar a sobrevivência dos projetos numa questão de disponibilidade financeira privada.
O mecenato pode complementar o financiamento público. Pode criar oportunidades e ajudar a construir novos caminhos. Mas dificilmente substitui a responsabilidade das instituições públicas na criação de condições estáveis para a cultura.
Talvez seja precisamente por isso que a conferência ganha importância. Não procura apenas encontrar dinheiro para projetos culturais. Coloca em discussão a forma como esse dinheiro chega, quem decide onde é investido e que consequências essa distribuição tem para os territórios.
O nascimento de um projeto e uma pergunta que fica
O Matriz Atlântica nasce com a intenção de criar novas pontes entre os Açores e o panorama artístico nacional, através de uma programação continuada dedicada às artes visuais contemporâneas.
A conferência que acompanha o seu lançamento mostra, no entanto, que a discussão não começa na programação. Começa antes.
Começa na capacidade de criar condições para que os artistas possam permanecer, trabalhar e encontrar oportunidades. Começa na relação entre instituições e território. E começa também na pergunta sobre quem assume o risco de financiar aquilo que ainda não existe.
É fácil defender a descentralização da cultura enquanto princípio. Mais difícil é aceitar aquilo que ela exige na prática: investimento continuado, estruturas locais e decisões que não sejam tomadas sempre a partir dos mesmos lugares.
O Matriz Atlântica apresenta-se agora como uma nova plataforma para as artes visuais nos Açores. O que se segue dependerá também da resposta à pergunta que marca o seu primeiro dia: quem está disposto a financiar uma cultura que quer crescer longe dos grandes centros?
Programa
09h45 | Apresentação do projeto Matriz Atlântica
10h15 | Pausa para café
10h30 | Sessão de abertura
Com Alberto Santos, Secretário de Estado da Cultura, e Cila Simas, presidente do Conselho de Administração do Coliseu Micaelense.
11h00 | Painel I: Do Papel para o Território: Ferramentas Fiscais e Financiamento Cultural
Filomena Marques
Frederick Lehmann
Piedade Lalanda
Vera Champalimaud Cortês
Moderação: Rita Rodrigues
14h30 | Painel II: Descentralizar o Investimento: As Fundações como Motores do Ecossistema Local
Rui Gonçalves
Ana Feijó da Cunha
Teresa de Albuquerque
Carlos Costa Neves
Moderação: Mafalda Anjos
16h00 | Painel III: A Arte de Retribuir: Colecionismo e Responsabilidade Social
António Prates
António Saint-Silvestre
Tiago Mendonça
José Costa Rodrigues
Moderação: Bruno Batista
17h30 | Sessão de encerramento
Informações
Data: 10 de setembro
Hora: 09h45
Local: Coliseu Micaelense, Ponta Delgada
Entrada: gratuita, mediante inscrição prévia e sujeita à lotação da sala
