Um lamento pode nascer de uma voz, mas também pode ficar suspenso no espaço. É nesse lugar entre a memória, o ritual e a música contemporânea que RÓIS construiu MO LÉAN, um álbum que regressa agora com uma nova edição através da Domino.
Compositora, vocalista e multi-instrumentista, nascida em Fermanagh e radicada em Dublin, RÓIS trabalha a tradição musical irlandesa sem a tratar como algo intocável. Nas suas mãos, antigos cantos e referências aos rituais de luto encontram electrónica, textura e repetição, criando uma linguagem própria onde o passado não aparece como decoração.
A edição remasterizada de MO LÉAN, originalmente lançado em 2024, chega a 20 de novembro. A versão digital acrescenta ainda PORT NA H-EALA, uma faixa inédita que passa a integrar este novo capítulo do álbum.
Quando o luto passa a ser matéria musical
MO LÉAN parte de uma prática profundamente ligada à vida comunitária irlandesa: os rituais fúnebres que permaneceram vivos até às primeiras décadas do século XX. O lamento tinha uma função concreta. Era uma forma de acompanhar a morte, de reunir a comunidade e de dar voz àquilo que muitas vezes não encontrava outra forma de ser dito.
RÓIS pega nessa matéria e desloca-a para outro território.
A sua música não tenta reconstruir o passado como se fosse uma fotografia antiga. Há electrónica, espaço e uma sensação de movimento que fazem com que essas referências sobrevivam fora do contexto original. O resultado é uma música que pode soar ancestral num momento e estranhamente contemporânea no seguinte.
É também aí que MO LÉAN ganhou reconhecimento. O álbum foi distinguido como Álbum do Ano nos Northern Ireland Music Prize e recebeu uma nomeação para o Choice Music Prize.
A voz antes da explicação
Em 2025, CAOINE levou ainda mais longe essa ligação entre tradição e criação contemporânea. A faixa recebeu o prémio de Melhor Faixa Folk Original nos RTÉ Radio 1 Folk Awards, onde RÓIS foi também distinguida como Melhor Artista Revelação.
O reconhecimento ajuda a situar o trabalho, mas não explica inteiramente aquilo que acontece quando estas canções são apresentadas ao vivo.
O lançamento de WHAT DO YOU SAY (LIVE FROM A WAKE) permite perceber essa outra dimensão. A performance coloca a voz e o ritual no centro, aproximando o espectador de uma experiência que parece menos um concerto convencional e mais uma cerimónia que encontrou, por acaso, um palco.
É uma diferença importante. A música de RÓIS não depende apenas das referências que recupera. Depende da forma como essas referências são transformadas em som.
Uma nova vida para MO LÉAN
A entrada na Domino dá agora a MO LÉAN uma nova etapa. A reedição remasterizada recupera o álbum de 2024 e acrescenta-lhe uma nova peça, sem apagar aquilo que esteve na origem do projecto.
PORT NA H-EALA surge assim como material inédito dentro de uma obra que já encontrou reconhecimento, mas que continua ligada a uma pergunta mais interessante: o que acontece quando uma tradição construída para acompanhar a morte volta a ser ouvida por quem vive num tempo completamente diferente?
RÓIS não parece procurar uma resposta definitiva. Talvez seja precisamente por isso que MO LÉAN permanece tão inquietante. O lamento muda de forma, a tecnologia muda o espaço e a voz continua a fazer aquilo que sempre fez: lembrar-nos que certas emoções não envelhecem.
