Durante uma semana, as Lajes do Pico enchem-se de concertos, regatas, filarmónicas, livros, artesanato, procissões e gente. Fernando Daniel sobe ao palco. MC Kevinho trouxe a Noite da Juventude. Os 4 Mens e Sandra Correia fazem parte de um cartaz pensado para públicos diferentes. Mas, aqui, seria um erro olhar apenas para os nomes maiores.
A Semana dos Baleeiros chega este ano à sua 40.ª edição sem deixar que a dimensão dos concertos esconda aquilo que a torna diferente. Nas Lajes, a música chama pessoas. A festa, porém, continua a pertencer ao mar.
Uma festa que não vive apenas do passado
A memória baleeira está por toda a parte, mas a Semana dos Baleeiros não funciona como um museu ao ar livre. Os botes continuam a entrar na programação, as regatas continuam a juntar participantes e público e a história da vila aparece ao lado de iniciativas que nada têm de nostálgico.
É essa mistura que explica a força da festa. Durante estes dias há desporto, passeios de bote, atividades náuticas, filarmónicas, grupos folclóricos, marchas, chamarritas, feira de artesanato, lançamentos de livros e concertos. Não existe uma única maneira de viver a Semana dos Baleeiros.
Uma pessoa pode chegar às Lajes para ver Fernando Daniel e acabar a acompanhar uma regata na Baía das Lajes. Pode ir pela tradição religiosa e encontrar uma vila transformada por concertos, encontros e movimento. Pode procurar apenas a programação cultural e perceber que, ali, a cultura também passa pela forma como uma comunidade continua a contar a sua própria história.
Quarenta edições depois, essa talvez seja a maior conquista da Semana dos Baleeiros. A festa não depende de repetir o passado. Continua a usá-lo para criar presente.
O cartaz muda. A festa sabe onde está
O programa musical de 2026 é revelador. Sandra Correia levou o fado à programação. MC Kevinho representa uma escolha dirigida a um público mais jovem. Os 4 Mens e Fernando Daniel ocupam outro espaço dentro da música popular portuguesa. No encerramento, a Big Band do Município das Lajes do Pico volta a colocar uma formação local no centro da noite.
Não é um cartaz construído à procura de uma coerência artística perfeita. Nem precisa de ser.
A Semana dos Baleeiros não é um festival de música com uma identidade sonora fechada. É uma grande festa popular que precisa de falar com várias gerações, habitantes da ilha, emigrantes que regressam no verão e visitantes que chegam ao Pico.
Essa diferença é importante. Os nomes do cartaz podem mudar todos os anos, mas não têm de definir a identidade da Semana dos Baleeiros. São parte dela.
A música, neste caso, não está acima da festa. Está dentro dela.
E talvez seja precisamente por isso que o programa consegue juntar, na mesma semana, fado, música popular, pop, música urbana, filarmónicas e chamarritas sem parecer que está a tentar explicar uma única ideia musical. A lógica é outra: manter as Lajes vivas.
Antes do palco, está a baía
O centro da Semana dos Baleeiros continua a ser a relação das Lajes do Pico com o mar.
As regatas de botes baleeiros são uma das expressões mais visíveis dessa ligação. Há provas de remo e a Prova Rainha, à vela, que reúne embarcações ligadas a várias ilhas. Hoje, os botes já não representam a atividade para a qual foram construídos. Ganharam outra vida.
São património, competição, memória e identidade.
Mas também são objetos vivos. Entram na água. São remados. São observados a partir da marginal. Criam uma relação direta entre quem viveu a história baleeira e quem apenas a conhece através de livros, fotografias ou histórias familiares.
É aqui que a Semana dos Baleeiros encontra a sua parte mais difícil de reproduzir noutro lugar. Um palco pode ser montado em qualquer cidade. Um grande nome pode tocar em qualquer festival. A Baía das Lajes, os botes e a memória que os acompanha não.
No domingo, o bote volta a ter a palavra
O último dia da Semana dos Baleeiros concentra alguns dos momentos que melhor explicam a identidade da festa.
A componente religiosa, ligada à devoção a Nossa Senhora de Lourdes, padroeira dos baleeiros, continua a ocupar um lugar central. Depois da eucaristia solene e da procissão, acontece um dos momentos mais particulares da programação: o tradicional sermão no bote baleeiro.
É uma imagem difícil de encontrar num cartaz de verão. E talvez seja precisamente por isso que diz tanto sobre as Lajes do Pico.
Durante a semana, há luzes de palco, DJs, concertos e multidões. No fim, a festa regressa a uma embarcação que transporta uma memória muito anterior a qualquer sistema de som.
A 40.ª Semana dos Baleeiros celebra o passado, mas não vive parada nele. A vila continua a mudar, os públicos mudam e a programação musical também. O que permanece é a necessidade de voltar ao mesmo lugar.
À baía.
Ao bote.
E ao mar que, nas Lajes do Pico, continua a ser muito mais do que paisagem.
