Demorou décadas, mas finalmente aconteceu. Um dos maiores escritores de canções da música portuguesa vai estrear-se no Vodafone Paredes de Coura. Antes desse momento, Sérgio Godinho ruma ao Algarve para um encontro igualmente inédito com o pianista Júlio Resende, provando que, aos 80 anos, continua a procurar novos desafios em vez de viver apenas da memória do seu repertório.
Agosto transforma-se assim num mês especial para o artista, que celebra o 81.º aniversário a 31 de agosto. Entre um recital intimista em Faro e uma celebração coletiva num dos festivais mais emblemáticos do país, Sérgio Godinho mostra que a sua obra continua a encontrar novas formas de chegar ao público.
Faro recebe um encontro inédito entre duas linguagens musicais
O primeiro desses momentos acontece a 12 de agosto, no Largo da Sé, em Faro, durante mais uma edição dos Diálogos Musicais.
Ao lado de Júlio Resende, um dos pianistas portugueses mais criativos da atualidade, Sérgio Godinho revisita um cancioneiro que atravessa gerações. Mais do que um simples concerto, este será um diálogo entre duas formas muito diferentes de entender a música: a escrita precisa e cinematográfica de Godinho encontra a liberdade interpretativa e a improvisação que caracterizam o percurso de Resende.
Além dos temas mais conhecidos, o espetáculo promete recuperar canções menos habituais nos concertos do músico, oferecendo uma perspetiva renovada sobre um repertório que continua a revelar novas leituras.
A estreia que faltava em Paredes de Coura
Dois dias depois, a 14 de agosto, chega um dos momentos mais aguardados deste verão. Sérgio Godinho sobe pela primeira vez ao palco do Vodafone Paredes de Coura, um festival que, ao longo de mais de três décadas, recebeu alguns dos maiores nomes da música internacional e portuguesa, mas onde o autor de Com Um Brilhozinho nos Olhos nunca tinha atuado.
A estreia ganha ainda maior dimensão porque será partilhada com Os Assessores e um conjunto de convidados que representa diferentes gerações da música portuguesa.
Ana Lua Caiano, A Garota Não, Manuela Azevedo, Milhanas e Samuel Úria juntam-se ao espetáculo para reinterpretar algumas das canções mais marcantes da carreira de Sérgio Godinho. Mais do que uma sucessão de participações especiais, estas presenças mostram como a influência do compositor continua viva entre artistas com percursos, sonoridades e públicos muito distintos.

Cinco décadas a escrever o país através das canções
Poucos compositores portugueses conseguiram construir uma obra tão transversal como Sérgio Godinho. As suas canções acompanham várias gerações, cruzando poesia, intervenção, humor e observação social sem perder atualidade.
Mesmo depois de mais de cinco décadas de carreira, continua a desafiar-se artisticamente, recusando limitar-se à celebração do passado. A colaboração inédita com Júlio Resende e a estreia em Paredes de Coura confirmam precisamente essa inquietação criativa, mostrando um músico que prefere continuar a descobrir novos caminhos em vez de repetir fórmulas já conhecidas.
É também essa capacidade de dialogar com músicos de diferentes idades que explica porque a sua obra permanece relevante para quem o acompanha desde os anos 70 e para quem o descobriu apenas nos últimos anos.
Um legado que continua a crescer em palco
Os dois concertos de agosto representam duas faces da mesma identidade artística. Em Faro, o silêncio e a proximidade permitem escutar cada palavra com outro detalhe. Em Paredes de Coura, milhares de vozes transformarão essas mesmas canções numa celebração coletiva.
Entre um piano e um anfiteatro natural, Sérgio Godinho recorda que o verdadeiro valor de uma grande obra não está apenas na longevidade, mas na capacidade de continuar a encontrar novos intérpretes, novos públicos e novas razões para ser cantada. Poucos artistas portugueses conseguem reunir, na mesma semana, a intimidade de um recital e a energia de um grande festival. Talvez seja essa a melhor prova de que algumas canções nunca envelhecem.
