Segunda-feira, 3 de Agosto de 2026
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PEIXARANHA: “Ficar calado em Portugal, neste momento, não é opção”

Por Jorge Silva Medeiros 3 Ago 2026

Os PEIXARANHA são uma das mais recentes propostas da cena hardcore portuguesa, mas os músicos que dão vida ao projeto carregam décadas de experiência no underground nacional. Unidos por um percurso comum e pela vontade de responder, através da música, ao atual clima social, lançaram recentemente o EP AGORA PENSA, um trabalho que cruza agressividade, reflexão e uma forte consciência política.

Nesta entrevista ao Música Total, a banda fala sobre o reencontro que deu origem ao projeto, a escolha de um nome que não passa despercebido, a mensagem por detrás das novas canções, a evolução da cena underground portuguesa e os próximos passos de uma banda que assume, sem rodeios, que a música continua a ser uma forma de intervenção.

Os PEIXARANHA nasceram em 2025, mas a vossa ligação vem de muito antes. Como aconteceu este reencontro e porque sentiram que este era o momento certo para voltar a tocar juntos?

O “Barba” (Paulo Ventura) e o Frazão já andavam a trocar ideias antes de nos juntarmos. O “nervoso miudinho” do Frazão para escrever e deitar cá para fora aquilo que estava a sentir em relação à conjuntura social tornou inevitável que as ideias que ambos andavam a explorar se materializassem numa banda. Foi nessa altura que se juntou o Milho. Os três já tinham tocado juntos nos Aheadpain e foi uma escolha natural. Da mesma forma, foi natural falar com o Cercas pouco depois para completar a banda.

Cada um de vocês tem um percurso extenso no underground português. Que experiências das bandas anteriores acabaram por influenciar este novo projeto?

Todos nós tocámos em bandas com sonoridades muito diferentes, apesar de o nosso percurso ter estado sempre muito ligado ao movimento hardcore. Com os PEIXARANHA quisemos explorar todos esses territórios de forma consciente e trazer toda a nossa experiência e as influências de uma vida para a sala de ensaio.

O nome PEIXARANHA desperta curiosidade. Como surgiu e o que representa para a identidade da banda?

PEIXARANHA estranha-se e depois entranha-se. É um nome forte, que se diz “de boca cheia” e encaixa perfeitamente na mensagem que queremos passar. E sim, é um peixe que marca qualquer pessoa que se cruza no seu caminho. Era também o nome de um aerossol com efeitos alucinogénios que se inalava na nossa zona nos anos 90. Pareceu-nos perfeito.

“AGORA PENSA” é um título que parece funcionar quase como um desafio lançado ao ouvinte. O que significa para vocês?

É um desafio, acima de tudo. Nos dias de hoje, tudo é imediato e a preguiça mental está instalada. As notícias falsas, as promessas ocas e as palavras de ordem vazias multiplicam-se. A máquina do ódio e da discriminação está montada e bem oleada para deixar as pessoas enfeitiçadas. “AGORA PENSA” é um apelo para que cada um pense pela própria cabeça, se informe, faça a sua pesquisa e tire as suas próprias conclusões.

O EP oscila entre momentos de agressividade direta e passagens mais atmosféricas. Como foi construído esse equilíbrio ao longo das cinco faixas?

É um caminho natural, apesar de às vezes demorar algum tempo a encontrar. Esse equilíbrio surgiu ao desconstruirmos os temas e procurarmos aquilo que cada um deles pedia, bem como a forma mais eficaz de transmitir a mensagem presente em cada palavra. É um processo de exploração e de perceber o que é realmente importante dizer.

A banda afirma que nasceu de um contexto marcado pela normalização do discurso de ódio e pela necessidade de não ficar em silêncio. De que forma essa preocupação entrou nas letras e na música?

Essa preocupação é o nosso farol. Historicamente, quando as sociedades começam a normalizar a injustiça e o discurso de ódio, é precisamente aí que a arte responde com mais força. A explosão do punk surgiu nos tempos de Thatcher. Ficar calado em Portugal, neste momento, não é opção.

Consideram que a música continua a ser uma ferramenta eficaz para provocar reflexão e debate social?

A música, e a arte em geral, deve ser o reflexo daquilo que se passa na sociedade. Esta é a nossa plataforma e vamos usá-la para, pelo menos, marcar a nossa posição em relação ao momento que estamos a atravessar, em Portugal e não só. Temos a nossa voz e vamos usá-la.

Depois de tantos anos ligados à música, sentem que a cena underground portuguesa mudou muito? O que vos entusiasma e o que vos preocupa atualmente?

Mudou bastante. Basta olhar para o exemplo de Almada. Se recuarmos ao final dos anos 90 e ao início dos anos 2000, havia concertos todas as semanas, com salas cheias. Hardcore, hip-hop, rock, industrial, death metal… A malta celebrava a música e a liberdade de se exprimir, mesmo sem ter plena consciência disso.

Hoje, o cenário é totalmente diferente, com poucos concertos e praticamente sem uma verdadeira cena. A vida musical em Almada era vibrante e criativa. Hoje, simplesmente, não existe. Coincidência ou não, foi também a altura em que os telemóveis se massificaram.

As canções de “AGORA PENSA” foram escritas de forma coletiva ou existiram compositores principais dentro da banda?

“Mind Check”, “Liberdade (Fight For It)” e “Ecos de Revolta” eram ideias que o Barba e o Frazão já traziam. Ganharam uma nova roupagem até chegarmos às versões que integram o EP. Serviram, sobretudo, de catalisador para arrancar com o projeto. Hoje em dia, e de um modo geral, a composição é um processo coletivo, em que as ideias individuais chegam à sala de ensaio e recebem o tratamento “PEIXARANHA”.

O concerto de apresentação no Blackbox, em Corroios, será o primeiro grande momento de contacto com o público enquanto PEIXARANHA. O que podem antecipar dessa noite?

Vai ser, acima de tudo, uma festa entre amigos e família. Estamos orgulhosos do caminho que temos vindo a fazer e queremos celebrá-lo com o público que nos tem motivado e apoiado.

Temos vários temas que ainda não gravámos e que queremos partilhar. E pode muito bem haver algumas surpresas.

Há alguma faixa do EP que considerem particularmente representativa daquilo que os PEIXARANHA são neste momento? Porquê?

Essa é uma pergunta difícil. As cinco faixas são bastante diferentes entre si e acreditamos que essa é precisamente a nossa maior força. Cada um de nós tem as suas influências e é natural que elas transpareçam na nossa música, por vezes de forma mais evidente, outras de forma mais subtil. Não escondemos isso.

Ainda estamos a descobrir o nosso som e, com menos de um ano de existência, talvez ainda seja cedo para responder a essa pergunta. Falamos de novo daqui a dois ou três anos.

Este lançamento marca apenas o início. O que já podem revelar sobre os próximos passos da banda?

Os próximos passos passam pela promoção e divulgação do EP. Queremos colocar o nome PEIXARANHA na cabeça das pessoas e fazer chegar a nossa mensagem o mais longe possível. O principal objetivo é tocar ao vivo e chegar a novos públicos.

Ao mesmo tempo, continuamos a compor, a refinar a nossa sonoridade e a encontrar a nossa voz. Achamos urgente gritar o nosso descontentamento, porque sabemos que não estamos sós.

LER: https://musicatotal.net/peixaranha-lanca-ep-agora-pensa-e-prepara-concerto/

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais.

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