Os Serial Kisses nasceram sem um plano definido, mas rapidamente perceberam que havia ali uma identidade difícil de ignorar. Entre guitarras, experimentação, texturas sonoras e uma vontade constante de explorar novos caminhos, o projeto de Margarida Lima e JC Santos construiu-se de forma natural, sempre guiado pela intuição e pelo prazer de criar.
Nesta entrevista ao Música Total, a dupla fala sobre a origem da banda, o processo de composição, a liberdade de não se prender a géneros musicais e os planos para os próximos meses. Uma conversa sobre criatividade, colaboração e a ideia de que a música continua a ser uma das formas mais sinceras de comunicar emoções.
Os Serial Kisses nasceram, nas vossas palavras, da “música que ficou depois de toda a música que circulou por nós”. Como surgiu concretamente este projeto
Olá, essa expressão sobre a música que ficou depois da música que circulou por nós refere-se à partilha de música, das pessoas que te trazem música e que levam o que andas a ouvir. Há sonoridades que ficam, que foram mais marcantes e agora surgem na nossa música. Houve um dia em que partilhámos as nossas ideias. Não havia qualquer plano em concreto, não pensávamos em fazer música, mas a coisa foi andando sem retorno. Começámos a gravar e as ideias surgiram como espirais. Ainda temos muito para concretizar.
Margarida Lima e JC Santos já traziam percursos diferentes. O que vos levou a juntarem forças neste momento
Pensamos que foi mesmo esse acaso de começar a trabalhar e a colaborar. As coisas tomaram um rumo em flecha. Gravámos o primeiro tema, não houve descanso nem sossego até terminar. O primeiro foi o “On Air”. Sucederam-se acordes, solos sobrepostos. Até é um tema que tem uma duração maior porque as ideias não cabiam todas lá. E foi isso que nos fez prosseguir.
A experimentação parece ser uma parte importante da identidade dos Serial Kisses. O que significa, na prática, experimentar para vocês
Experimentar é mesmo isso. É experimentar, fazer diferente, saber que pode não ser bom, mas saber também que pode ser uma ponte para novas coisas inesperadas e belas. É não contar com o garantido. A única regra é que nos soe bem. Só quando se faz com gosto e com alma é que se pode atingir outras pessoas. É esse o objetivo: tocar outros seres humanos, fazer o dia de alguém. Por mais que se ande aqui às voltas, não há muito para explicar na música. É uma forma de comunicação num nível diferente, difícil de traduzir em palavras. Mas a experimentação faz-se de acordo com o sentimento do dia e da hora. Mudam-se as guitarras, os timbres, ritmos ainda não explorados. É tudo possível e depois não há critério para a forma final, a não ser esse gosto e essa projeção do que vai cá dentro. Mais uma vez, é de definição difícil. No fim, um pergunta: “É isto?” E o outro responde se é ou não e o que falta ou o que está a mais. E assim se construiu a nossa música, pelo menos até agora.
Sentem necessidade de enquadrar a música que fazem num género específico ou preferem deixar essa definição para quem vos ouve
Se nos dessem a escolher, até preferíamos não definir e que estejamos todos abertos a deixar fluir sem conceitos prévios. Como alguém dizia, os pássaros não cantam porque têm uma resposta, cantam porque têm uma canção.
Que artistas, discos ou momentos marcaram mais a construção sonora deste projeto
Honestamente, não tivemos uma conversa do género “vamos fazer isto soar como esta ou aquela banda, como os anos 60 ou os 2000”. Como não tínhamos pressões, começámos a fazer o que tínhamos a fazer. Eu tinha mais facilidade com as cordas, o JC tem voz e experiência com ritmos e música eletrónica. Portanto, tanto podia sair uma coisa com sonoridades experimentais como melódicas. Saiu um meio-termo. Agradam-me as texturas das guitarras e, portanto, tem sido um “isto sim, aquilo não”, como um navegar. E há vontade de fazer mais.
Como funciona o processo de composição entre os dois. As canções nascem primeiro das guitarras, da voz ou de outra ideia
Geralmente já levo uma ideia em guitarra, crua e não tratada. Na prática, faço uma música e levo. As habilidades de produção são do JC. No início não foi fácil, mas lá me deixou interferir no processo e chegámos a um entendimento em que o resultado final tinha de ser consensual para os dois (risos).
Há alguma música que tenha servido como ponto de partida para perceberem que os Serial Kisses tinham uma identidade própria
Pois, como dizia há pouco, o tema com mais conflito foi o primeiro e desde aí ficaram definidas muitas coisas. Provavelmente houve uma definição logo à partida. Mas a prova de que não há limites é o “February Sun”, um tema um pouco à margem dessas linhas.
Vivemos numa altura em que tudo parece exigir rapidez. Como lidam com o tempo necessário para deixar uma canção amadurecer
Não parece haver problema com o tempo. Já há mais meia dúzia a incubar, mas não sentimos exigências. Tudo o que vier é bom.
O que procuram provocar em quem escuta os Serial Kisses pela primeira vez
O mesmo que os Serial Kisses provocam em nós. Um pairar, uma liberdade, um coração limpo, um acreditar no futuro e nas pessoas. Uma prontidão para o que vier.
De que forma as experiências pessoais e o percurso de cada um acabam por aparecer nas canções
Com toda a força. A música não se separa do ser humano que é cada um.
O que podemos esperar dos próximos meses. Há planos para novos temas, um EP ou concertos
Sim, tudo a que têm direito. Estaremos lá para vocês.
Se os Serial Kisses pudessem convidar qualquer artista, vivo ou desaparecido, para colaborar numa canção, quem escolheriam e porquê
Era mais o contrário. Se pudéssemos, íamos trabalhar com muitos, como disse, vivos ou desaparecidos, e perder-nos aí por esse vasto mundo.
