Depois de um período de silêncio criativo, Sílvia Torres regressa ao seu percurso a solo com “Se o Mar Voltar”, uma canção onde a saudade, a memória e a esperança se cruzam de forma delicada e profundamente pessoal. Conhecida pelo seu percurso nos Sonasfly, a cantora abre agora um novo capítulo artístico, mais íntimo, consciente e fiel àquilo que hoje sente ser a sua identidade.
Nesta conversa com o Música Total, fala sobre o significado deste regresso, o simbolismo do mar que atravessa o novo single, o processo de criação de Permanescências, o álbum que prepara, e a importância de aprender a largar quando a vida assim o exige. Uma entrevista marcada pela honestidade, onde cada resposta revela uma artista que encontrou na música a forma mais verdadeira de regressar a si própria.
“Se o Mar Voltar” marca o seu regresso aos lançamentos a solo. O que tornou este o momento certo para voltar?
Este momento surgiu de forma muito natural. A vida levou-me por outros caminhos, tanto a nível profissional como pessoal. Até o encerramento do Lava Jazz fez parte desse percurso. Hoje consigo olhar para tudo isso sem peso e perceber que cada etapa teve o seu propósito. Precisava desse tempo para me reencontrar e perceber que o verdadeiro impulso para regressar tinha de vir de dentro de mim. Só depois disso fez sentido voltar a escrever e a cantar em nome próprio.
O mar é uma imagem central na canção. Porque escolheu esta metáfora para falar de memória, distância e esperança?
O mar é a metáfora perfeita para a saudade. Está sempre em movimento: aproxima-se, afasta-se, regressa… tal como acontece connosco ao longo da vida. Para mim, representa a memória, a distância e a esperança, mas também ensina uma coisa muito importante: há momentos em que temos de saber esperar e outros em que temos simplesmente de largar.
Até que ponto esta música nasce de uma experiência pessoal ou resulta de uma observação do mundo à sua volta?
É uma canção muito pessoal. Nasceu de um momento em que precisei de olhar para dentro e perceber o que realmente queria dizer. Claro que quem a ouvir vai encontrar nela a sua própria história, mas a origem está em mim, nas minhas vivências e na forma como fui aprendendo a lidar com a saudade, com o tempo, com as despedidas e com a espera pelo que estava para vir.
O tema estreou-se na Antena 1. Como viveu esse momento e que significado teve para si?
Ouvir a música passar na Antena 1 trouxe-me um enorme sentido de regresso. Aquela canção carrega uma saudade que eu finalmente aprendi a soltar e que faz parte de mim. Perceber que algo tão meu estava, agora, a atravessar as ondas da rádio para chegar a outras pessoas foi muito especial. No fundo, é isso que espero da música: que deixe de ser só minha e passe a ser também de quem a ouve.
O título do próximo álbum, Permanescências, desperta curiosidade. Que conceito une as canções deste novo trabalho?
Permanescências é uma palavra inventada por mim. Não existe no dicionário. Nasce da junção de dois conceitos: a permanência e as reminiscências. O álbum explora exatamente isso: aquilo que permanece em mim, aquilo que se mantém vivo e presente na minha essência, em diálogo com as minhas reminiscências, as minhas memórias e lembranças do passado. É um registo daquilo que fica em nós, independentemente das voltas que a vida dá.
Que diferenças sente entre a Sílvia Torres que agora apresenta este projeto e a artista que o público conheceu anteriormente através de Sonasfly?
A Sonasfly nunca deixou de fazer parte de mim. A diferença é que hoje me sinto mais inteira. Aprendi a confiar mais nas minhas decisões, a assumir as minhas escolhas e a perceber que posso caminhar sozinha sem deixar de valorizar quem caminha ao meu lado. Sinto-me mais consciente da artista e da pessoa que sou hoje.
Musicalmente, que influências ajudaram a construir a identidade sonora de “Se o Mar Voltar”?
Sou uma pessoa e uma artista muito eclética. Gosto e consumo praticamente todos os géneros musicais. Por isso, as minhas influências não se fecham numa única gaveta. Quando componho e construo a identidade sonora de um tema, deixo-me guiar inteiramente pela mensagem que quero transmitir através da letra.
No entanto, na construção deste tema em particular, o papel do Mário Raposo foi crucial. Foi ele quem criou e deu forma a toda a componente instrumental. O Mário conseguiu captar, de forma brilhante, aquilo que eu queria transmitir. Teve a sensibilidade de me ler e de criar a atmosfera certa. Com calma, percebi que tinha entendido exatamente o que a canção pedia, fazendo com que a mensagem ganhasse ainda mais força e clareza.
A letra transmite uma grande delicadeza emocional. O processo de escrita surgiu rapidamente ou foi uma canção amadurecida ao longo do tempo?
A letra nasceu numa noite de insónia, por volta das quatro da manhã. Às vezes há ideias que nos escolhem e foi exatamente isso que aconteceu. Sentei-me a escrever e, quando terminei, percebi que aquela canção era também uma forma de compreender que estava na hora de regressar a mim.
Como decorreu o processo de gravação e produção deste single? Houve algum desafio ou momento particularmente marcante?
O maior desafio foi não estragar a simplicidade da canção. Havia uma tentação constante de acrescentar elementos, mas o Mário percebeu que ela precisava de espaço para respirar. Muitas vezes, menos é mesmo mais. Ele tinha razão.
Na sua opinião, qual é a mensagem mais importante que gostaria que os ouvintes levassem consigo depois de escutarem “Se o Mar Voltar”?
Gostava que as pessoas compreendessem que não se deve prender a saudade, mas sim deixá-la dançar. Como a própria letra diz, “porque o amor que não solta nunca aprende a partir”. Temos de ter consideração por nós próprios para perceber qual é a altura certa de largar, de seguir em frente e de entender até onde vale realmente a pena esperar. A mensagem principal fala desse discernimento emocional e da coragem de nos escolhermos. Há uma grande diferença entre esperar por amor e deixar a vida em suspenso. Gostava que esta canção ajudasse cada pessoa a encontrar esse equilíbrio.
O álbum Permanescências seguirá a mesma linha intimista deste primeiro avanço ou irá revelar outras facetas da sua escrita e sonoridade?
“Se o Mar Voltar” é a porta de entrada, mas o álbum não será totalmente intimista. Podem esperar mais ritmo e algumas surpresas pelo caminho. O disco reflete uma mistura de todos os meus anos de vivências, onde a sonoridade vai flutuar e transformar-se consoante aquilo que cada letra e cada história pedirem, mantendo-se sempre fiel àquilo que eu sou. Afinal, nem todas as histórias se contam da mesma forma.
O que podem os seus seguidores esperar dos próximos meses? Estão previstos novos singles, concertos ou outras apresentações ao vivo para acompanhar esta nova fase da sua carreira?
Podem esperar música nova e muito trabalho. Neste momento, estou totalmente focada na criação, a preparar e a lapidar as próximas canções do álbum. Já posso adiantar, em primeira mão, que o trabalho final terá um total de 11 faixas, como sempre. Estou ansiosa por partilhar os próximos passos, os novos singles e, claro, regressar aos palcos para podermos cantar estas histórias juntos, ao vivo.
