O mundo conhecia aquela voz. O mundo também conhecia aquele rosto. Só que não eram a mesma pessoa.
Quando “Pump Up the Jam” explodiu em 1989, Felly Kilingi aparecia na capa, no videoclip e nas primeiras imagens promocionais dos Technotronic. Era ela que o público via enquanto a música entrava nas rádios, nas discotecas e nos programas de televisão. Mas a voz que fazia aquela batida avançar pertencia a outra mulher.
Ya Kid K, nome artístico de Manuela Kamosi, tinha 17 anos.
Foi ela quem escreveu as letras e gravou os vocais de “Pump Up the Jam”. A música tornar-se-ia um dos grandes êxitos da dance music na passagem dos anos 80 para os 90. No Reino Unido chegou ao segundo lugar e também atingiu o segundo posto da Billboard Hot 100 nos Estados Unidos. Em Portugal chegou ao número um.
Mas antes de o nome Ya Kid K se tornar inseparável dos Technotronic, a indústria decidiu colocar outra pessoa à frente da câmara.
E é aí que começa a verdadeira história de “Pump Up the Jam”.
A batida que saiu da Bélgica
Os Technotronic nasceram na Bélgica pela mão de Jo Bogaert, produtor e músico que vinha de um universo ligado ao new beat e à electrónica. A ideia para “Pump Up the Jam” juntava precisamente algumas das linguagens que estavam a transformar a música de dança naquele momento: house, hip hop, electrónica e uma produção construída para não deixar o corpo parado.
A música tinha pouco interesse em complicar.
A bateria electrónica avançava como uma máquina, o baixo mantinha tudo preso ao chão e os sintetizadores davam-lhe aquele brilho frio que hoje identificamos imediatamente com o final dos anos 80. No meio de tudo isto entrava Ya Kid K, com uma entrega vocal que dava à faixa aquilo que uma programação electrónica, por si só, não conseguiria dar.
A Roland destaca a combinação entre dance, house e hip hop e aponta a utilização da Roland TR-909 como uma das peças da identidade sonora da gravação.
O curioso é que Bogaert não estava necessariamente a pensar em criar um fenómeno mundial.
Em 1990, já depois do sucesso americano, o produtor contou ao Los Angeles Times que procurava há anos um êxito nos Estados Unidos. Foi buscar Ya Kid K, então com 17 anos, e construiu “Pump Up the Jam” a partir das suas letras e vocais.
A faixa tinha encontrado a voz certa.
O problema foi o que aconteceu quando chegou a altura de mostrar essa voz ao mundo.
“A indústria escolheu o rosto. A música ficou com a voz.”
A mulher que cantava não era a mulher que aparecia
Ya Kid K recordou mais tarde que recebeu uma cassete de Jo Bogaert através de amigos e acabou por entrar no projecto. Quando “Pump Up the Jam” foi escolhido para uma promoção maior, a situação complicou-se.
Aos 17 anos, sem advogado, Ya Kid K não se sentia confortável a assinar documentos que não compreendia. Numa entrevista concedida anos mais tarde, contou que a editora queria que assinasse para promover o single e que, perante a sua recusa, decidiu avançar sem ela.
Depois apareceu Felly Kilingi.
A modelo congolesa passou a ser o rosto de “Pump Up the Jam”. Surgiu na capa e no videoclip, onde fazia lip sync. A voz, porém, continuava a ser de Ya Kid K. A própria cantora descreveu a situação de forma particularmente dura: sentiu que tinham apagado a sua presença da música.
A história não ficou apenas na memória de Ya Kid K.
Numa entrevista publicada pelo Los Angeles Times em Abril de 1990, Jo Bogaert foi directo sobre o papel de Felly. Explicou que ela tinha sido necessária para ajudar a promover o grupo e criar uma imagem. E confirmou que ele, MC Eric e Ya Kid K tinham feito o trabalho musical.
A frase é importante porque mostra como a indústria pensava naquele momento.
Primeiro criava-se a música.
Depois encontrava-se uma imagem para a vender.
Quando a música ficou maior do que a imagem
Só que “Pump Up the Jam” cresceu depressa demais para continuar escondida atrás de uma campanha promocional.
O single entrou no UK Singles Chart em Setembro de 1989 e chegou ao número dois, permanecendo 15 semanas na tabela. O álbum “Pump Up the Jam” também atingiu o segundo lugar no Reino Unido e permaneceu 44 semanas no top.
Nos Estados Unidos, a história foi ainda maior.
A faixa chegou ao número dois da Billboard Hot 100 e ajudou a abrir espaço para uma nova geração de música de dança europeia no mercado americano. Aquele som, construído na Bélgica e alimentado por referências da house e do hip hop americano, tinha conseguido atravessar o Atlântico.
A música já não precisava de uma explicação.
Precisava apenas de tocar.
E quando tocava, a voz de Ya Kid K estava lá.
Em 1990, os Technotronic partiram para a estrada como parte da digressão de Madonna, enquanto a formação começava a mudar a forma como o público via o projecto. Ya Kid K passou a assumir uma presença muito mais evidente. O segundo grande single, “Get Up! (Before the Night Is Over)”, já não escondia da mesma forma quem estava por trás da voz.
A imagem tinha começado a perder a batalha.
A música estava a ganhar.
Trinta anos depois, a batida ainda sabe o caminho
“Pump Up the Jam” envelheceu sem tentar esconder a idade.
Ouvem-se os sintetizadores de 1989. Ouvem-se as máquinas. Ouvem-se os sons de uma época em que a música de dança começava a perceber que podia sair da discoteca e ocupar a rádio, a televisão e as tabelas de vendas.
Mas existe uma coisa que não envelheceu.
A batida.
É uma daquelas gravações que não precisa de apresentação. Os primeiros segundos chegam e o corpo reconhece antes da cabeça. Não é preciso saber quem produziu, quem escreveu ou quem apareceu no videoclip. A música simplesmente começa e sabe-se onde estamos.
Talvez seja essa a ironia mais bonita desta história.
A indústria preocupou-se tanto em escolher o rosto certo que acabou por criar uma confusão que dura até hoje. Mas ninguém conseguiu substituir a voz.
Ya Kid K ficou dentro da gravação.
Felly ficou dentro das imagens.
E “Pump Up the Jam” ficou no meio das duas.
É por isso que voltar hoje à música não é apenas regressar a um clássico de dança. É também ouvir uma pequena história sobre quem recebe o crédito, quem fica visível e quem pode desaparecer quando uma indústria decide que uma imagem vende melhor do que uma pessoa.
No fim, porém, a música fez aquilo que a indústria não conseguiu controlar.
Sobreviveu.
Sabias que?
A primeira edição do single apareceu creditada como Technotronic featuring Felly, apesar de Ya Kid K ser a voz da gravação. O próprio Jo Bogaert confirmou em 1990 que Felly tinha sido escolhida para ajudar a criar a imagem do projecto e que não era a cantora.
Ficha do Lado B
Artista: Technotronic
Tema: “Pump Up the Jam”
Ano: 1989
Origem: Bélgica
Voz: Ya Kid K
Nome: Manuela Kamosi
Produção: Jo Bogaert
Rosto do videoclip original: Felly Kilingi
UK Singles Chart: Nº 2
Billboard Hot 100: Nº 2
Portugal: Nº 1
