Os The Black Wizards regressam sete anos depois de Reflections, mas não parecem interessados em recuperar exactamente o lugar onde ficaram. Force Majeure & The Acts of God, quarto álbum do trio do Porto, chega a 4 de setembro pela Hassle Records e encontra Joana Brito, José Gomes e Helena Peixoto a afastarem-se do peso mais arrastado do stoner rock para uma linguagem mais rápida, crua e directa.
A mudança não aconteceu num laboratório controlado. O disco nasceu de uma sucessão de imprevistos, gravações comprimidas no tempo e decisões tomadas à última hora. Em vez de limar essas marcas, os The Black Wizards deixaram-nas ficar. E é precisamente aí que o novo álbum começa a ganhar personalidade.
Cinco dias para gravar um disco
O plano inicial não sobreviveu ao processo. Cooper Crain, dos CAVE e Bitchin’ Bajas, acabou por viajar de Chicago para o Porto para trabalhar com a banda nos Arda Recorders. Em cinco dias intensos, as dez canções do álbum foram gravadas num processo que exigiu decisões rápidas.
Crain levou consigo máquinas de bobines para trabalhar em analógico. À última hora, porém, foi necessário abandonar esse plano e gravar digitalmente.
Podia ter sido apenas uma contrariedade técnica. Acabou por influenciar o resultado.
O disco mantém as arestas. Não parece excessivamente polido nem preocupado em esconder cada pequena imperfeição. Joana Brito resume essa escolha de uma forma particularmente certeira: “It’s kinda nice to see imperfections these days when everything evolves into AI-based”, (O mundo está a caminhar de tal maneira que, se acabares de escrever uma canção sobre algo que te toca profundamente, no dia seguinte já aconteceu uma nova merda.”).
A frase não funciona apenas como comentário sobre produção. Também explica uma atitude. Num momento em que quase tudo pode ser corrigido, alinhado e reconstruído, os The Black Wizards preferem deixar alguma coisa fora do lugar.
O stoner rock já não manda aqui
O passado da banda continua audível, mas perdeu o controlo sobre a direcção musical.
Aquele peso mais expansivo e a névoa psicadélica associada aos trabalhos anteriores foram reduzidos para dar espaço a garage rock, proto-punk, blues e uma energia muito mais física. As músicas já não avançam lentamente para encontrar o impacto. Chegam mais depressa.
“Loose” é uma das melhores pistas para perceber essa transformação. A guitarra de Joana Brito mantém a tensão, o baixo de José Gomes dá corpo ao groove e Helena Peixoto conduz a música com uma bateria que parece estar sempre ligeiramente à frente do resto.
A própria canção nasceu de uma ideia muito concreta: ansiedade, a sensação de ficar preso dentro da própria cabeça e as pequenas lutas do quotidiano, desde os empregos das nove às cinco até aos salários baixos e às más condições de trabalho.
O que poderia resultar numa canção pesada transforma-se noutra coisa. Existe tensão, mas também movimento.
E essa palavra é importante para compreender o novo disco.
Os The Black Wizards não ficaram mais leves. Ficaram mais rápidos.
“Beat” começa pela bateria
Se “Loose” mostra a nova direcção, “Beat” revela uma mudança ainda mais interessante no processo de composição.
É a única faixa do álbum construída primeiro a partir de um drum beat. A decisão parece simples, mas altera a hierarquia habitual de uma banda de rock. Em vez de a guitarra abrir o caminho e os restantes instrumentos se organizarem à sua volta, o ritmo passa a ser o ponto de partida.
Isso ajuda a explicar a sensação de urgência que atravessa o disco.
A bateria de Helena Peixoto deixa de ser apenas a força que mantém as canções em movimento. Passa a participar na própria arquitectura das músicas.
É uma mudança pequena no método, mas grande no resultado. O novo som dos The Black Wizards parece menos interessado em construir paredes e mais preocupado em criar impulso.
O artwork de Force Majeure & The Acts of God, criado por Braulio Amado, acompanha essa atitude. No visual de “Beat”, uma figura desenhada dança no centro enquanto uma espécie de roleta acontece num canto da imagem. A frase “Hide yourself in a corner / Pray they won’t notice you there / Freak” acrescenta uma camada de ansiedade ao conjunto.
Tudo parece estar a mexer-se.
Um disco sobre um mundo que não pára
O título Force Majeure & The Acts of God parece uma piada burocrática. É também uma boa descrição do estado mental do álbum.
A expressão refere-se a circunstâncias fora do controlo. Para os The Black Wizards, acabou por representar tanto os problemas concretos da gravação como o caos político e social que atravessa as canções.
José Gomes coloca a questão de forma quase brutal: “The world is going the way that if you finish writing a song about something that deeply touches you, by the next day there is new shit happening.”
É difícil imaginar uma frase que explique melhor a urgência do disco.
Joana Brito mergulhou em leituras sobre política, género e masculinidade tóxica enquanto trabalhava nas letras. As ideias aparecem depois transformadas em canções sobre poder, tribalismo, liderança vazia e a forma como as pessoas representam aquilo que querem ser.
Mas Force Majeure & The Acts of God não parece interessado em terminar num lugar de desespero.
Esse é talvez o aspecto mais importante.
Os The Black Wizards respondem à desordem com ligação. Com uma banda a tocar junta. Com humor. Com guitarras. Com vontade de continuar a criar.
O álbum não tenta resolver o caos.
Ficha
Artista: The Black Wizards
Origem: Porto, Portugal
Formação: Joana Brito, José Gomes e Helena Peixoto
Álbum: Force Majeure & The Acts of God
Lançamento: 4 de setembro de 2026
Editora: Hassle Records
Produção e mistura: Cooper Crain
Gravação: Arda Recorders, Porto
Arte: Braulio Amado
Faixas: 10
