Nascidos em Ponta Delgada, em 2017, os The Quiet Bottom têm construído um percurso onde o rock e o pop se cruzam com uma identidade profundamente ligada aos Açores. Depois de dois EPs e da edição do primeiro álbum de longa duração, em 2025, a banda continua a procurar novas formas de levar a sua música para dentro e para fora do arquipélago.
Nesta conversa com o Música Total, os cinco músicos apresentam-se, recordam o início da banda e falam sobre a evolução do projecto, a importância de São Miguel na criação das canções, os videoclipes filmados nos Açores e a energia que procuram levar para o palco.
Entre referências musicais, dificuldades e ambições, fica uma ideia que atravessa toda a conversa: mesmo quando cantam em inglês, os The Quiet Bottom continuam a fazer música a partir do lugar onde vivem.
«Tudo o que é dito é dito com a alma de um açoriano», resume João Melo.
Entrevista The Quiet Bottom: uma voz açoriana entre o rock e o pop
Para começarmos, apresentem-nos os The Quiet Bottom. Quem são os músicos que fazem parte da banda, que instrumentos toca cada um e como nasceu a formação actual?
Olá a todos. Os The Quiet Bottom são uma banda composta por cinco elementos: dois guitarristas, António Couto e Ben Oliveira; um baixista, Nuno Pacheco; um baterista, Jimmy Santos; e um vocalista, João Melo.
Antes desta formação, tivemos Marcos Falcão na guitarra, Filipe Ponte na bateria e Paulo Andrade no baixo. Mas esta formação actual já tem alguns anos.
A banda nasceu em Ponta Delgada, em 2017. Que história está por trás desse primeiro encontro e da decisão de formar os The Quiet Bottom?
Eu tinha uma banda de covers com o Marcos Falcão, onde era vocalista, e, quando fazíamos uma pausa nos ensaios, eu tocava alguns originais na guitarra. O Marcos insistia que devia formar uma banda com esses temas.
A dada altura, surgiu a oportunidade de tocarmos no Tremor, em 2017, e convidei uns amigos para nos ajudar a pôr esse projecto em andamento. Convidámos o Fonseca e o Nuno e arrancámos com as músicas que já tinha trabalhado com o Marcos na sala de ensaios.
Foi quase um feliz acaso, porque já tínhamos as músicas. Só precisavam de ser “limadas”.
Quando começaram, que ideia tinham para a banda? O projecto que imaginavam naquela altura ainda está presente naquilo que fazem hoje?
A ideia era muito vaga no início. Queríamos que fosse um projecto mais virado para o rock, mas as músicas eram muito variadas.
Eu tinha a ideia de, após os concertos do Tremor e do Festival Monte Verde, fazer um lançamento triplo, de três EPs, que contassem uma história e uma viagem ao fundo do mar: o nascimento, a viagem e a ascensão, usando elementos da mitologia grega.
Consegui completar dois desses EPs, mas o terceiro teve de ser adiado por motivos pessoais. Uma tragédia familiar adiou esses planos e estive dois anos a procurar um sentido para a minha música e para a minha vida.
Ao longo do percurso editaram dois EPs e, em 2025, chegaram ao primeiro longa duração. O que mudou na banda entre os primeiros lançamentos e esse álbum?
Mudou muito, mas também não mudou nada. A entrada dos novos elementos trouxe outras ideias, o que contribuiu para melhorar as ideias iniciais das demos que tinha gravado. Mas a ideia-base de manter uma certa identidade nas músicas manteve-se.
O não seguir grandes regras e deixar os músicos darem o seu cunho, sem grandes restrições, manteve-se.
Já o lançamento do álbum foi um pouco contra a vontade da banda, que preferia fazer um lançamento faseado, em vários singles. Mas eu recusei a ideia, por achar que a banda devia ter um disco como deve ser, sem ser fast-food.
Foi, sem dúvida, a melhor opção. Obrigou a algum trabalho extra, mas compensou ao ver o produto finalizado, nem que seja só para nosso orgulho.
O que é que o álbum de 2025 vos permitiu fazer que ainda não tinham conseguido explorar nos trabalhos anteriores?
Na verdade, nada. As músicas eram as mesmas que trabalhávamos durante o ano nos ensaios.
Mais do que tudo, permitiu mostrar que a banda consegue fazer dez músicas e reuni-las num conjunto mais abrangente, além de ter material suficiente para dar um concerto com pés e cabeça. Nem que seja para abrir para um artista de maior dimensão.
A vossa música cruza rock e pop, mas existe uma ligação muito forte aos Açores. Quando perceberam que a Açorianidade iria ser uma parte importante da identidade dos The Quiet Bottom?
É impossível recusar a ideia de que somos ilhéus. Todo este espírito açoriano, de uma certa melancolia e resiliência, reflecte-se em toda a nossa música.
Mesmo cantando em inglês, tudo o que é dito é dito com a alma de um açoriano. Eu sei que os restantes músicos sentem o mesmo. Vejo isso sempre que ensaiamos.
De vez em quando, tentamos fazer uma coisa mais “internacional”, mas acabo sempre por ir buscar as ideias aqui mesmo.
Costumam descrever a vossa música como “doce como a queijada da Vila e salgada como o mar dos Açores”. Como nasceu esta definição e o que é que ela diz sobre a vossa forma de criar?
Essa ideia está na forma como são criadas e escolhidas as canções. Não quero que seja tudo amor, ou tudo ódio, ou tudo noitadas com os amigos. Tudo faz parte da vida.
Não quero que a criação se restrinja a um tipo de música só porque fica bem. Tudo fica bem. Ora estamos a tocar uma balada acústica, ora, logo a seguir, estamos a partir tudo com a máxima intensidade.
Assim é a vida. Ora doce como uma bela queijada da Vila, ora salgada como o mar dos Açores.
Os Açores aparecem também nos vossos videoclipes. Porque é importante para vocês mostrar o arquipélago através da imagem e não apenas através da música?
Aqui, a escolha já não é bem minha. As ideias dos vídeos são discutidas com os realizadores, mas é quase impossível não usar imagens destas.
É que estamos a rivalizar com os melhores destinos do mundo, taco a taco. Diria que estamos furos acima!
Lá está, é impossível fugir a esta identidade tão forte. E, para os realizadores, ainda é mais influente, pois as imagens contam uma história por si só.
São Miguel é apenas o lugar onde a banda nasceu ou também influencia directamente a maneira como compõem, escrevem e pensam as canções?
Neste momento, é a principal fonte de inspiração, mas eu vou bebendo aqui e ali, de outros sítios. Nos livros, nas viagens.
Nós todos temos a sorte de ter viajado um pouco, e isso ajuda, sem dúvida, a perceber que, afinal, não somos assim tão extraterrestres como às vezes pensamos ser.
Mas, sem dúvida, que aqui há uma diferença. Explicá-la não consigo, mas sinto-a.
Sete videoclipes depois, existe algum que tenha um significado especial para vocês? E porquê?
Vocês escolhiam um filho favorito? Gosto de todos.
O primeiro, “Dreamer”, recordo que foi um acordar para a realidade. Idealizei tudo. Tinha a história toda montada na cabeça e o nosso baixista cobrou uns favores para fazer o vídeo acontecer.
Na primeira reunião com a equipa, percebi logo que, para se fazer um vídeo megalómano, é preciso um orçamento a condizer. Foi realmente um abrir de olhos.
Todos os vídeos, CDs, T-shirts e afins são totalmente financiados por nós próprios, o que obriga a alguma ginástica.
Gosto muito do “Summer Love”. Acho que tem tudo a ver com a música. Ainda gostava de fazer um à minha maneira.
Quem vos vê ao vivo encontra uma banda com bastante energia. O palco muda a forma como interpretam as músicas?
Sim.
As músicas têm um aspecto curioso. No momento em que as gravamos, estamos 90% satisfeitos com elas, mas, à medida que o tempo passa, vamos tendo ideias novas que poderiam ter acontecido, mas não aconteceram, e essa percentagem vai descendo.
É exactamente ao vivo que fazemos essas ideias acontecer. Por exemplo, em “Million”, eu canto o refrão da primeira demo, que nunca chegou ao CD final.
Mas, dentro do possível, tentamos respeitar o público e tocar aquilo que ele conhece.
Existe alguma diferença entre aquilo que querem transmitir num disco e aquilo que procuram provocar num concerto?
Não. O problema é que o disco obriga a alguma contenção e método. As ideias vão cristalizar. É preciso ser mais perfeccionista.
Já no concerto, a energia é natural. Vem sem restrições.
O ideal seria fazer isso no estúdio, mas é uma característica que vem com o tempo e a experiência. É para isso que vamos trabalhando.
Como sentem actualmente a cena musical açoriana? Existe espaço suficiente para as bandas locais crescerem, tocarem mais vezes e chegarem a públicos fora do arquipélago?
Essa questão não é de agora. Os nossos pais e avós também reflectiram sobre isso e provavelmente também quiseram dar o salto e tocar pelo mundo fora.
Talvez agora possa ser mais fácil, uma vez que a música está espalhada na Internet. Mas a questão mantém-se. É preciso ser ouvido no sítio certo, pela pessoa certa, e estar pronto para aceitar o convite.
Por outro lado, estamos ao mesmo nível que os restantes, mas com orçamentos substancialmente menores, se é que eles existem.
Há espaço para crescer, mas o ouvido dos promotores e agentes também está virado para o mercado. É natural.
Às vezes, é preciso fazer algumas coisas de que não se gosta para se chegar onde se quer, mas eu sou chato e só faço a música original que quero. Se for para outros, faço o que for preciso, mas, para mim, tem de ser assim. Não consigo evitar.
Em relação à cena musical, penso que há muito a melhorar. As bandas não são associações, nem têm de ser.
Vejo alguns espaços a dar visibilidade aos projectos mais alternativos, como o Tremor, o Vaga ou o Festival Monte Verde, mas, fora isso, ainda há poucos concertos para os projectos de originais açorianos.
Mas posso estar enganado. Não estou informado o suficiente para dar uma resposta objectiva e imparcial.
Que artistas ou bandas vos têm influenciado nos últimos anos? E existem referências açorianas que tenham sido importantes para o vosso percurso?
Só posso falar por mim, mas gosto da Sara Cruz, do Cristóvam, dos The Code e da Sofia Silva, do Aníbal Raposo, da Carmen Raposo, dos Mantra Nostrum, dos Morbid Death e dos Kakerlakk.
Bem, depende do dia.
Mas confesso que ouço mais música de fora. Agora estou virado para o Beck, para a Phoebe Bridgers, para os Turnstile ou para a Ecca Vandal.
Ouço mais música nova do que música antiga. Sempre fui assim.
Depois de tudo o que já construíram desde 2017, o que sentem que ainda falta descobrir nos The Quiet Bottom?
Muitíssimo! Ainda nem fizemos um décimo do que queríamos!
Mas o caminho faz-se caminhando, e estamos cá para isso. Enquanto houver vontade, vamos rindo e chorando juntos.
No fundo, estamos a brincar às crianças, e isso é a coisa mais divertida do mundo!
Estão neste momento a trabalhar em novas músicas ou existem outros projectos que possam revelar aos leitores do Música Total?
Sim, estamos sempre a trabalhar em músicas novas.
Tocámos recentemente no Festival do Clube Motard das Furnas, nas Furnas, e estreamos um dos temas que vai fazer parte do próximo álbum.
É um trabalho constante, ora rápido, ora vagaroso, mas que já começa a ter algum corpo.
Gostariam de levar os The Quiet Bottom para fora dos Açores? Que tipo de palco ou público gostariam de conquistar nos próximos tempos?
Sim, se a oportunidade surgir, vamos agarrá-la.
Já houve algumas tentativas nesse sentido, mas, sem os devidos apoios, é difícil fazer deslocar tanta gente para fora dos Açores.
Para nós, qualquer palco é um bom palco. Se tiver o mínimo de condições, é tão digno quanto o Rock in Rio.
No fim das contas, estamos lá para as pessoas. Se fizermos alguém feliz, o objectivo foi cumprido.
Se pudessem escolher um único objectivo para a banda nos próximos anos, qual seria?
Dar mais concertos.
Para terminar, que música dos The Quiet Bottom escolheriam para apresentar a banda a alguém que nunca vos ouviu? E o que gostariam que essa pessoa descobrisse nessa canção?
“Summer Love”. Mostrem o que valem, sempre, de coração aberto.
