Ulrika Spacek — EXPO Full Time Hobby, 2026

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Há bandas que existem para ser descobertas tarde. Ulrika Spacek é uma delas. Dez anos de carreira, quatro álbuns, um culto silencioso e uma consistência que a maior parte das bandas britânicas da sua geração nunca chegou a ter. EXPO não é o disco que vai mudar isso. Mas devia.

O quinteto de Londres entrou em estúdio com uma ideia clara: construir a sua própria caixa de samples, gravar drums reais por cima de drums digitais, criar um duplo fantasma de si mesmos. O resultado é um disco que soa a alguma coisa familiar mas nunca igual a nada em concreto. Trip hop, krautrock, pós-Radiohead, rock psicodélico. Tudo presente, nenhum deles dominante.

“Picto” abre o disco com ritmos crepitantes, voz fantasmagórica, piano e trompete a aparecerem onde não se espera. É uma declaração de intenções. A banda interessa-se pelo glitch que existe entre o analógico e o electrónico, pelo espaço onde as duas coisas se confundem e nenhuma ganha. “Build a Box Then Break It” vai mais fundo nessa fricção: bateria pesada, synths cortantes, qualquer coisa entre os Portishead e os Radiohead que ao mesmo tempo não soa nem a uns nem a outros. “Weights & Measures” funciona como banda sonora de um filme que ainda não foi feito, cresce até um clímax teatral que desaba sem aviso.

A letra central do disco está na nota de imprensa. A era da individualidade é solitária, dizem. É uma sala de espelhos côncavos, toda a gente a exibir-se online, a viver em público, a querer ser vista. O Rhys Edwards escreveu grande parte das letras em digressão pelos Estados Unidos, à espera do nascimento da filha, a pensar no mundo que ela ia herdar. Esse peso carrega-se em cada faixa. Não com drama, mas com o cansaço específico de quem olha à volta e percebe que não há saída simples.

“Incomplete Symphony” fecha o disco como um suspiro resignado. O título mente: o disco é coeso, bem construído, sem gordura. É arte rock feita por gente que já não tem nada a provar a ninguém, e talvez seja exactamente isso que lhes permite fazer algo assim.

EXPO não se entrega na primeira escuta. Precisa de tempo, de headphones, de disposição para entrar num universo que não está pensado para agradar de imediato. Quem tiver paciência vai encontrar um dos melhores discos do ano.

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