Domingo, 23 de Agosto de 2026
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Verão 2026 nos Açores: muita festa, mas onde ficaram as grandes noites de música?

Por Jorge Silva Medeiros 23 Ago 2026

O verão musical de 2026 nos Açores está a chegar ao fim e deixa uma conclusão difícil de ignorar: houve muita festa, mas poucas noites verdadeiramente memoráveis pela música. Ponta Delgada é o caso mais evidente. A cidade teve movimento, festas, DJs e muita gente na rua, mas ficou a faltar aquela programação capaz de provocar surpresa, discussão e verdadeira adrenalina.

A contradição torna-se ainda maior quando olhamos para aquilo que está a acontecer fora dos grandes palcos. A música açoriana está viva. Surgem projectos com repertório original, novos sons, novas misturas e artistas que procuram uma identidade própria. A prata da casa está na mó de cima. O problema não parece ser falta de talento. Parece ser falta de programação capaz de o reconhecer.

Ponta Delgada precisava de mais risco

Ponta Delgada tinha uma responsabilidade especial em 2026. Como Capital Portuguesa da Cultura, a cidade apresentou uma programação cultural ambiciosa e assumiu a intenção de promover criação, novos repertórios e maior ligação entre músicos, espaços e festivais.

Por isso, o verão podia ter sido mais corajoso.

O White Ocean voltou a demonstrar a enorme capacidade de mobilização da cidade. As ruas encheram-se de branco, os DJs assumiram o comando da noite e a festa funcionou. Nada disso está em causa. O problema aparece quando a capacidade de encher uma praça passa a ser confundida com a capacidade de construir uma programação musical marcante.

Ponta Delgada precisava de concertos que arriscassem mais. De artistas menos óbvios. De projectos açorianos colocados em horários capazes de os fazer crescer. De cruzamentos inesperados. De noites em que o público não soubesse exactamente o que ia encontrar.

Programar não é apenas garantir público. É também aceitar o risco de o surpreender.

A prata da casa está na mó de cima

Esta é talvez a maior contradição do verão açoriano.

Enquanto parte da programação continua muito dependente de festas, DJs e formatos já conhecidos, existe uma geração de músicos e projectos açorianos a trabalhar música original e a procurar outros caminhos.

Não é uma questão de escolher entre DJs e bandas. Um DJ pode incendiar uma praça e um concerto pode deixar uma sala fria. Também não é uma questão de substituir artistas nacionais ou internacionais por músicos açorianos.

A questão é saber quem escolhe, com que critério e para quê.

Os Açores não têm falta de música. Têm falta de programação capaz de perceber a música que têm.

A pergunta devia ser simples: quantos projectos açorianos com música original tiveram este verão uma oportunidade real de chegar a novos públicos?

Porque tocar num pequeno palco é importante. Mas colocar um artista açoriano antes de um nome nacional ou internacional, num horário forte e perante milhares de pessoas, pode mudar uma carreira.

É aí que a programação deixa de ser apenas entretenimento e passa a construir uma cena musical.

Maré de Agosto e North Wave mostraram o caminho

Felizmente, o verão não foi todo igual.

Em Santa Maria, a Maré de Agosto voltou a provar que um festival pode ter identidade própria. Entre 19 e 22 de agosto, a Praia Formosa recebeu nomes como Terrakota, Queen Omega & The Royal Souls, Oma Jali, Wüstenberg, Cais Sodré Funk Connection, Vitor Kley e Talco, ao lado de projectos açorianos como We Sea e A-Kids.

O importante não é apenas a quantidade de nomes. É a forma como a programação constrói uma experiência e dá sentido ao lugar. A Maré continua a ser um daqueles festivais que não parecem estar simplesmente a preencher datas no calendário.

Na Ribeira Grande, o North Wave Sound fez outra aposta. A 25 de julho, juntou LP, Mari Froes, Blaya, Sofia Silva & Code, Bruna Lennon e a açoriana Kéké numa programação que cruzou diferentes públicos e linguagens.

Dois festivais, duas identidades e uma conclusão comum: quando existe uma ideia por trás do cartaz, o público sente a diferença.

E ainda falta o Azores Burning Summer.

A 28 e 29 de agosto, na Praia dos Moinhos, em Porto Formoso, o festival apresenta Lura, Paulo Flores, Tabanka Djaz, Capitão Fausto, Zé Ibarra e Throes + The Shine, entre outras propostas. A sua ligação à sustentabilidade, à natureza, ao cinema, à arte e à comunidade ajuda também a construir uma identidade que vai além do palco.

Se confirmar em palco a expectativa criada pelo cartaz, o Burning Summer poderá ser o último grande momento musical de um verão que precisava de mais noites assim.

Agora precisamos de curadores com coragem

O tempo também não ajudou. Julho foi particularmente ingrato nos Açores, com frio e precipitação muito acima dos valores habituais em várias zonas do arquipélago. Quando aparecia o Sol, parecia muitas vezes escolher outra ilha.

Mas o mau tempo não explica tudo.

Os Açores têm condições difíceis para a programação ao ar livre. Isso faz parte da realidade das ilhas. O verdadeiro desafio está nas escolhas que se fazem quando o calendário é pensado.

O inverno é, por isso, muito mais importante do que parece. É agora que começam a ser desenhados os festivais de 2027. É agora que se escolhem nomes, se fecham datas e se decide quem merece um palco.

Precisamos de curadores que conheçam a música que está a nascer nas ilhas. Que descubram projectos antes de serem conhecidos. Que saibam misturar artistas açorianos com nomes nacionais e internacionais. Que tenham coragem para colocar um nome desconhecido num palco importante.

O verão de 2026 não foi um desastre. Teve bons momentos, bons festivais, público e muita vontade de celebrar.

Mas também revelou uma diferença que já não podemos ignorar: a música que os Açores estão a criar está a avançar mais depressa do que algumas das escolhas que a representam.

Maré de Agosto e North Wave deram provas disso. O Azores Burning Summer ainda pode acrescentar mais uma página.

Agora falta que estas excepções deixem de ser excepções.

Que venha o inverno.

E que venha com melhores escolhas.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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