Sexta-feira, 17 de Julho de 2026
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Virgem Suta: “Nunca imaginámos até onde este projeto nos podia levar”

Por Mafalda Matos 17 Jul 2026

Duas décadas depois dos primeiros ensaios em Beja, os Virgem Suta continuam a encontrar nas canções a razão principal para seguirem em frente. Entre memórias, novas perspetivas e o regresso às músicas no seu formato mais despido, a dupla prepara “Sala de Estar”, um disco que revisita parte da sua obra e que procura recuperar a espontaneidade dos primeiros tempos.

Nesta entrevista à Música Total, os Virgem Suta falam do percurso da banda, recordam os desafios de crescer longe dos grandes centros, explicam como nasceu o novo álbum acústico e refletem sobre a evolução da música portuguesa, sem perder de vista aquilo que sempre consideraram essencial: escrever boas canções.

 

 

 

Como olham hoje para aqueles primeiros ensaios em Beja e para o momento em que perceberam que os Virgem Suta podiam tornar-se algo mais do que um projeto entre amigos?

R: Olhamos para esses primeiros ensaios em Beja com alguma saudade e talvez seja por isso que tenhamos optado por regressar às canções no seu formato mais simples. O álbum que estamos a preparar é precisamente o resultado de uma reflexão sobre todos estes anos de música, sobre tudo o que já fizemos e sobre a vontade de concentrar a nossa energia naquilo de que mais gostamos: a composição e a canção no seu estado mais puro.

O início da banda nasceu da partilha de um sonho comum: fazer canções simples e partilhá-las com os amigos. Claro que também havia a ambição de crescer, de tocar por todo o lado e de chegar a mais pessoas, mas nunca imaginámos verdadeiramente até onde este projeto nos poderia levar. É bom olhar para trás e perceber que, apesar de tudo o que mudou, a essência continua exatamente a mesma.

Contrariamente ao que acontece hoje, quando começámos era muito difícil uma banda do Baixo Alentejo captar a atenção dos media ou da crítica. Lembro-me de que, quando lançámos o primeiro disco, tivemos entrevistas em que os jornalistas quase nos olhavam como “extraterrestres”, tal era a improbabilidade de surgir algo novo e diferente fora dos grandes centros.

Foi uma grande luta, mas também tivemos a sorte de nos cruzarmos com o Hélder Gonçalves, dos Clã, num festival de bandas e novos talentos. A partir desse dia, muita coisa mudou. Esse encontro acabou por ser decisivo para que as nossas canções chegassem a um público muito mais alargado.

Quando recordam os primeiros concertos, existe algum episódio ou atuação que continue especialmente vivo na memória?

R: Os primeiros concertos foram sempre uma aventura. Fizemos aquilo que todas as bandas fazem no início: procurar sítios para tocar, participar em festivais de bandas e alimentar o entusiasmo de um dia ter uma editora, uma agência e um público que quisesse ouvir as nossas canções.

Não me ocorre nenhuma peripécia em particular, mas lembro-me de que eram imensos desafios em simultâneo. Faltavam condições, havia dificuldades com os transportes, pouco tempo para ensaios de som… Enfim, era o percurso normal de uma banda que está a dar os primeiros passos e que ninguém conhece. Apesar de tudo isso, no fim havia sempre uma enorme alegria em subir ao palco e tocar. Essa é a razão primordial para se fazer música.

Canções como “Linhas Cruzadas” e “Dança de Balcão” marcaram uma geração de ouvintes. Sentiam, na altura, que estavam a criar temas que teriam uma vida tão longa?

R: De forma nenhuma. Aliás, “Dança de Balcão” nem fazia parte do lote de canções inicialmente escolhido para o disco. Era uma música que eu tinha guardada na gaveta.

O que acontece é que, a partir do momento em que uma canção é revelada, ganha vida própria. Algumas acabam por criar uma ligação mais forte com os ouvintes e tornam-se especiais por razões que nem sempre conseguimos explicar. Imagino que, em certos casos, isso aconteça porque as histórias que contam chegam às pessoas de uma forma mais direta ou mais universal.

Quando estamos a escrever uma canção, é muito difícil perceber se ela vai ter esse impacto. Claro que há temas que, por algum motivo, acabam por ser mais apelativos, mas isso é algo que só o tempo e o público acabam por confirmar.

Ao fim de tantos anos de carreira, o que continua a motivar-vos a escrever e a gravar novas músicas?

R: É, acima de tudo, o prazer de criar canções. Ao longo dos anos já nos passou pela cabeça fazer outras coisas, descobrir novos interesses ou ocupar o tempo de outra forma. Mas, sem darmos por isso, passados uns dias já estamos outra vez a escrever qualquer coisa, a pegar na guitarra ou a experimentar uma sequência de acordes.

Há coisas que não têm uma explicação racional e, para nós, este impulso de fazer canções é uma delas. É isso que continua a motivar-nos a escrever, a gravar e a seguir em frente.

Como nasceu a ideia de revisitar parte da vossa discografia em formato acústico para o álbum “Sala de Estar”?

R: A ideia surgiu de uma série de concertos que fizemos em formato acústico. Nesses espetáculos voltámos a sentir o prazer dos primeiros tempos, de quando éramos miúdos e brincávamos com as canções. De certa forma, este formato devolveu-nos a energia e o entusiasmo do início de tudo, e isso acabou por nos inspirar.

Ao mesmo tempo, percebemos que temos muitas canções na nossa discografia de que gostamos muito e que nunca tiveram a atenção que mereciam. Ficaram “escondidas” no meio dos discos e, por nunca terem sido singles, acabaram por passar despercebidas a muita gente. “Sala de Estar” também nasce dessa vontade de lhes dar uma nova vida e de as apresentar da forma mais simples do mundo, como se estivéssemos na nossa sala, entre amigos.

Ao regressarem a estas canções, descobriram nelas significados ou emoções que vos tinham escapado quando as gravaram originalmente?

R: Não sei se descobrimos novos significados, mas sentimos, acima de tudo, a emoção de perceber que estas canções envelheceram bem. Ao regressarmos a elas, confirmámos que continuam atuais, sólidas e capazes de transmitir aquilo que sempre quiseram dizer.

Isso deu-nos uma enorme alegria, porque sentimos que as canções resistiram ao tempo e se mantiveram relevantes, independentemente das modas ou das tendências.

 expressão “o sumo da Virgem Suta” acompanha-vos desde os tempos dos ensaios. De que forma essa ideia continua presente na vossa maneira de fazer música?

R: A ideia do “sumo da Virgem Suta” está relacionada com o aproveitamento da ideia primordial que dá origem a uma canção. Quando começámos a banda, fazíamos jams intermináveis que gravávamos para, mais tarde, recuperar as ideias que iam surgindo. Eram essas primeiras faíscas que, muitas vezes, davam origem às canções que considerávamos mais fortes.

Essa forma de olhar para a criação continua muito presente na nossa maneira de fazer música. Gostamos de preservar a espontaneidade e a essência da primeira ideia, porque é aí que, muitas vezes, está a identidade da canção. No fundo, continuamos a ser fãs do “sumo da Virgem Suta”.

O que pode o público esperar dos concertos da nova digressão acústica e da apresentação de “Sala de Estar” no Coliseu Club?

R: Podem esperar as canções no seu estado mais simples, com a palavra e a melodia em primeiro plano. A ideia é recriar o ambiente de uma sala de estar, como se estivéssemos reunidos entre amigos, a partilhar música, histórias e bons momentos.

Haverá, certamente, espaço para algumas histórias, boa disposição e até uns brindes pelo meio. Acreditamos que será um serão muito divertido para quem gosta de desfrutar de canções com “sumo”, num ambiente próximo, descontraído e intimista.

A música portuguesa mudou muito desde o início da vossa carreira. Que diferenças encontram hoje na forma como os artistas chegam ao público?

R: A música portuguesa mudou muito, tal como mudaram os seus intervenientes e os canais de divulgação. Hoje existe muito mais variedade e muito mais gente a fazer música, embora essa diversidade nem sempre seja visível nos meios de divulgação mais tradicionais.

Há muitos artistas com enorme talento, mas também uma grande capacidade para criar fenómenos efémeros. Vivemos numa época em que se produz música a um ritmo impressionante, enquanto, ao mesmo tempo, existem verdadeiros compositores de excelência que acabam por passar despercebidos.

A massificação da informação tornou o acesso à música mais fácil, mas também mais difícil, porque a oferta é tão vasta que nem sempre é simples chegar ao público. Ainda assim, o mais importante é que continua a haver muita gente movida pelo entusiasmo de criar canções e de partilhar emoções, histórias e mensagens positivas. E isso faz muita falta num mundo tão agitado e conflituoso como aquele em que vivemos.

Existem territórios musicais que ainda gostariam de explorar ou desafios artísticos que continuam por concretizar?

R: Há sempre desafios por cumprir, caso contrário isto deixava de ter graça. Mas não somos pessoas de grandes deslumbramentos. Aquilo que mais gostaríamos é que a inspiração nunca nos faltasse e que sentíssemos que o nosso trabalho continua a fazer sentido para o público que nos acompanha.

No fundo, esse é o nosso maior desafio: manter a ligação às canções e às pessoas, garantindo que aquilo que fazemos continua a ter propósito e relevância para nós e para o nosso público.

Quando imaginam os Virgem Suta daqui a dez anos, o que gostariam que permanecesse exatamente igual e o que gostariam de ver evoluir?

R: Imaginamo-nos a fazer cicloturismo pela Europa e, em cada paragem, a dar um concerto na rua. Pode parecer uma tolice, mas ultimamente temos falado muito nisso, porque sempre vimos a música como um veículo para chegar aos outros e, ao mesmo tempo, para conhecer o mundo.

Esta seria uma forma simples de o fazer e, certamente, muito enriquecedora. Além disso, traria experiências novas e inspiradoras, que inevitavelmente acabariam por se refletir em boas canções.

A história dos Virgem Suta: das primeiras canções ao novo álbum Sala de Estar

 

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Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.