Entre a estreia em televisão nacional, os concertos fora de Portugal e uma nova etapa acústica, os WILDCHAINS continuam a construir uma identidade própria. Em conversa com o MusicaTotal.net, a banda bracarense fala sobre as raízes, a transformação das canções e o universo conceptual de The Great Fado II, onde o fado não é música, mas destino.
A vossa estreia em televisão nacional acontece numa campanha gravada no Escadório do Bom Jesus do Monte. O que significou para vocês representar Braga num contexto com esta dimensão?
Representar Braga desta forma teve um peso especial, porque a cidade sempre fez parte da identidade dos WILDCHAINS. Não foi simplesmente gravar uma campanha num cenário bonito: estávamos no Bom Jesus, num dos lugares mais reconhecíveis da nossa cidade, a representar Braga perante um público nacional. Para uma banda que começou aqui e que tem levado o nome da cidade consigo desde o início, foi daqueles momentos em que percebemos que o percurso começa a chegar a lugares que não imaginávamos há alguns anos. É um orgulho poder sermos reconhecidos como a «banda de Braga».
Estão habituados a um universo de alternative/heavy rock, mas nesta campanha reinterpretam a assinatura sonora «I’m Lovin’ It». Como foi adaptar a identidade dos WILDCHAINS a uma proposta tão diferente daquilo que costumam fazer?
O desafio foi precisamente não tentar transformar o «I’m Lovin’ It» numa música dos WILDCHAINS à força. É uma assinatura que toda a gente reconhece imediatamente, por isso tentámos perceber até onde podíamos levá-la sem perder essa identidade. Trabalhámos sobretudo a sonoridade, as guitarras e a forma como a interpretámos, para que continuasse familiar, mas tivesse alguma coisa nossa. Foi divertido porque, apesar de ser um jingle de curta duração, obrigou-nos a sair completamente do contexto habitual da banda.
Quando chegaram ao Bom Jesus para gravar, houve algum momento ou imagem desse dia que tenha ficado particularmente marcado na memória da banda?
Mais do que um momento específico, ficou-nos muito a imagem de ver toda aquela produção montada no Bom Jesus, um lugar que para nós é perfeitamente familiar, mas que naquele dia estava transformado no cenário de uma campanha nacional. Há uma diferença enorme entre passar por um lugar centenas de vezes e, de repente, estar lá com câmaras, uma equipa de produção e toda uma estrutura porque fomos escolhidos para representar a cidade.
Braga está muito presente na vossa história desde a formação da banda, em 2021. De que forma a cidade influenciou a música, a estética ou a atitude dos WILDCHAINS?
Braga influencia-nos provavelmente mais do que percebemos conscientemente. Há uma mistura muito particular entre história, tradição, símbolos quase religiosos e uma cidade cada vez mais jovem e criativa. Essa dualidade acaba por ter alguma relação com aquilo que fazemos: gostamos de juntar elementos antigos, ritualistas ou simbólicos a uma linguagem musical e visual contemporânea. E, acima de tudo, foi aqui que a banda cresceu, ensaiou, deu concertos e criou grande parte daquilo que hoje identifica os WILDCHAINS.
Em 2026, deram também o passo para os palcos internacionais, com concertos em Espanha. O que descobriram sobre a vossa própria música quando começaram a apresentá-la fora de Portugal?
Percebemos sobretudo que a música consegue comunicar antes de qualquer outra coisa. Quando tocamos fora de Portugal, estamos perante pessoas que não conhecem a nossa história, não têm uma ligação emocional connosco e, muitas vezes, nunca ouviram uma música nossa. Isso obriga-nos a perceber muito rapidamente se aquilo que construímos funciona por si só. Espanha deu-nos confiança nesse sentido e também mostrou que há espaço para o projeto crescer fora de Portugal.
Estão agora a preparar uma série de atuações acústicas em espaços FNAC. O que muda quando retiram parte da dimensão elétrica e cinematográfica dos WILDCHAINS e deixam as canções mais expostas?
No formato acústico, desaparecem muitas das coisas atrás das quais uma banda de rock se pode esconder. Há menos volume, menos distorção e menos impacto imediato, pelo que a composição, a voz, as harmonias e a dinâmica ficam muito mais expostas.
Mas não queremos que isso signifique simplesmente «WILDCHAINS sem guitarras pesadas». O objetivo é encontrar outra maneira de criar intensidade emocional através de novos arranjos e novas versões das nossas próprias composições.
Uma banda pode revelar coisas diferentes quando toca em formato acústico. Há alguma música dos WILDCHAINS que vos tenha surpreendido particularmente nessa transformação?
«Another Lie» é provavelmente o exemplo mais evidente. Já tínhamos explorado essa possibilidade quando fizemos a versão «Heavenly» e percebemos que a música continuava a funcionar mesmo quando retirávamos grande parte daquilo que inicialmente lhe dava peso.
Foi também uma boa confirmação de que uma canção nossa não precisa necessariamente de distorção ou peso para manter a sua identidade e continuar a resultar numa interpretação diferente.
Estão a finalizar The Great Fado II, a segunda parte do projeto conceptual iniciado este ano. O que podem revelar sobre o ponto em que se encontra atualmente este novo trabalho?
Estamos na fase final de construção de The Great Fado II. É a continuação direta da primeira parte, mas sentimos que leva o conceito mais longe, tanto musicalmente como na narrativa e na componente visual.
Não queremos revelar demasiado antes do tempo, mas esta segunda parte ajuda a perceber melhor várias ideias que ficaram abertas em The Great Fado I e dá outra dimensão ao universo que temos vindo a construir. Para nós, as duas partes fazem realmente sentido quando vistas como uma única obra.
No universo de The Great Fado, «fado» representa destino e não o género musical. Como nasceu esta ideia e porque sentiram necessidade de trabalhar o conceito de destino através da música?
A palavra «fado» interessa-nos precisamente porque, antes de ser associada ao género musical, significa destino.
Grande parte das músicas que estávamos a escrever acabava por tocar, de formas diferentes, naquilo que não conseguimos controlar: a perda, as relações, a memória, a morte, as decisões que tomamos e as consequências com que depois temos de viver. Em determinado momento, percebemos que havia uma ideia comum a unir tudo isso.
The Great Fado nasceu daí: da tentativa de perceber até que ponto controlamos aquilo que nos acontece e o que fazemos quando percebemos que há coisas que simplesmente não conseguimos mudar. O «Fado» acaba por ser uma entidade que nos acompanha e molda tudo aquilo que foi necessário para hoje sermos quem somos, individualmente e como banda.
Perda, memória, transformação e identidade são temas associados a este universo. Qual destes conceitos acabou por se tornar mais importante na construção de The Great Fado II?
Provavelmente, a transformação.
A perda e a memória estão muito presentes, mas são quase o ponto de partida. Aquilo que acaba por estar no centro é a tentativa de compreender o que acontece depois: como uma pessoa muda, o que leva consigo, aquilo que abandona e aquilo em que se transforma.
The Great Fado II acaba por viver bastante nesse espaço entre aceitar aquilo que aconteceu e decidir continuar apesar disso.
Depois de mais de 50 concertos, passagens por Portugal e Espanha, concursos, televisão e novos formatos ao vivo, sentem que os WILDCHAINS estão hoje muito diferentes da banda que começou em Braga, em 2021?
Muito.
Em 2021, havia essencialmente músicas e uma vontade enorme de as pôr em palco. Hoje, existe uma identidade muito mais consciente: sabemos melhor como queremos soar, como queremos aparecer, que histórias queremos contar e até que oportunidades fazem ou não sentido para a banda.
Ao mesmo tempo, há coisas que não mudaram. Continuamos a querer que cada pessoa dentro dos WILDCHAINS deixe a sua identidade na música. Aliás, foi precisamente isso que fez com que o projeto deixasse de ser pensado como algo individual e passasse a ser uma banda.
Se olharem para os próximos meses, o que gostariam que acontecesse para sentirem que esta nova fase dos WILDCHAINS realmente começou?
Mais do que um acontecimento específico, gostaríamos de olhar para trás daqui a alguns meses e perceber que tudo isto começou a ligar-se.
Queremos terminar The Great Fado II exatamente como o imaginámos, levar esta nova fase para palco, fazer a digressão pelas FNAC, continuar a tocar fora de Portugal e conseguir chegar a pessoas que ainda não sabem quem somos.
Se conseguirmos sentir que os WILDCHAINS deixaram de estar apenas a acumular momentos isolados e passaram realmente para um novo nível de continuidade e crescimento, então esta fase começou como queríamos.
LER https://musicatotal.net/wildchains-estreiam-se-na-televisao-nacional-braga/
