O primeiro álbum de Noiserv não tenta parecer maior do que é. Faz precisamente o contrário. David Santos constrói One Hundred Miles from Thoughtlessness a partir de canções pequenas, instrumentos acumulados, objectos sonoros e melodias que raramente procuram dominar o espaço. A ambição está escondida no trabalho.
Editado em 2008, este disco apresenta um universo que parece construído à mão. Cada som entra por uma razão. Uma guitarra, uma caixa de música, um teclado ou um pequeno ruído podem alterar completamente a direcção de uma canção. A música de Noiserv começa aqui a revelar uma ideia simples, mas difícil de executar: fazer muito sem dar a sensação de excesso.
O som não serve para encher o espaço
A imagem de David Santos rodeado de instrumentos podia facilmente transformar-se num espectáculo de habilidade. O músico que toca tudo. O homem-orquestra. A demonstração técnica como argumento principal.
One Hundred Miles from Thoughtlessness evita essa armadilha.
Os instrumentos não existem para provar aquilo que Noiserv consegue tocar. Servem para alterar a canção. Uma textura aparece e desaparece. Um som pequeno cria profundidade. Uma pausa pode ter tanto peso como um novo instrumento.
As canções têm frequentemente uma base simples, mas a produção muda a forma como as ouvimos. O detalhe não está ali como decoração. Faz parte da composição.
Existe, no entanto, um risco. Quando a mesma linguagem se prolonga demasiado, algumas faixas podem ficar demasiado próximas umas das outras. Por vezes, a atmosfera chega antes da canção.
É uma fragilidade real do disco, mas também ajuda a explicar a sua identidade.
Três canções para entrar neste mundo
“Consolation Prize” mostra bem a forma como Noiserv trabalha. A canção começa contida e deixa que os detalhes façam o trabalho emocional. Nada parece excessivo, mas existe uma construção constante por baixo da superfície.
“Tokyo Girl” introduz uma inquietação diferente. A repetição e o ambiente criam uma tensão menos confortável, afastando o disco da imagem de simples delicadeza indie. É importante porque mostra que este universo não vive apenas da fragilidade.
Em “Bullets on Parade”, a tensão torna-se ainda mais evidente. A canção tem uma dimensão mais inquieta e mostra como a produção pode ser parte activa da narrativa. Os sons não acompanham simplesmente a voz. Criam o espaço onde a canção acontece.
Estas diferenças impedem que o álbum se transforme numa simples colecção de canções atmosféricas. Nem todas têm o mesmo peso, mas existe uma preocupação clara em procurar caminhos diferentes dentro da mesma linguagem.
Um mundo construído à escala humana
Noiserv pertenceu a uma geração de músicos para quem a independência também significava liberdade de construção. Não era preciso uma grande estrutura para criar um disco com personalidade.
Mas reduzir One Hundred Miles from Thoughtlessness à ideia de música feita em casa seria demasiado simples.
David Santos construiu uma linguagem própria. A voz, os instrumentos, os pequenos ruídos e a forma como as canções avançam fazem parte do mesmo território. A proximidade não resulta apenas da dimensão da produção. Resulta da maneira como o disco deixa ouvir o processo.
Em palco, Noiserv tornou-se conhecido pela quantidade de instrumentos que consegue integrar numa actuação. No disco, a questão é diferente. O importante não é tocar mais.
É saber o que deixar entrar.
E, sobretudo, saber o que deixar de fora.
Onde o disco continua a funcionar
Muitos discos associados à música independente do final dos anos 2000 ficaram presos às sonoridades do seu tempo. One Hundred Miles from Thoughtlessness conseguiu escapar parcialmente a esse problema.
A razão está na composição.
A produção é importante, mas não vive separada das canções. Os sons, os instrumentos e os pequenos acidentes fazem parte da maneira como Noiserv escreve música.
Não é um álbum perfeito. A coerência do universo pode aproximar demasiado algumas faixas e, em certos momentos, a construção sonora torna-se mais memorável do que a própria canção.
Mas é precisamente nessa tensão que o disco ganha interesse.
Noiserv não estava a tentar competir com a dimensão da pop internacional. Estava a construir outra escala. Uma canção podia começar com pouco e acabar por parecer um espaço inteiro.
Quando o disco termina, ficam pequenas coisas. Uma melodia. Um ruído. Uma pausa. Uma ideia que parecia demasiado pequena para justificar uma canção.
E que acabou por ficar.
Ficha do Disco
Ano: 2008
Artista: Noiserv
Género: Indie folk, pop independente, experimental
Temas essenciais: “Consolation Prize”, “Tokyo Girl”, “Bullets on Parade”, “For The Ones Who Left Me”
O que o distingue: A capacidade de transformar instrumentos, ruídos e pequenos detalhes numa linguagem de composição própria.
Pontuação Música Total: 8,5/10
Veredicto: Um disco essencial para perceber uma parte da música independente portuguesa dos anos 2000. A imaginação sonora e a produção são a sua maior força, embora nem todas as canções consigam escapar completamente à mesma atmosfera.
