Sexta-feira, 11 de Setembro de 2026
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11 de Setembro de 2001: o dia em que a música estava a chegar às lojas quando o mundo parou

Por Jorge Silva Medeiros 11 Set 2026

Naquela manhã, as lojas de discos de Nova Iorque preparavam-se para um dia importante. Havia novidades para colocar nas prateleiras, encomendas para receber e clientes à espera de novos álbuns. Entre os lançamentos estavam The Blueprint, de Jay Z, Love & Theft, de Bob Dylan, The Glow Pt. 2, dos Microphones, e Live Scenes from New York, dos Dream Theater.

Era terça feira, o tradicional dia de grandes lançamentos discográficos nos Estados Unidos.

Nas lojas, ninguém sabia ainda que aqueles discos ficariam associados a uma data que mudaria a história.

Uma terça feira de grandes lançamentos

Em 2001, a música ainda chegava sobretudo através de CDs, lojas físicas, rádio e televisão. O streaming não fazia parte do quotidiano e o iPod só seria apresentado em Outubro desse ano.

Um novo álbum precisava de espaço numa prateleira, de publicidade, de crítica nas revistas especializadas e de exposição nas rádios. Uma terça feira com vários lançamentos importantes podia significar uma semana decisiva para uma editora ou para um artista.

11 de Setembro era precisamente uma dessas terças feiras.

Jay Z tinha antecipado o lançamento de The Blueprint para combater a circulação ilegal do álbum antes da data prevista. O disco acabaria por estrear no primeiro lugar e tornar-se uma das obras fundamentais da carreira do rapper.

Bob Dylan apresentava Love & Theft, enquanto os Microphones colocavam nas lojas The Glow Pt. 2. Ao mesmo tempo, outros lançamentos atravessavam géneros muito diferentes, do rock ao metal e à música pop.

A indústria estava a trabalhar.

As lojas estavam abertas.

Os discos estavam a ser vendidos.

E então, a rotina acabou.

Um álbum que se tornou impossível de separar daquela data

Entre todos os lançamentos daquele dia, nenhum ficou tão marcado pela coincidência como Live Scenes from New York, dos Dream Theater.

O álbum ao vivo tinha sido gravado no Roseland Ballroom, em Nova Iorque, em Agosto de 2000. A capa utilizava uma variação do símbolo da banda, transformando o tradicional coração em chamas numa maçã em chamas, numa referência à cidade. No interior da imagem aparecia o horizonte de Nova Iorque, incluindo as Torres Gémeas.

O disco foi lançado em 11 de Setembro de 2001.

Depois dos ataques, a edição original foi recolhida e substituída por outra capa. A própria banda regista oficialmente essa alteração e confirma que algumas cópias da primeira edição permanecem actualmente como peças raras para coleccionadores.

A força desta história está precisamente na coincidência.

A imagem não tinha sido criada para representar uma tragédia. Tinha sido pensada para representar Nova Iorque.

Mas, naquele dia, o significado mudou.

E um disco concebido como celebração de uma cidade passou a carregar uma associação histórica que ninguém poderia ter previsto.

Quando a música passou a viver num mundo diferente

O impacto não ficou limitado às capas dos discos.

As viagens aéreas foram interrompidas, vários acontecimentos musicais foram adiados ou cancelados e a programação televisiva e radiofónica deixou de obedecer à rotina habitual. MTV e VH1 suspenderam a programação regular para acompanhar a cobertura informativa. Um webcast de Sting, que estava previsto para aquele período, acabou reduzido à interpretação de “Fragile”.

Nas rádios americanas, a discussão sobre o que deveria ou não ser transmitido tornou-se particularmente complexa.

Uma lista associada à Clear Channel começou a circular com canções consideradas potencialmente inadequadas para aquele momento. Não se tratava de uma proibição nacional, como muitas vezes se afirmou posteriormente, mas de uma recomendação para que determinadas músicas fossem avaliadas com cautela. Entre os títulos mencionados estavam “Free Fallin’”, “Chop Suey!” e “Another One Bites the Dust”.

Era um fenómeno novo para uma geração inteira.

Canções que tinham sido escritas anos antes passaram a ser escutadas através de palavras que, subitamente, tinham outro peso.

“Fall”.

“Fly”.

“Burn”.

“Plane”.

A música permanecia exactamente igual.

O contexto em que era ouvida tinha mudado.

E, perante uma tragédia que deixara milhões de pessoas sem palavras, a música começou também a ocupar um espaço diferente.

Quando ouvir passou a ser uma forma de memória

Dez dias depois, a música já estava a assumir publicamente outro papel.

Em 21 de Setembro, America: A Tribute to Heroes reuniu dezenas de artistas numa emissão televisiva destinada a angariar fundos para as vítimas dos ataques e para as suas famílias. Bruce Springsteen, U2, Neil Young, Stevie Wonder, Alicia Keys, Billy Joel e Celine Dion estiveram entre os músicos que participaram.

Não era um concerto convencional.

Não havia a lógica habitual de promoção de um álbum ou de uma digressão.

A música estava ali para acompanhar um país em choque.

E talvez seja essa a transformação mais importante daquele período. A música não conseguia responder às perguntas que ficaram depois de 11 de Setembro. Não conseguia explicar a violência nem reparar as perdas.

Mas podia acompanhar o silêncio.

Podia criar memória.

Podia dar forma a emoções que ainda não tinham nome.

Sabias que?

Jay Z não tinha inicialmente previsto lançar The Blueprint em 11 de Setembro. O álbum foi antecipado para 11 de Setembro, uma semana antes da data inicialmente planeada, devido ao receio de que cópias ilegais circulassem antes do lançamento oficial. Acabou por ser um dos grandes êxitos comerciais daquela semana e chegou directamente ao primeiro lugar.

Ficha do Lado B

Data: 11 de Setembro de 2001
Local: Estados Unidos
Dia da semana: Terça feira
Contexto: Uma das principais datas semanais de lançamentos discográficos
Alguns lançamentos: The Blueprint, Jay Z; Love & Theft, Bob Dylan; The Glow Pt. 2, The Microphones; Live Scenes from New York, Dream Theater
Caso mais insólito: A capa original do álbum dos Dream Theater
Impacto imediato: Alteração das programações, adiamento de eventos e mudanças no ambiente da indústria musical
Resposta artística: Concertos e emissões especiais de solidariedade

Vale a pena ouvir

Jay Z | The Blueprint
Um dos grandes discos do hip hop do início do século XXI, lançado precisamente naquele dia.

Bob Dylan | Love & Theft
Um dos trabalhos mais celebrados da fase tardia da carreira de Dylan.

Dream Theater | Live Scenes from New York
Um álbum ao vivo cuja história ficou inseparavelmente ligada à cidade onde foi gravado e à data em que chegou às lojas.

O último dia antes da mudança

É fácil olhar para 11 de Setembro apenas através das imagens que conhecemos hoje.

Mas, naquela manhã, ninguém estava a viver a história como nós a conhecemos agora.

Havia empregados a abrir lojas, caixas de CDs a serem entregues, músicos a preparar compromissos e ouvintes a escolher os discos que queriam levar para casa.

A música estava simplesmente a acontecer.

Essa é talvez a parte mais inquietante desta história.

Os discos que chegaram às lojas naquele dia não sabiam que tinham acabado de entrar para a memória.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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