Conversar com Aníbal Raposo é entrar num território onde a memória e o mar caminham lado a lado. A sua obra atravessa décadas de canção açoriana com uma coerência rara, feita de palavra cuidada, identidade insular e uma relação profunda com a língua portuguesa. Entre discos marcantes, palcos dentro e fora das ilhas e novos projetos no horizonte, esta entrevista percorre o passado que o formou, o presente que o desafia e o futuro que continua a construir com a serenidade de quem sabe exatamente de onde vem.
Cresceu na Relva, em São Miguel. Que memórias da infância continuam a infiltrar-se nas suas canções sem que dê por isso?
A contemplação da natureza está sempre presente para quem tem uma infância vivida em locais como a Rocha da Relva. Sem que faça o mínimo esforço, aparecem nas letras das minhas canções os conhecimentos recebidos de uma família do campo, a convivência com as pessoas da terra, os nomes dos lugares, a contemplação dos céus estrelados, o respeito pelas manhas do mar, a magia dos pores do sol.
Quando começou a escrever, sentia que estava a dialogar com o cancioneiro açoriano ou queria romper com ele?
Não pensei nisso. Escrevi o que sentia e pronto. Mas nunca me passou pela cabeça romper com as minhas raízes. Isso seria privar-me do melhor de mim, do que conheço mais profundamente, da minha verdade e do que pode ser entendido pelos outros como genuíno. Seria cortar uma parte importante da comunicação com o público. Com as raízes sempre presentes, procurei introduzir novas linguagens poéticas e musicais que refletissem o contexto do meu tempo.
Houve um momento concreto em que percebeu que a música deixaria de ser apenas vocação íntima para se tornar caminho de vida?
Dei conta disso na minha infância e tive a certeza clara de que seria assim na minha adolescência. Fiz a maior parte da minha vida como engenheiro mecânico e como gestor, mas nunca escondi essa outra parte essencial de mim, o amor pelas artes em geral e pela música em particular.
Olhando para discos como Maré Cheia ou A Palavra e o Canto, o que reconhece hoje nesses trabalhos que talvez na altura não visse com clareza?
Os sete álbuns musicais a solo que publiquei até agora incluem cerca de cem composições originais. São todos como filhos para mim e não se escolhe entre filhos. Quando editei o Maré Cheia e o A Palavra e o Canto, estava a começar uma aprendizagem que dura até hoje. Nesses dois primeiros CDs estão temas que ainda hoje são cantados nos meus espetáculos: Poema Destinado a Haver Domingo, Cantiga dos Açores, No Mar, A Chegada de Maria e Maré e Natividade. Mas nos álbuns que se seguiram estão igualmente temas que me dizem muito do ponto de vista poético e musical. Todos os meus trabalhos estão disponíveis nas plataformas digitais mais conhecidas.
Depois de várias décadas de carreira, o que mudou mais em si enquanto compositor, a forma de escrever ou a forma de escutar?
As duas. Quanto mais vivemos, escutamos e estudamos, mais matéria temos para trabalhar. Procuro ler muito, estar atento ao que se passa à minha volta, aprender todos os dias e atualizar-me. Depois, faço as minhas escolhas, tenho as minhas preferências.
A sua música sempre manteve uma ligação forte à palavra. Sente que hoje a canção ainda tem espaço para essa densidade poética?
Sim, definitivamente. Talvez porque leio muita poesia e penso ter um versejar fácil. Considero que um bom poema é sempre uma mais-valia para uma boa canção.
Em palco, continua a procurar a mesma intimidade dos primeiros concertos ou a relação com o público transformou-se com o tempo?
A minha relação com o público foi e sempre será uma relação intimista e de verdade. Nas minhas canções pretendo sempre partilhar ideias e emoções com quem me escuta. É esta uma das razões pelas quais canto na minha língua, uma das mais ricas do mundo.

Receber a Insígnia Autonómica de Reconhecimento alterou de alguma forma o peso da responsabilidade artística que sente?
Não. Sou a mesma pessoa e o artista de sempre. Mas mentiria se não me mostrasse gratidão e satisfação pelo reconhecimento público do meu trabalho artístico.
O songbook com cerca de 150 músicas é um gesto de arquivo ou uma forma de abrir portas a novas interpretações da sua obra?
O songbook que pretendo editar este ano é uma forma de, humildemente, partilhar com todos o que consegui produzir até ao momento. Fico sempre muito feliz quando alguém se dispõe a interpretar, mesmo com novas roupagens, música da minha autoria. Já aconteceu muitas vezes. Tenho alguma esperança de que o livro de canções, que contém informação relevante sobre as melodias, as harmonias e as letras, venha a servir para isso.
O espetáculo Falas & Afetos propõe uma celebração da língua portuguesa. O que o entusiasma mais nesse encontro entre poesia e música?
Procurar, através da minha música e da língua comum, um fio condutor entre o sentir de poetas de todos os países onde o português é falado, de Timor ao Brasil.
O próximo álbum, Elogio da Vida, sugere um título afirmativo. Que estado de espírito atravessa estas novas composições?
Elogio da Vida vai incluir temas muito diferenciados, na palavra e na música. O título reflete gratidão pela longa caminhada musical e poética e a celebração de uma vida já longa e intensamente vivida.
Quando pensa no legado que quer deixar, imagina discos, livros, concertos ou apenas a memória de uma canção que continue a ser cantada sem precisar de si?
Imagino isso tudo. Mas, se restar apenas uma canção assobiada na rua por uma pessoa, já valeu a pena.









