Luís Alberto Bettencourt nasceu em Ponta Delgada e cedo revelou uma vocação rara para unir palavra e melodia com identidade própria.

Ao longo de mais de quatro décadas construiu um percurso sólido na música portuguesa, cruzando rock, experimentação e uma forte inspiração insular. Fundador dos Construção, premiados como banda revelação em 1982, destacou-se também com Rimanço no Festival da Canção de 1986, onde alcançou o segundo lugar com “No Vapor da Madrugada”
A sua obra atravessa teatro, televisão e múltiplos palcos nacionais e internacionais. Canções como “Chamateia” tornaram-se referências da música açoriana contemporânea, interpretadas por diversos artistas e formações. Com mais de 100 obras registadas na Sociedade Portuguesa de Autores e uma discografia consistente desde 1982 até “Em Busca do Sol” em 2021, Bettencourt é hoje uma das vozes autorais mais marcantes da criação musical feita nos Açores.
Quando olha para a sua infância em Ponta Delgada, que memórias musicais sente que moldaram a sua forma de escrever canções?
Eu cresci numa altura em que a música anglo americana e a francesa invadiam as rádios e até o próprio cinema, por isso era natural que procurasse estar próximo dela através da rádio e da indústria discográfica. A minha infância foi povoada pelos sons dos diversos “conjuntos” que ouvia com toda a atenção e curiosidade, com especial destaque para Bob Dylan, Beatles, Stones, Cat Stevens e muitos outros.
Como músico ainda numa fase de aprendizagem, procurava descobrir os acordes das suas canções, e tudo isso despertou em mim uma fase criativa que se veio a consolidar mais tarde.
A passagem pelo Conservatório e o contacto com projetos de rock como Os Académicos, Turma5 e Phoenix marcaram a sua formação. O que aprendeu nesses primeiros anos que ainda hoje leva consigo?
A minha passagem pelo Conservatório foi breve, apenas uns dias, nada mais. Eu queria era rock. Comecei então a aproximar-me de formações que, aqui na ilha, atingiam já algum sucesso. A minha integração nos Académicos, Turma 5 e Phoenix foi a minha verdadeira escola. Bailes, espetáculos, festas, carnaval. Tudo isso deu-me a rodagem necessária para abrir caminhos que mais tarde me conduziram a projetos em nome próprio, com músicos de várias gerações.
Os Construção foram distinguidos como banda revelação em 1982. O que representou esse reconhecimento numa fase ainda tão inicial do seu percurso?
O reconhecimento dos Construção foi importante. Não esqueço que nesse ano surgiram edições de músicos muito relevantes como Fausto, José Mário Branco e Brigada Victor Jara. E nós, metidos no meio deles todos, foi motivo de orgulho e de reconhecimento nacional.
A experiência de vida no arquipélago dos Bijagós e o contacto com músicos africanos deixaram marcas profundas na sua obra. De que forma essa vivência transformou o seu universo criativo?
De certo modo, sim. Tive a sorte de continuar a tocar durante o tempo em que cumpria o serviço militar. Isso permitiu-me sentir de perto a magia da alma e da música africana, que é infinita. Conheci músicos locais e passei muitas noites a ouvir e a tocar mornas e canções tradicionais africanas. Ainda hoje sinto a influência desse tempo, e acredito que isso se manifesta, mesmo que de forma subtil, nos meus concertos.
“Chamateia” tornou-se uma referência da música açoriana contemporânea. Como vive o facto de uma canção sua ganhar vida própria em tantas vozes e contextos diferentes?
Acima de tudo, deixa-me feliz. Se há coisas difíceis de explicar, esta é uma delas. Talvez seja uma mistura de alegria e felicidade onde nunca falta uma ponta de orgulho e emoção.
Depois de mais de 100 obras registadas na SPA, o que ainda o desafia quando se senta para compor uma nova canção?
Nada de especial. Deixo a alma comandar o próprio ato criativo e navego ao sabor do vento. Mas é preciso que haja sol dentro de mim, caso contrário a inspiração pode encontrar barreiras.
A sua música transpira identidade insular. Sente que hoje essa identidade é mais compreendida e valorizada no panorama nacional?
Não sei se sinto que ela é plenamente compreendida e valorizada a nível nacional, tenho algumas dúvidas. O que sei é que em muita da minha música transpira o aroma das ilhas, não fosse eu um ilhéu assumido.
Tendo composto para teatro, televisão e múltiplos formatos, o que distingue a sua abordagem quando escreve para si próprio ou para um projeto específico?
Sempre tive alguma dificuldade em compor para um projeto encomendado. Não quer dizer que não o faça, aliás aconteceu com a Chamateia e com o Boi do Mar, em que tive de compor sobre uma letra já feita. O que acontece, e o que me distingue, é que a minha maneira de ser e de sentir acaba sempre por ficar registada.
Depois de “Em Busca do Sol”, que caminhos criativos sente vontade de explorar nos próximos anos?
Depois de Em Busca do Sol, acho que nunca me vou desviar muito do meu estilo pessoal. Os futuros caminhos criativos serão sempre abordagens à minha maneira de ser.
Há alguma colaboração ou território musical que ainda não tenha explorado e que gostasse de experimentar?
Penso que não. Sinto-me bem a respirar os aromas do rock, do popular urbano, de um certo tropicalismo e até do fado. No fundo, sigo o caminho de uma fusão entre várias correntes.
Como imagina a evolução da música açoriana nas próximas décadas, especialmente no diálogo com novas gerações?
Penso que temos um longo caminho a percorrer. O futuro passará pela capacidade criativa de uma geração que já tem dado provas de talento. As ferramentas digitais serão de grande utilidade, aliadas à sensibilidade de cada um.
Se pudesse deixar uma mensagem aos jovens compositores das ilhas que começam agora a escrever as suas primeiras canções, o que lhes diria sobre persistência, identidade e verdade artística?
Aos jovens compositores que agora florescem, deixo um profundo desejo de que possam libertar as suas ideias, aliando o seu poder criativo ao estudo da música e da sua própria identidade.










