Há momentos em que um disco não aparece para provar nada a ninguém. Aparece porque precisava de existir.

 

“Brilho”, com data marcada para 13 de março, nasce nesse território menos espetacular e mais íntimo. Não como explosão, mas como insistência. Como quem já caiu, já se calou, já saiu de cena por um tempo e mesmo assim volta.

O rap português atravessa uma fase estranha. Muito ruído, muita velocidade, pouca memória. Neste cenário, o novo trabalho de Krazye Loko não tenta competir com tendências. Tenta manter uma linha. Uma coerência que vem de trás, de Setúbal, de um percurso que nunca foi simples nem linear.

Setúbal como raiz e ponto de partida

Pedro Miguel dos Santos Castro nasceu em 1990. Cresceu entre referências portuguesas e angolanas, entre ruas concretas e sonhos que não tinham garantias. Começou a rimar aos 13 anos. Não era moda. Era necessidade. Era o lugar onde cabia a frustração e a vontade de dizer o que estava atravessado.

Em 2005 venceu o Bocage Rap, iniciativa local que lhe deu reconhecimento ainda adolescente. Podia ter sido o início de uma ascensão rápida. Não foi. Houve desvios. Houve silêncio. Em 2006 seguiu a solo. Em 2008 parou. Três anos fora do radar não são pouco tempo para quem tenta construir nome. Mas às vezes o afastamento também constrói.

Regressos que não pedem licença

O regresso em 2011 com “Mafia Family” não soou a nostalgia. Soou a sobrevivência. A passagem pelas semifinais do Rock Rendez Worten mostrou que ainda havia espaço. Que a voz continuava ali. Talvez mais áspera. Talvez mais consciente.

Em 2013 editou “O Meu Espaço”, depois de uma passagem por França onde gravou parte do material. O título dizia muito. Era um disco de afirmação, de delimitação. Aqui estou. Este é o meu território. A participação em “Híbrido”, de Allen Halloween, e mais tarde o tema “Haterz”, também com Allen Halloween, reforçaram essa ligação a uma escola de escrita que não tem pressa e não se rende a fórmulas fáceis.

Não há romantização neste percurso. Há tentativa e erro. Há persistência. Há a ideia de que ficar também é uma forma de vencer.

Entre “Viagem” e a necessidade de luz

Em 2022 começou a trabalhar em “Viagem”. O álbum, composto por dez faixas, procurava criar uma experiência contínua, quase narrativa. Não era apenas uma coleção de músicas. Havia uma intenção de percurso emocional. Uma tentativa de organizar o caos.

“Brilho” surge depois disso. Não como oposição, mas como consequência. Se “Viagem” parecia movimento interior, este novo trabalho assume uma postura mais declarada. Fala de superação. Palavra grande, às vezes gasta. Mas aqui vem com contexto. Vem de quem passou por pausas reais, por interrupções de carreira, por momentos em que continuar não era garantido.

O discurso é claro. Seguir em frente. Escolher melhor. Rodear-se de quem fica quando não há palco iluminado. Não há ingenuidade nesta ideia de luz. Há consciência de escuridão.

Persistir num cenário saturado

O hip hop nacional está fragmentado. Há espaço para tudo e, ao mesmo tempo, parece que nada fica tempo suficiente para ganhar peso. Neste contexto, lançar um álbum que aposta na identidade pessoal e na coerência pode ser risco. Ou pode ser resistência.

Krazye Loko nunca se posicionou como fenómeno viral. A construção foi lenta, às vezes invisível. Talvez seja isso que torna este momento relevante. Não é o regresso de um nome esquecido. É a continuação de alguém que recusou desaparecer.

“Brilho” chega a 13 de março sem promessas grandiosas. Chega com história acumulada. Com cicatrizes que já não precisam de ser escondidas. Resta perceber como o público recebe esta nova fase. Se há espaço para escutar com atenção. Se ainda há tempo para discos que não gritam, mas insistem.