Azores Burning Summer 2026 não quer ser só mais um festival e a entrevista explica porquê!

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Entre o mar e a memória, há um festival que continua a crescer sem perder o controlo. O Azores Burning Summer regressa em 2026 com um posicionamento cada vez mais claro: não competir pelo tamanho, mas pela experiência. Numa altura em que os festivais parecem repetir fórmulas, aqui insiste-se em outra lógica. Escala humana, ligação ao território e um cartaz que conta uma história.

Esta entrevista abre a porta ao pensamento de Filipe Tavares por trás do festival. Das escolhas artísticas à sustentabilidade, da relação com a Praia dos Moinhos à forma como se constrói identidade num circuito saturado. Mais do que respostas, há uma visão. E talvez seja isso que torna este projeto diferente.

 

O Azores Burning Summer chega a 2026 com mais de uma década de percurso. O que mudou na tua forma de pensar o festival desde a primeira edição?

Mudou sobretudo a consciência da responsabilidade. No início havia uma vontade muito forte de celebrar a Praia dos Moinhos, a música e uma certa memória afetiva daquele lugar. Hoje continuo a partir desse impulso, mas penso o festival de forma mais completa: como experiência cultural, ambiental e comunitária. O Azores Burning Summer nasceu em 2015 na Praia dos Moinhos e foi-se afirmando como um eco festival que cruza música, natureza, sustentabilidade e relação com o território.

Este cartaz reforça a ligação à lusofonia e às diásporas africanas. Essa linha é uma escolha estética, política ou ambas?

É ambas, mas antes de tudo é uma escolha afetiva e cultural. A música que nos interessa sempre passou por esses lugares de encontro: Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau, Brasil, Portugal, Caraíbas, África, Atlântico. Em 2026, com Lura, Paulo Flores, Tabanka Djaz, Capitão Fausto, Zé Ibarra e Throes + The Shine, há uma afirmação clara da lusofonia e das diásporas africanas, mas não como etiqueta. Interessa-nos o diálogo entre tradição e contemporaneidade, entre memória e futuro. Pensamos na música também como instrumento promotor da felicidade.

Num circuito cada vez mais saturado, como se protege a identidade de um festival como o Azores Burning Summer?

Protege-se dizendo muitas vezes “não” e reforçando aquilo que torna o festival verdadeiramente especial e que toca no coração do público. Não queremos ser apenas mais um festival de verão, nem competir na lógica do cartaz maior ou da lotação maior. A identidade protege-se mantendo a escala certa, a relação com o lugar, a coerência musical e a ideia de experiência. Não queremos promover um evento massificado, mas sim um festival de acesso equilibrado, com reduzido impacto ambiental e foco na qualidade da experiência do público.

A Praia dos Moinhos não é apenas cenário. De que forma o espaço condiciona ou inspira as decisões de programação?

Condiciona tudo, no melhor sentido. A Praia dos Moinhos obriga-nos a programar com respeito pelo ritmo do lugar. Não se pode impor um festival àquele espaço, é preciso escutá-lo. O anfiteatro natural do Parque dos Moinhos, a praia, a luz, a comunidade do Porto Formoso, os moradores da zona dos Moinhos, tudo isso influencia horários, palcos, circulação, volumes, acessibilidades e até o tipo de música que faz sentido ali e que vai ao encontro do que pretendemos celebrar. O festival tem insistido nessa ligação direta entre paisagem, público, memória e programação.

Como equilibras nomes consagrados com projetos emergentes sem perder coerência no cartaz?

A coerência não vem da dimensão dos nomes, vem da história que o cartaz conta. Podemos ter artistas consagrados como Lura, Paulo Flores ou Tabanka Djaz ao lado de propostas mais recentes ou híbridas como Capitão Fausto, Zé Ibarra e Throes + The Shine, desde que todos façam parte do mesmo diálogo artístico. O critério é perceber se cada projeto acrescenta uma camada à identidade do festival: música negra, world music, dub, reggae, funk, afrobeat, lusofonia, diáspora, experimentação e energia ao vivo.

Sustentabilidade tornou-se uma palavra comum nos festivais. No vosso caso, onde termina o discurso e começa a prática real?

A prática começa antes do festival abrir portas. Está na forma como se pensa o recinto, a mobilidade, os resíduos, a energia, os copos reutilizáveis, os ecopontos, os cinzeiros individuais, o sistema de refill, o estacionamento periférico e o shuttle, entre outros aspetos. Está também nos programas comunitários que desenvolvemos: o VIVE, na área da saúde, e o HABITAT, na área da ecologia, que levam a ação para além dos dias de concertos. O festival foi distinguido nos Iberian Festival Awards pelo contributo para a sustentabilidade, recebeu reconhecimento regional nos Prémios Espírito Verde e tornou-se o primeiro evento dos Açores com certificação “Evento Mais Sustentável” da SGS Portugal. A nossa convicção é que o convite à prática de hábitos sustentáveis é mais eficaz do que a mera defesa verbal. É crucial permitir que as pessoas experimentem e percebam por si próprias o impacto positivo dessas ações.

O público do festival tem vindo a mudar ao longo dos anos? Quem é hoje a pessoa que viaja até ao Porto Formoso para viver esta experiência?

Sim, mudou e alargou-se. Hoje temos público local, pessoas que regressam todos os anos, turistas, residentes estrangeiros e gente que procura nos Açores uma experiência cultural menos massificada. Não é apenas alguém que compra um bilhete para ver concertos, é sobretudo alguém que quer estar num lugar, viver uma paisagem, descobrir música e sentir que faz parte de uma comunidade temporária. O festival é um momento de encontro entre comunidade local, turistas e residentes estrangeiros, com pertença e união nos Açores.

Existe uma preocupação consciente em manter o festival numa escala controlada? Já recusaram crescer mais rápido?

Existe, claramente. Crescer por crescer nunca foi o objetivo. A Praia dos Moinhos tem uma escala humana e o festival deve respeitar isso. Quando a escala deixa de servir a experiência, começa a destruir aquilo que nos torna únicos. Por isso, sim, há uma escolha consciente em controlar o crescimento, privilegiando qualidade, conforto, segurança, sustentabilidade e proximidade, em vez de transformar o Azores Burning Summer num evento de massas.

Que papel tem o Azores Burning Summer na afirmação dos Açores como destino cultural e não apenas turístico?

Esse é um dos papéis mais importantes do festival. Os Açores não podem ser comunicados apenas como natureza, paisagem e contemplação. Também são criação, pensamento, música, cinema, debate, comunidade e contemporaneidade. O Azores Burning Summer ajuda a mostrar que é possível viajar para os Açores para uma experiência cultural específica, enraizada no território e com uma identidade própria. A edição de 2026 é apresentada precisamente como contributo para a descentralização cultural, união entre diferentes comunidades e afirmação dos Açores no circuito dos festivais alternativos e não massificados.

A integração na programação da Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura traz novas responsabilidades ou oportunidades?

Traz as duas coisas. É uma oportunidade porque permite dar maior visibilidade ao trabalho que tem sido feito e inseri-lo num contexto cultural mais amplo. Mas também traz responsabilidade: a de representar bem o território, de criar pontes e de mostrar que a cultura nos Açores não se limita aos centros urbanos. O festival está integrado na programação complementar da PDL26, Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura, e esse enquadramento reforça a necessidade de pensar o Azores Burning Summer como parte de uma estratégia cultural mais ampla para a ilha e para o arquipélago.

O que ainda falta fazer dentro do conceito do festival que ainda não conseguiram concretizar?

Falta sempre aprofundar. Gostava que os programas comunitários tivessem ainda mais continuidade ao longo do ano, que a componente educativa e ambiental chegasse a mais pessoas e que conseguíssemos criar residências artísticas ligadas ao território e no contexto da land art. O festival já tem música, cinema, eco design, veículos elétricos, saúde e ações comunitárias, mas o desafio é fazer com que tudo isso não exista apenas como programação paralela, que seja cada vez mais o próprio coração do projeto.

Quando pensas no futuro do Azores Burning Summer, o que te preocupa mais: crescer demasiado ou ficar preso à própria fórmula?

Preocupam-me as duas coisas. Crescer demasiado pode afastar-nos da essência, mas repetir uma fórmula também seria perigoso. O equilíbrio está em ajustar sem trair o lugar e a identidade. O festival tem de continuar vivo, atento, permeável a novas músicas, novas comunidades e novas urgências ambientais e sociais. Mas tem de continuar a reconhecer a Praia dos Moinhos como origem e limite. O futuro passa por evoluir com cuidado, sem transformar o festival numa máquina e sem permitir que se torne num ritual programado. A visão que pretendo preservar é a de um festival que celebra a Praia dos Moinhos, valoriza as suas memórias e o seu legado, promove práticas sustentáveis e favorece a ligação entre pessoas num contexto natural, autêntico e progressivamente mais desligado do digital.

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