Uma das canções mais conhecidas dos Smiths não foi lançada como single quando a banda estava no auge. “There Is a Light That Never Goes Out” apareceu em The Queen Is Dead, em 1986, e ficou ali, quase escondida no alinhamento de um álbum. Cinco anos depois, quando os Smiths já tinham acabado, chegou finalmente a single e entrou no Top 25 britânico. O mais curioso é que a música já tinha sido escolhida para um possível regresso da banda aos singles. Johnny Marr preferiu outra.
Uma canção que nasceu numa casa
Johnny Marr escreveu “There Is a Light That Never Goes Out” em 1985, na casa onde vivia em Altrincham. Foi uma das canções trabalhadas durante uma sessão intensa de composição com Morrissey que acabaria também por dar origem a outras faixas de The Queen Is Dead. Marr recordaria mais tarde que escreveu praticamente todo o álbum naquela casa.
A música começa com uma progressão aparentemente simples, mas existe uma pequena armadilha escondida nela.
Marr foi buscar a sequência de acordes à versão dos Rolling Stones de “Hitch Hike”, de Marvin Gaye. A escolha não foi acidental. O guitarrista sabia que a mesma progressão também tinha sido associada aos Velvet Underground e chegou a descrevê-la como uma espécie de brincadeira para perceber se a imprensa iria atribuir a influência à banda de Nova Iorque em vez dos Rolling Stones.
É um daqueles detalhes que dizem muito sobre Johnny Marr.
A canção soa imediata, quase inevitável.
Mas por baixo existe uma pequena história de referências, memórias e escolhas conscientes.
Morrissey colocou por cima dessa música uma história muito mais estranha.
Um jovem entra num carro com alguém que deseja. A família fica para trás. A cidade passa pelas janelas. Existe a possibilidade de um acidente e, nessa possibilidade, uma ideia que transforma a tragédia numa fantasia romântica.
Se o autocarro cair sobre eles, morrer ao lado daquela pessoa seria, para o narrador, uma forma de felicidade.
É uma letra mórbida.
A música, pelo contrário, é luminosa.
É precisamente dessa contradição que nasce grande parte da sua força.
A orquestra que nunca existiu
Quando os Smiths começaram a gravar a canção, a parte das cordas criou um problema.
Uma verdadeira secção de cordas custava dinheiro.
E a banda não queria abrir demasiado o processo de gravação a músicos externos.
Johnny Marr encontrou outra solução.
Usou um E-mu Emulator, um sampler digital da época, para criar o arranjo de cordas. No álbum, os músicos receberam um crédito que parecia indicar a existência de uma pequena orquestra: “The Hated Salford Ensemble”.
A orquestra não existia.
Era Marr, uma máquina e uma ideia bastante engenhosa.
Morrissey não ficou imediatamente convencido pelas cordas sintetizadas. Mas a falta de orçamento e a vontade da banda de manter o controlo artístico acabaram por resolver a discussão.
Hoje, é impossível imaginar a canção sem aquele som.
É também um excelente exemplo daquilo que os Smiths faziam particularmente bem: transformar limitações em identidade.
A gravação começou nas sessões de 1985 e foi concluída em novembro, nos Jacobs Studios, em Surrey. Morrissey refez a voz duas vezes e Marr acrescentou uma melodia de flauta. No final da gravação ficou ainda um pequeno vestígio do momento de estúdio: Marr contou que, se a música for ouvida com o volume suficientemente alto, é possível escutá-lo a exclamar “That was amazing” no fim.
Uma pequena voz perdida no final de uma canção que acabaria por se tornar enorme.
O single que chegou tarde demais
Quando The Queen Is Dead foi lançado em junho de 1986, “There Is a Light That Never Goes Out” já tinha todos os ingredientes para se tornar uma das músicas mais populares dos Smiths.
Mas não foi single.
E aqui começa a parte mais curiosa.
Depois de um período de tensão entre os Smiths e a Rough Trade, a editora procurava o próximo grande lançamento da banda. Geoff Travis, responsável pela editora, defendia “There Is a Light That Never Goes Out” como possível regresso aos singles.
Johnny Marr discordou.
Queria “Bigmouth Strikes Again”.
A decisão foi tomada.
“Bigmouth Strikes Again” saiu primeiro.
Pouco depois, os Smiths lançaram “Panic” e “Ask”. Entretanto, “There Is a Light That Never Goes Out” começou a ganhar uma vida própria. Em 1986, foi escolhida pelos ouvintes para o segundo lugar na votação Festive Fifty de John Peel, uma indicação clara de que a canção já tinha ultrapassado o estatuto de simples faixa de álbum.
Em 1987 apareceu em The World Won’t Listen.
Mas continuava sem ser single no Reino Unido.
Os Smiths separaram-se nesse mesmo ano.
Só em outubro de 1992, cinco anos depois do fim da banda, “There Is a Light That Never Goes Out” foi finalmente lançada como single no Reino Unido. Chegou ao número 25. Foi, ironicamente, a última entrada dos Smiths no Top 40 britânico.
O que a banda não conseguiu fazer enquanto existia aconteceu depois de desaparecer.
A canção tornou-se maior do que o momento em que foi gravada.
Talvez seja essa a verdadeira história do seu sucesso.
Não nasceu para ser um hino.
Não foi construída como um single.
Não teve uma campanha gigantesca.
Foi simplesmente uma grande canção escondida dentro de um grande álbum.
E o tempo tratou do resto.
Hoje, quando começa a guitarra de Johnny Marr, a reação é imediata. O público canta. A música deixou de pertencer apenas aos Smiths e passou a pertencer também às pessoas que encontraram nela uma história própria.
É uma canção sobre querer fugir.
Sobre querer estar com alguém.
Sobre encontrar uma espécie de felicidade no meio de uma situação absurda.
E talvez seja por isso que continue tão viva.
Os Smiths acabaram em 1987.
A luz não.
Sabias que?
- Johnny Marr escreveu a música em 1985, na casa onde vivia em Altrincham.
- A progressão de acordes tem uma ligação deliberada à versão dos Rolling Stones de “Hitch Hike”, de Marvin Gaye.
- As cordas foram criadas por Marr num E-mu Emulator e creditadas no álbum ao fictício “The Hated Salford Ensemble”.
- A música foi considerada para single em 1986, mas Johnny Marr preferiu “Bigmouth Strikes Again”.
- “There Is a Light That Never Goes Out” só chegou a single no Reino Unido em 1992, cinco anos depois da separação dos Smiths, atingindo o número 25.
- A canção ficou em segundo lugar na votação Festive Fifty de John Peel em 1986.
Ficha do Lado B
Artista: The Smiths
Ano: 1985–1986
Álbum: The Queen Is Dead
Canção: “There Is a Light That Never Goes Out”
Composição: Johnny Marr e Morrissey
O detalhe escondido: a “orquestra” que se ouve na gravação nunca existiu. As cordas foram construídas por Johnny Marr através de um sampler.
O verdadeiro Lado B: uma canção que a própria banda não escolheu como single acabou por sobreviver ao grupo e tornar-se uma das suas obras mais reconhecidas.
Vale a pena ouvir outra vez?
Sim. Mas desta vez começa pelo princípio e presta atenção à guitarra.
Depois escuta as cordas.
E, no final, aumenta ligeiramente o volume.
A pequena reação de Johnny Marr, perdida no estúdio, é quase uma fotografia daquele momento. Antes de existir o clássico, existia apenas uma banda a perceber que tinha acabado de gravar qualquer coisa especial.
Os Smiths terminaram pouco depois.
A canção continuou a crescer.
Talvez seja essa a melhor definição de um clássico: uma música que consegue tornar-se maior depois de a própria banda já ter desaparecido.
