Sábado, 8 de Agosto de 2026
Lado B da Música

A história secreta de “Heroes”: o beijo junto ao Muro que inspirou David Bowie

Por Beatriz Ambrósio 8 Ago 2026

David Bowie olhou pela janela de um estúdio em Berlim e viu duas pessoas junto ao Muro. Um beijo. Guardas armados. Uma cidade dividida. Dessa imagem nasceu “Heroes”, uma das canções mais conhecidas da sua carreira. Durante décadas, Bowie deixou acreditar que tinha visto dois amantes desconhecidos. Depois revelou que o casal era, afinal, o produtor Tony Visconti e a cantora Antonia Maaß. A história parecia encerrada. Até surgir, em 2024, uma nova versão.

 

Uma canção escrita à sombra do Muro

Em 1977, David Bowie estava em Berlim para gravar o álbum que viria a chamar-se “Heroes”. As sessões decorreram no Hansa Studios, um espaço situado em Berlim Ocidental e suficientemente próximo do Muro para que a fronteira fizesse parte da paisagem diária dos músicos. O álbum foi gravado entre 11 de julho e 8 de agosto, com Bowie e Brian Eno a chegarem ao estúdio com ideias, acordes e ritmos, mas ainda sem canções totalmente construídas. (davidbowie.com)

Bowie estava a atravessar uma fase de enorme transformação artística. Berlim oferecia-lhe distância dos Estados Unidos, dos excessos dos anos anteriores e de tudo aquilo que queria deixar para trás.

Dentro do Hansa, a música começava a ganhar forma.

A faixa que viria a chamar-se “Heroes” começou como uma peça instrumental. Bowie trabalhava nas palavras enquanto Tony Visconti produzia a gravação. Do outro lado das janelas estava uma cidade dividida por um muro, por torres de vigilância e por uma fronteira que tornava qualquer gesto de liberdade mais carregado de significado.

Foi nesse cenário que apareceu a imagem que daria origem à canção.

Durante uma sessão, Bowie viu um casal junto ao Muro. Estavam a beijar-se.

A imagem ficou com ele.

Durante anos, contou que eram simplesmente dois amantes que costumava observar da janela do estúdio. A história encaixava perfeitamente na canção: duas pessoas que, durante um único dia, podiam ser heróis apesar de tudo o que existia à sua volta.

Mas Bowie sabia mais do que dizia.

 

 

 

 

O segredo de Tony Visconti

Tony Visconti era o produtor do álbum e estava casado na altura.

A mulher que Bowie tinha visto com ele junto ao Muro era Antonia Maaß, uma cantora alemã que participava nas sessões.

Foi Visconti quem revelou a verdadeira história muitos anos depois. Segundo o produtor, Bowie tinha visto os dois a beijarem-se junto ao Muro e decidiu proteger o amigo. Por isso, durante anos, apresentou a cena como se tivesse observado um casal desconhecido. Em 2003, Bowie confirmou publicamente a versão de Visconti. (davidbowie.com)

De repente, uma das histórias mais românticas da música popular tinha um lado bastante mais complicado.

Não eram dois desconhecidos.

Eram duas pessoas da própria equipa de Bowie.

A história poderia ter terminado aqui.

Mas não terminou.

Em 2024, uma nova investigação da BBC recuperou o testemunho de Clare Shenstone, artista e antiga companheira de Bowie. Shenstone contou que os dois passaram um dia juntos em Berlim e que também estiveram junto ao Muro. Segundo o seu relato, caminharam junto à fronteira, viram as armas e os holofotes e beijaram-se. Shenstone reconheceu na letra de “Heroes” vários elementos desse dia, incluindo a referência aos golfinhos, ao Muro, às armas e ao beijo. (theguardian.com)

Qual das duas histórias é a verdadeira?

Talvez nunca saibamos.

E, curiosamente, isso torna “Heroes” ainda mais interessante.

A voz que parece querer atravessar o Muro

A história do beijo é apenas uma parte do que tornou a canção extraordinária.

A outra está na própria gravação.

Tony Visconti decidiu não tratar a voz de Bowie como uma gravação convencional. Em vez de colocar um único microfone à frente do cantor, utilizou três, posicionados a diferentes distâncias dentro do enorme salão do Hansa.

Um estava muito próximo.

Outro ficava a cerca de seis metros.

O terceiro estava a aproximadamente quinze metros.

Os dois microfones mais distantes estavam ligados através de sistemas que só os ativavam quando Bowie cantava acima de determinado volume. Assim, quando começava quase num sussurro, ouvia-se sobretudo a voz próxima. À medida que Bowie aumentava a intensidade, os outros microfones entravam em ação e a própria acústica da sala começava a envolver a voz. (soundonsound.com)

O efeito é extraordinário.

Bowie começa contido.

Depois cresce.

Depois grita.

No final, parece que já não está dentro do estúdio.

Parece estar a cantar contra a própria cidade.

A técnica não utilizou simplesmente um efeito artificial de eco. Visconti fez do enorme espaço do Hansa parte do instrumento. A sala tornou-se uma espécie de quarta voz.

E isso ajuda a explicar porque “Heroes” continua a soar tão física décadas depois.

Não é apenas a composição.

É o espaço.

É a voz.

É a guitarra de Robert Fripp.

É a bateria.

É Berlim.

E é a sensação de que aquelas duas pessoas estão a desafiar durante alguns segundos tudo aquilo que as rodeia.

Quando a canção foi lançada em setembro de 1977, não teve imediatamente o impacto gigantesco que hoje associamos ao seu estatuto. O álbum chegou ao terceiro lugar no Reino Unido, mas a importância cultural de “Heroes” cresceu muito com o passar do tempo. (davidbowie.com)

A queda do Muro, em 1989, mudou novamente o significado da canção.

A música que tinha nascido junto de uma fronteira tornou-se, para milhões de pessoas, uma espécie de hino à possibilidade de essa fronteira desaparecer.

Talvez essa seja a verdadeira força de “Heroes”.

Não precisamos sequer de saber com absoluta certeza quem estava naquele beijo.

Sabemos que Bowie viu qualquer coisa que o marcou.

Transformou essa imagem em música.

E a música acabou por sobreviver ao próprio muro.

Sabias que?

  • Durante décadas, Bowie contou que tinha visto um casal desconhecido a beijar-se junto ao Muro. Mais tarde confirmou que eram Tony Visconti e Antonia Maaß. (davidbowie.com)
  • Em 2024, Clare Shenstone apresentou uma versão diferente e afirmou que a sua relação com Bowie também inspirou elementos da letra. A investigação da BBC não conseguiu estabelecer definitivamente qual das versões é a única verdadeira. (theguardian.com)
  • A voz de Bowie foi gravada utilizando três microfones colocados a diferentes distâncias no Hansa Studios. (soundonsound.com)
  • Antonia Maaß também ajudou Bowie com a pronúncia da versão alemã de “Heroes”, intitulada “Helden”. (davidbowie.com)
  • O álbum foi gravado no Hansa by the Wall, em Berlim, entre julho e agosto de 1977. (davidbowie.com)

Ficha do Lado B

Artista: David Bowie

Ano: 1977

Local: Berlim Ocidental

Álbum: “Heroes”

Canção: “Heroes”

O detalhe escondido: a famosa história do beijo junto ao Muro tem mais do que uma versão. Durante décadas, Bowie protegeu Tony Visconti contando uma versão diferente daquilo que realmente tinha visto.

Porque entrou para a história? Porque Bowie transformou uma imagem íntima num símbolo de liberdade e acabou por criar uma canção cujo significado cresceu com a própria história de Berlim.

Vale a pena ouvir outra vez?

Desta vez, ouve “Heroes” sabendo que talvez nunca exista uma resposta definitiva sobre quem inspirou cada verso.

O que existe é uma imagem: pessoas junto a um muro, armas do outro lado, um beijo e uma canção que fala de ser herói apenas por um dia.

Bowie viu um momento privado.

Transformou-o numa história pública.

O Muro acabou por cair.

A música ficou.

Beatriz Ambrósio

Beatriz Ambrósio é jornalista e colaboradora do Música Total, dedicada à cobertura da atualidade musical nacional e internacional. Privilegia uma escrita clara, objetiva e rigorosa, acompanhando lançamentos, concertos, festivais e os principais acontecimentos da indústria da música. O seu trabalho procura informar os leitores de forma rápida e contextualizada, mantendo sempre o foco na relevância das notícias e na proximidade com quem vive a música todos os dias.

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