Sábado, 8 de Agosto de 2026
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José Fortes: o homem que gravou uma parte da história da música portuguesa

Por Beatriz Ambrósio 8 Ago 2026

Antes do Pro Tools, antes dos computadores portáteis transformarem quartos em estúdios e muito antes de uma gravação poder ser corrigida ao detalhe com um rato, existia uma profissão em que quase tudo dependia dos ouvidos.

 

O microfone tinha de estar no sítio certo. A sala tinha de ser compreendida. Os músicos tinham de estar preparados. A fita não perdoava.

José Fortes pertence a essa geração.

Nascido no Porto em 1943, começou a trabalhar na área do som ainda adolescente e atravessou algumas das principais transformações da gravação musical em Portugal. Foi técnico de som, responsável por captação, diretor de estúdios e produtor em diferentes projetos. Trabalhou com José Afonso, José Mário Branco, Fausto, Carlos Paredes, Júlio Pereira, António Pinho Vargas, Banda do Casaco e muitos outros nomes fundamentais. A sua carreira está ligada a alguns dos espaços onde a música portuguesa ganhou forma, desde os Fortes & Rangel, no Porto, à Rádio Triunfo e ao Angel Studio, em Lisboa.

É importante fazer uma distinção. José Fortes não foi o produtor de todos os discos em que participou. Em muitos deles foi técnico ou engenheiro de som. Essa diferença não diminui a sua importância. Pelo contrário. Mostra precisamente até que ponto a construção de um disco depende de profissionais que raramente aparecem no centro da fotografia.

Um rapaz de 13 anos atrás de um microfone

O interesse de José Fortes pelo som começou muito cedo.

Segundo uma biografia académica, realizou a primeira captação para a Emissora Nacional, no Porto, aos 13 anos. Dois anos depois fez a primeira captação para uma edição discográfica da Arnaldo Trindade. A partir daí, a sua carreira desenvolveu-se rapidamente. Trabalhou para editoras como Arnaldo Trindade, Vadeca e EMI e colaborou também com os Emissores do Norte Reunidos.

Durante os primeiros anos, trabalhou ainda com Manuel de Oliveira e Michel Giacometti. Esta experiência é particularmente importante porque colocou o jovem técnico em contacto com realidades musicais muito diferentes, numa altura em que a documentação sonora da música portuguesa ainda dependia fortemente do trabalho de técnicos especializados.

O percurso começava, portanto, antes da indústria dos grandes estúdios modernos. José Fortes aprendeu quando gravar significava tomar decisões no momento.

Fortes & Rangel: construir um estúdio no Porto

Na década de 1960, José Fortes associou-se a Fernando Rangel e esteve na origem dos estúdios Fortes & Rangel, no Porto. Os próprios Estúdios Rangel apontam 1965 como o ano da fundação e apresentam o espaço como o mais antigo estúdio com produção regular em Portugal.

A criação do estúdio representa um momento importante na profissionalização da gravação portuguesa.

Não se tratava apenas de disponibilizar uma sala onde os músicos pudessem tocar. Era necessário criar condições técnicas, desenvolver métodos de trabalho e estabelecer uma relação profissional entre artistas, editoras e técnicos.

José Fortes passou a estar no centro desse processo.

A partir daí, a sua carreira deixou de ser apenas a de um técnico que gravava sessões. Passou também a estar ligada à construção das próprias estruturas onde essas gravações aconteciam.

Rádio Triunfo: quando o estúdio ganhou outra escala

Em 1969, José Fortes foi convidado para dirigir os estúdios da Rádio Triunfo em Lisboa. As fontes não são totalmente uniformes quanto ao momento exato em que assumiu todas as responsabilidades, mas convergem na importância dessa passagem e na ligação à instalação e desenvolvimento do estúdio da editora na Estrada da Luz.

O espaço tornou-se importante para uma geração de artistas portugueses.

José Fortes trabalhou ali com músicos ligados à editora e esteve envolvido na gravação de uma parte substancial do repertório que marcou a música popular portuguesa das décadas seguintes. O Observatório da Canção de Protesto identifica entre os artistas gravados por Fortes nomes como José Afonso, José Mário Branco, Adriano Correia de Oliveira, Fausto Bordalo Dias, GAC e José Barata Moura.

A importância do técnico estava precisamente na capacidade de transformar interpretações em registos que pudessem sobreviver fora da sala.

O momento em que a técnica começou a mudar o rock português

Um dos melhores exemplos para compreender a importância de José Fortes é Ar de Rock, o álbum de estreia de Rui Veloso, editado em 1980.

O disco foi produzido por António Pinho e teve José Fortes como técnico de som. Foi gravado nos estúdios RPE, em Lisboa, e a documentação sobre a sessão identifica-o explicitamente nessa função.

A importância deste crédito é maior do que parece.

Ar de Rock tornou-se um dos discos fundamentais do boom do rock português. A gravação foi realizada em apenas uma semana e misturada em três dias, e o álbum é frequentemente apontado como um dos momentos decisivos da afirmação comercial do rock português no início dos anos 80.

José Fortes não foi o produtor do disco.

Foi o técnico que ajudou a transformar aquela formação e aquelas canções numa gravação.

É precisamente essa diferença que torna o seu trabalho tão interessante.

Angel Studio: uma nova fase

Em 1979, José Fortes entrou no universo da Rádio Produções Europa. Segundo fontes dedicadas à história dos estúdios portugueses, encontrou uma estrutura que precisava de ser modernizada e esteve ligado à sua transformação. Em 1981, o espaço passou a designar-se Angel Studio, e Fortes tornou-se sócio gerente.

O Angel Studio tornou-se posteriormente um dos espaços importantes da gravação portuguesa.

Foi ali que se gravaram trabalhos de artistas como José Afonso, Júlio Pereira, Lena d’Água e vários projetos ligados à PolyGram.

Também foi no Angel Studio que se gravou Por Este Rio Acima, de Fausto.

E aqui encontramos outro excelente exemplo de como os créditos devem ser lidos.

Fausto e Por Este Rio Acima: quando o técnico faz parte da arquitetura do disco

Por Este Rio Acima foi gravado no Angel Studio em 1982.

A produção e direção musical ficaram a cargo de Eduardo Paes Mamede, em colaboração com Fausto nos arranjos. José Fortes surge nos créditos pela captação de som e pela mistura de duas faixas, em colaboração com Luís Flor.

A diferença entre estas funções é fundamental.

José Fortes não deve ser apresentado como o produtor do álbum.

Mas esteve diretamente envolvido na construção sonora de uma obra que se tornou uma referência da música popular portuguesa.

O disco exigia uma quantidade extraordinária de músicos e instrumentos. Cordas, sopros, guitarras, percussões tradicionais, sintetizadores, acordeão, guitarra portuguesa e outros elementos conviviam numa produção de grande dimensão.

Captar tudo isso com clareza exigia mais do que equipamento.

Exigia experiência.

Rui Veloso, Fausto e António Pinho Vargas: três mundos diferentes

A carreira de José Fortes torna-se particularmente reveladora quando colocamos lado a lado artistas tão diferentes.

Rui Veloso representa o rock.

Fausto representa uma escrita musical complexa, profundamente ligada à tradição portuguesa.

António Pinho Vargas atravessa o jazz, a composição contemporânea e a música erudita.

José Fortes trabalhou com os três.

No caso de Pinho Vargas, existe uma história que resume muito bem a sua relação com o momento da gravação. Durante as sessões de Solo II, em 2009, o compositor começou a tocar descontraidamente depois de terminada uma sessão. José Fortes sugeriu que gravasse. O improviso acabou registado como “In Between T&O”, uma peça que Pinho Vargas considerava impossível de repetir exatamente da mesma maneira.

O episódio diz muito sobre o trabalho de um bom técnico.

Não é apenas necessário saber gravar.

É necessário saber reconhecer quando vale a pena carregar no botão.

A guitarra de Carlos Paredes e o problema de captar o impossível

Carlos Paredes é outro nome fundamental para compreender a dimensão técnica do percurso de José Fortes.

A guitarra portuguesa exige uma captação particularmente cuidadosa. O ataque das cordas, a ressonância da caixa e a riqueza harmónica do instrumento podem facilmente perder-se numa gravação mal preparada.

José Fortes trabalhou com Paredes e aparece associado à gravação de trabalhos de vários dos grandes nomes da música portuguesa. O seu percurso é precisamente marcado pela capacidade de lidar com instrumentos e linguagens muito diferentes.

Essa versatilidade é talvez a sua característica mais importante.

O produtor, o técnico e a fronteira entre os dois

A carreira de José Fortes ajuda a desmontar uma ideia demasiado simples sobre a produção musical.

Um disco não nasce apenas da relação entre artista e produtor.

Existe uma cadeia de decisões.

O compositor escreve.

O músico interpreta.

O produtor define uma direção.

O técnico escolhe como essa interpretação será captada.

O misturador decide como os elementos vão coexistir.

E, muitas vezes, estas funções cruzam-se.

José Fortes ocupou vários desses lugares ao longo da carreira. Mas a sua grande contribuição está sobretudo na engenharia e captação de som, uma área em que se tornou uma referência nacional. Uma investigação académica sobre a música popular portuguesa descreve o seu trabalho como marcado pelo rigor profissional e por uma atitude colaborativa, características que contribuíram para a confiança que muitos músicos depositavam nele.

Uma carreira que atravessou gerações tecnológicas

José Fortes pertence a uma geração que começou com fita magnética e acompanhou a chegada de equipamentos cada vez mais sofisticados.

Passou por diferentes estúdios e responsabilidades, incluindo a direção de estruturas como os estúdios da Rádio Triunfo, Rádio Produções Europa, Angel Studio e departamentos áudio dos Estúdios Valentim de Carvalho e Edipim. A Universidade Católica Portuguesa regista essa sucessão de funções entre as décadas de 1960 e 1990.

Hoje, a sua atividade inclui gravações com um estúdio móvel, sobretudo em música clássica e em espaços cuja acústica possa fazer parte da própria gravação.

Existe uma espécie de coerência nisso.

Depois de uma vida a aprender a ouvir salas, músicos e instrumentos, José Fortes continua a trabalhar precisamente onde o espaço tem importância.

O legado

José Fortes não mudou a música portuguesa através de uma estética própria, como aconteceu com alguns produtores.

Mudou-a através da qualidade da gravação.

Ajudou a criar estúdios.

Formou profissionais.

Trabalhou com diferentes gerações.

Participou na captação de centenas de projetos.

E esteve presente em momentos fundamentais da história da música portuguesa, desde a canção de intervenção ao rock, passando pela música popular, pelo jazz e pela música erudita. O Observatório da Canção de Protesto descreve-o como uma das principais figuras de referência da gravação sonora em Portugal.

Talvez seja essa a melhor forma de compreender a sua importância.

Não é preciso procurar uma assinatura sonora única nos discos de José Fortes.

É preciso ouvir a qualidade com que os artistas ficaram registados.

Porque, antes de uma música chegar aos nossos ouvidos, alguém teve de decidir como ela seria ouvida.

José Fortes passou uma vida inteira a tomar essa decisão.

Sabias que?

José Fortes começou a trabalhar profissionalmente na área do som em 1956 e, segundo a Universidade Católica Portuguesa, realizou a primeira captação para a Emissora Nacional aos 13 anos. Dois anos depois fez a primeira captação para uma edição discográfica.

7 gravações para descobrir o trabalho de José Fortes

Rui Veloso – Ar de Rock (1980)
Técnico de som. Produção de António Pinho.

Fausto – Por Este Rio Acima (1982)
Captação de som e participação nas misturas. Produção e direção musical de Eduardo Paes Mamede.

José Afonso
Uma parte substancial das gravações ligadas ao percurso de José Fortes passa pela obra de José Afonso.

José Mário Branco
Entre os artistas cuja obra foi gravada por Fortes durante o período da Rádio Triunfo.

Banda do Casaco
Projeto com o qual trabalhou no universo dos estúdios portugueses.

António Pinho Vargas – Solo II
Gravação acompanhada por José Fortes, incluindo o improviso “In Between T&O”.

Carlos Paredes
Um dos grandes intérpretes portugueses cuja obra aparece associada ao percurso de gravação de José Fortes.

Beatriz Ambrósio

Beatriz Ambrósio é jornalista e colaboradora do Música Total, dedicada à cobertura da atualidade musical nacional e internacional. Privilegia uma escrita clara, objetiva e rigorosa, acompanhando lançamentos, concertos, festivais e os principais acontecimentos da indústria da música. O seu trabalho procura informar os leitores de forma rápida e contextualizada, mantendo sempre o foco na relevância das notícias e na proximidade com quem vive a música todos os dias.

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