Os Açores passam meses a prometer verão como quem promete devolver dinheiro emprestado. “Para a semana melhora”. “Agosto é que vai ser”. “Setembro costuma surpreender”. E nós vamos acreditando. Compramos calções em promoção, sonhamos com sardinhadas ao pôr do sol, imaginamos corpos bronzeados encostados às muralhas das festas de freguesia. Depois chega junho e está um vento capaz de arrancar toldos e dignidade.
Ultimamente até a primavera parece uma estação indecisa. Chove, abre, fecha, volta a chover. Um sol abrasador por estas bandas virou quase lenda oral. Uma miragem tropical para uma terra que merecia mais calor e menos humidade entranhada nos ossos. O açoriano aprende cedo a sair de casa com casaco e óculos de sol ao mesmo tempo. E mesmo assim falha.
O problema das férias para um açoriano é simples. Tirar férias cá dentro às vezes parece castigo emocional. Perdemos aquele solinho continental que muda a cor da pele, dá energia, vitamina D e até coragem para certas decisões duvidosas. Voltamos sempre mais claros do que fomos. Há turistas suecos mais bronzeados em São Miguel do que metade da população local em agosto.
Ainda assim existem pequenas vitórias. Os banhos nas poças de água morna continuam a salvar dias inteiros. Entrar numa poça termal num fim de tarde cinzento tem qualquer coisa de terapia barata e milagre vulcânico. O corpo relaxa, a cabeça abranda, e durante uns minutos esquecemos que estamos em julho vestidos como outubro.
Enquanto escrevo isto vai tocando Os Tubarões. Aquela música cheia de sol verdadeiro, daquele que seca roupa em vinte minutos e faz dançar sem esforço. Cabo Verde parece outro planeta quando comparado com certos verões açorianos. Aqui dança-se muitas vezes de casaco vestido e cerveja na mão para aquecer os dedos.
Depois vou trocando para outras músicas. Sons de felicidade inventada. Canções que fazem parecer que a vida está sempre prestes a acontecer numa estrada costeira qualquer. O verão nos Açores também é isso. Imaginação. Intenção. Uma tentativa constante de criar calor humano quando o clima se esquece de colaborar.
E talvez seja por isso que as festas funcionam tão bem por cá. As pessoas precisam delas quase como sobrevivência emocional. Uma filarmónica numa rua húmida consegue mais pelo estado de espírito coletivo do que certos discursos motivacionais. O cheiro da bifana mistura-se com maresia, há miúdos a correr com algodão doce nas mãos, alguém afina uma guitarra ao longe, e de repente já ninguém quer saber se estão 19 graus em pleno agosto.
O açoriano aprendeu a fabricar verão com pouco material. Um carro estacionado perto do mar. Uma coluna Bluetooth cansada. Uma imperial mal tirada. Uma conversa que começa às seis da tarde e acaba sem relógio. O sol pode faltar, mas a tentativa continua sempre presente. Meio teimosa. Meio poética.
Também há qualquer coisa de musical nesta instabilidade toda. Os Açores nunca foram terra de linhas retas. O tempo muda como mudam certas canções. Começam luminosas, escurecem a meio, depois abrem outra vez perto do refrão. Talvez por isso tanta música feita cá tenha melancolia dentro. Mesmo quando dança.
E no fundo ninguém sai realmente daqui por causa do clima. Reclama-se muito, claro. Faz parte do ritual. Mas basta aparecer uma nesga de sol numa tarde improvável para as praias encherem em vinte minutos. O açoriano vive em permanente estado de esperança meteorológica. Quase religiosa.
Agora voltou a tocar outra música qualquer. Dessas que fazem imaginar janelas abertas, estradas quentes e roupa a secar ao vento sem cheiro a humidade. Cá fora está cinzento outra vez. Claro que está.



