Terça-feira, 1 de Setembro de 2026
Editorial

“Anjos de Papel”: Vinícius Gouveia e Grisa encontram um lugar entre partir e ficar

Por Mafalda Matos 1 Set 2026

O último single antes de um primeiro álbum costuma carregar uma responsabilidade particular. Já não serve apenas para apresentar um artista, mas também para deixar uma pista sobre aquilo que ainda falta ouvir. Em “Anjos de Papel”, Vinícius Gouveia escolhe fazer isso através de uma colaboração com Grisa.

A canção é o terceiro e último avanço de No Escuro, o álbum de estreia que assinala o início da carreira a solo do músico paulista. Entre violões, guitarras e sintetizadores, “Anjos de Papel” aproxima-se de um território onde o indie, o rock alternativo e o dream pop se cruzam sem grande preocupação em estabelecer fronteiras.

No centro está uma pergunta simples, mas difícil de resolver: quando existe vontade de partir, o que nos faz ficar?

 

 

O cais onde “Anjos de Papel” começa

A letra constrói a canção a partir da imagem de um cais. É aí que terra e mar se encontram e é também aí que Vinícius Gouveia e Grisa colocam personagens que parecem não saber exatamente para onde seguir.

Os barcos de papel, os anjos e as correntes de ar criam uma sucessão de imagens frágeis. Tudo parece sujeito a mudar de direção.

“Anjos de papel / As asas encharcadas / Sonhando com as margens do cais”

A imagem não apresenta uma resposta. Pelo contrário, mantém a canção num lugar de dúvida. Os anjos ainda sonham com a margem, mas já carregam asas encharcadas. Existe desejo, mas também existe peso.

“Anjos de Papel” trabalha precisamente essa distância entre aquilo que imaginamos e aquilo que uma relação consegue realmente sustentar. A fantasia aparece, mas nunca permanece intacta durante muito tempo.

É uma canção sobre vínculo, mas sem transformar o amor num lugar necessariamente seguro. E fala de liberdade sem fingir que partir resolve tudo.

Quando o som acompanha a sensação

A instrumentação acompanha esse universo sem tentar torná-lo excessivamente definido. Violão, guitarra, baixo e bateria mantêm uma presença física, enquanto os sintetizadores deslocam a música para um espaço mais atmosférico.

Esse encontro entre instrumentos orgânicos e eletrónicos é uma das características mais interessantes da faixa. A canção não abandona a proximidade de uma composição tocada por músicos, mas também não se fecha numa estética puramente acústica.

Os sintetizadores acrescentam profundidade ao arranjo e ajudam a desfocar as margens da música. A guitarra e o violão mantêm pontos de contacto mais concretos, enquanto a bateria de Pedro Lacerda introduz uma estrutura que impede a canção de se perder completamente na atmosfera.

A produção de Lucas Diniz e Vinícius Gouveia trabalha, assim, mais pela convivência entre texturas do que pela procura de um grande momento de explosão. “Anjos de Papel” prefere permanecer dentro da sua própria tensão.

Grisa não entra apenas como participação

A presença de Grisa é decisiva para a identidade da canção. O seu vocal transporta as imagens da letra para uma zona mais melancólica e dá ao tema uma perspetiva que dificilmente seria a mesma apenas com a voz de Vinícius Gouveia.

A colaboração, no entanto, não nasce agora.

Os dois músicos já tinham partilhado experiências na Applegate, banda da cena independente de São Paulo da qual Vinícius Gouveia fez parte. Dividiram palcos e participaram numa live session onde Grisa entrou nos vocais e no theremin.

Esse percurso anterior ajuda a compreender a naturalidade do encontro. “Anjos de Papel” não apresenta dois artistas que se juntaram apenas para gravar uma faixa. Existe uma relação musical anterior e a canção parece beneficiar desse conhecimento mútuo.

Grisa tem desenvolvido um percurso singular dentro da música independente brasileira, cruzando composição, eletrónica e construção de instrumentos. Atualmente integra a Cidade Dormitório e mantém também um projeto a solo onde explora o som como matéria e espaço.

Essa experiência encontra aqui um contexto diferente, mais próximo da linguagem de Vinícius Gouveia, mas sem desaparecer dentro dela.

O que “Anjos de Papel” deixa antes de No Escuro

Vinícius Gouveia chega à carreira a solo depois de vários anos ligados à Applegate e de experiências como instrumentista ao lado de outros artistas. No Escuro representa, por isso, uma mudança de lugar.

“Anjos de Papel” é o último sinal antes dessa entrada.

O single não tenta explicar o álbum inteiro nem funcionar como uma espécie de resumo antecipado. Apresenta antes uma parte do seu universo: uma escrita baseada em imagens, uma atenção particular às texturas e uma vontade de construir canções onde a atmosfera não é apenas decoração.

O encontro com Grisa reforça essa direção. A colaboração amplia a paisagem sonora de Vinícius Gouveia e permite que a canção se afaste de uma leitura demasiado linear.

No final, “Anjos de Papel” deixa uma pergunta mais interessante do que uma resposta. Quando chega o momento de avançar, nem sempre é possível saber se estamos realmente a partir ou apenas a mudar de margem.

E talvez seja esse o último gesto antes de No Escuro: não indicar ainda o caminho, mas deixar a sensação de que alguma coisa está prestes a começar.

Ficha técnica

Composição: Vinícius Gouveia e Grisa
Arranjo: Vinícius Gouveia
Voz: Grisa
Violão, guitarra e synth bass: Vinícius Gouveia
Bateria: Pedro Lacerda
Produção: Lucas Diniz e Vinícius Gouveia
Mistura: Lucas Diniz e Vinícius Gouveia
Masterização: Alejandra Luciani
Capa: Vinícius Gouveia

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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