Durante anos, António Quintino esteve ligado à música através do baixo e do contrabaixo, acompanhando outros artistas e contribuindo para projetos que não eram inteiramente seus. Com Recato, prepara-se para dar um passo diferente: assumir a voz, escrever a partir da própria experiência e colocar a sua história no centro das canções. Com produção de Samuel Úria, este primeiro trabalho a solo, previsto para 2027, nasce da necessidade de encontrar espaço para uma expressão mais íntima e pessoal. Nesta entrevista, António Quintino fala sobre o desafio de se estrear como cantautor, a fragilidade de escrever sobre si próprio, as referências que o acompanham e a descoberta de que também pode fazer sozinho aquilo que, durante anos, construiu em colaboração com outros músicos.
Durante muitos anos esteve ligado à música através do baixo e do contrabaixo, acompanhando outros artistas. O que aconteceu para sentir que era agora o momento de colocar a sua própria voz no centro?
Foi a conjugação de vários fatores na minha vida. Ser sideman em vários projetos deixa-me pouco tempo livre, essencial para potenciar a criatividade, mas chegou a um ponto em que a necessidade de montar algo absolutamente pessoal me obrigou a arranjar esse tempo para mim. A isso juntou-se a oportunidade de fazer uma residência artística no hotel Gandum, em Montemor-o-Novo, que ajudou a pôr as coisas em marcha para a pré-produção das canções e, daí, avançar para a gravação.
“Recato” é apresentado como um trabalho íntimo e autobiográfico. O que foi mais difícil: escrever sobre si próprio ou decidir que essas canções estavam prontas para serem partilhadas?
Creio que ambas as coisas. Por um lado, habituar-me a escolher as palavras que melhor transmitissem o que queria dizer foi um processo difícil. Depois, encontrar o ponto de equilíbrio entre aperfeiçoar as canções e não ser demasiado autocrítico. Foi uma jornada dura, e ainda o é, mas estou a começar a aceitar que faz parte do trabalho.
Quando começou a trabalhar nestas canções, já sabia que queria assumir também o papel de cantautor ou essa decisão foi acontecendo naturalmente durante o processo?
Inicialmente, surgiu-me a ideia de fazer um disco de música instrumental, mas rapidamente senti necessidade da palavra. Quando decidi seguir esse caminho, sabia que teria de ser eu a dar-lhe voz, em vez de convidar intérpretes para o fazerem por mim.
Existe alguma diferença na forma como se ouve uma canção quando se está a tocar para servir a visão de outro artista e quando aquilo que está em causa é uma canção que nasceu de si?
Alguma, sim. Na fase inicial, sendo o único responsável pela matéria-prima, senti que a pressão era muito maior. Enquanto músico sideman, tento sempre dar o meu cunho pessoal, mas a visão final é sempre do autor. Assumindo o papel de autor, essas decisões passaram a caber-me a mim. Ainda assim, também faz parte ouvir quem convido a colaborar comigo e aceitar que qualquer outra opção pode ser potencialmente melhor do que aquela que tinha escolhido. Nesse processo, o casting é essencial.
Samuel Úria assume a produção de “Recato” e estreia-se também nesse papel. Como nasceu esta colaboração e o que procurava nele enquanto produtor?
Comecei a tocar na banda do Samuel de forma regular em 2016. Ao longo destes dez anos, cresceu uma relação profissional e pessoal muito forte. Tenho aprendido muito com ele durante este percurso e, quando pensei em alguém que pudesse entrar comigo neste trabalho, lembrei-me logo dele. Queria alguém que também se estreasse como produtor, tal como eu me estou a estrear enquanto cantautor, e que fosse alguém de quem estivesse próximo, tanto musicalmente como pessoalmente. O Samuel foi uma escolha muito acertada, não só pelo cuidado que tem com a palavra, mas também por toda a ajuda neste novo desafio que é dar voz a canções.
Samuel Úria fala da fragilidade como uma presença essencial nesta canção. Quando escreveu “Recato”, tinha consciência dessa exposição ou só a reconheceu depois de ouvir a canção construída?
Tinha alguma consciência, mas não lhe dava o devido valor. Esse olhar exterior ajudou-me a distanciar-me dos defeitos que identificava e a transformá-los em virtudes. Só quando mostrei as canções ao Samuel e ouvi o que tinha a dizer sobre elas é que me apercebi da essência deste trabalho.
Entre as referências deste novo trabalho estão Elliott Smith, Rodrigo Amarante, Boy Azooga e Maria Reis. O que encontra nesses artistas que gostaria de transportar para a sua própria forma de fazer canções?
Além de serem todos músicos exímios, são artistas que ouço e que me fazem pensar sempre: «Quem me dera ter sido eu a escrever esta canção». A intimidade das canções de Elliott Smith, as texturas sónicas de Rodrigo Amarante e dos Boy Azooga, a sinceridade das letras de Maria Reis. Por isso, agarrei-me a eles como bússolas de honestidade, estética, sonoridade e bom gosto.
O seu percurso como músico, arranjador e compositor passou por muitos universos diferentes. Quando começou a escrever para este projeto, sentiu necessidade de se afastar de alguma dessas experiências ou quis levá-las consigo?
Não fiz muitas concessões às minhas influências musicais enquanto compunha. Tinha algumas direções para onde queria levar a música, o que talvez a tenha afastado naturalmente da influência que o jazz teve na minha carreira. Ainda assim, alguns elementos desse género estiveram muito presentes na procura de soluções para os arranjos, incluindo aspetos mais técnicos. A improvisação também teve um papel importante na construção dos arranjos.
Há uma mudança importante entre estar atrás de um instrumento e assumir a voz. Como lidou com essa exposição pessoal e artística?
Foi difícil ultrapassar o primeiro embate com a exposição, e esse continua a ser um processo, em particular na perspetiva de apresentar a música ao vivo. Ao mesmo tempo, estou a sentir um entusiasmo pelo desconhecido que não esperava sentir.
O álbum está previsto para 2027. Já consegue olhar para o disco como um todo e perceber qual é a história que estas canções estão a contar em conjunto?
Sim, perfeitamente. O contexto é a minha história, absolutamente pessoal. Sem querer condicionar demasiado o ouvinte, acho que os temas sobre os quais escrevo são transversais à condição humana.
Depois de tantos anos a colaborar com outros músicos, o que descobriu sobre si próprio enquanto artista ao fazer este primeiro trabalho em nome próprio?
Primeiro, descobri que sou capaz. Aquilo que pensava ter apenas para oferecer em colaboração com outros, descobri que também posso fazer por mim. E isso é, para já, o maior retorno deste trabalho.
Se tivesse de apresentar António Quintino, o cantautor, a alguém que conhece apenas o António Quintino baixista e contrabaixista, o que gostaria que essa pessoa ouvisse primeiro em “Recato”?
Mais do que me apresentar, gostava que quem ouvisse a minha música se sentisse identificado e transpusesse para a canção a sua própria história.
