Com “Duo”, Applegate abre uma nova etapa marcada pela liberdade, pela experimentação e pela vontade de fugir às fórmulas mais previsíveis. O novo single de Gil Mosolino cruza psicadelia, Krautrock e dub reggae, com o baixo saturado a assumir um papel central numa produção que procura recuperar o lado físico e imperfeito das gravações de outras décadas.
A faixa reúne ainda dois nomes importantes: Renato Cunha, dos Black Drawing Chalks, que regressa aos lançamentos fonográficos após 13 anos, e Pedro Lacerda, dos Glue Trip, responsável pela bateria e peça fundamental no nascimento da canção. A gravação começou precisamente por aí, numa sessão entre amigos que acabou por definir a direção de todo o single.
Nesta conversa com o Música Total, Gil Mosolino fala sobre a necessidade de perder o medo, a decisão de não fazer música a pensar no mercado, o processo de gravação de “Duo”, a importância do trabalho analógico e a relação entre música, resistência e memória familiar. Fala também do futuro de Applegate e de um EP que começa a ganhar forma, inspirado, entre outras referências, pelo universo de Enter the Void, de Gaspar Noé.
No fundo, “Duo” parece funcionar como uma declaração de princípios: fazer primeiro aquilo em que se acredita e deixar que o público descubra depois o significado dessa escolha.
“Duo” marca o início de uma nova fase do projeto Applegate. O que mudou na tua visão artística para sentires que este era o momento certo para abrir um novo capítulo?
A liberdade de o projeto voltar a ser algo somente meu, e não mais coletivo, abriu-me para possibilidades de ousar mais, dependendo apenas de mim para fazer isso. Nesta música, ousei não ser comercial, tanto na capa quanto na produção fonográfica, na letra, no género e no som. Mas quis fazer algo em que acredito e que admiro quando outros artistas fazem. Acho que a maior mudança é a perda do medo.
A sonoridade de “Duo” cruza psicadelia, Krautrock e Dub Reggae. Como nasceu esta combinação de influências e o que procuravas transmitir musicalmente?
São referências que me acompanham a vida toda, mas tenho de assumir que a minha atual vivência com a banda Bike trouxe mais temperos sonoros e possibilidades para explorar estes géneros. Conheci outro cenário psicadélico, mas underground, onde a ideia é trazer estéticas pesadas nos timbres e não existir uma preocupação em soar comercial.
Os estilos que se encontram nesta música são géneros underground, criados, cultivados e aprimorados pela classe trabalhadora dos seus respetivos países. Todos estes géneros me representam muito.
O baixo assume um papel central na canção, algo pouco comum em muitas produções atuais. Porque decidiste dar-lhe esse protagonismo?
O lance do baixo alto, estourado, eu faço nesta música porque é como imagino que deveria soar uma banda a tocar num local pequeno, todos de óculos escuros, com muita fumaça, numa vibe meio Velvet Underground, Bob Dylan, The Doors, sabe? Hahaha.
Acho que o baixo traz essa coisa mais obscura, essa camada mais sombria, esse clima tenso no ambiente. Mas a grande influência fonográfica para fazer isso vem do dub jamaicano raiz e de toda a saturação do Krautrock old school.
A participação de Renato Cunha representa o seu primeiro lançamento fonográfico em 13 anos. Como surgiu este convite e o que trouxe a sua guitarra para a identidade da música?
Veio de forma natural. Somos amigos próximos e ele sempre esteve por perto. Foi algo divertido, uma tarde entre amigos, fumando boa maconha e curtindo o momento.
A ideia da música é soar natural. É pegar essa referência dos sons dos anos 70, quando bandas gravavam juntas, ao vivo, no mesmo estúdio e, às vezes, na mesma sala. Então, a ideia foi nós dois sentarmos e tocarmos juntos a música, como se fosse uma jam, algo bem descontraído.
Ele trouxe, além de timbres incríveis durante a gravação, uma qualidade de áudio fenomenal, que abrilhantou e trouxe vida para ambas as guitarras. Ele ficou livre para gravar qualquer ideia que tivesse e, depois, fiz um trabalho de decupagem e edição. Mas o processo foi basicamente esse.
Pedro Lacerda regressa também ao projeto depois de alguns anos. Como foi voltar a trabalhar com ele em estúdio e que impacto teve na construção de “Duo”?
Pedrinho não voltou para a banda, mas ele sempre teve e sempre terá as portas abertas para entrar, bagunçar, sair e voltar quando bem entender. Ele é quase uma entidade na banda, um panteão, o sagrado que se consulta, tira dúvidas e mostra novos caminhos! Hahahaha. Pedrinho é foda.
Trabalhar com ele novamente no estúdio foi o início de todo o single. A música começou a ser composta pela bateria. Foi uma tarde entre dois amigos, com muitas conversas, fazendo tudo apenas pela diversão, sem nenhuma pressão de tempo, prazo ou qualidade. Realmente, dois amigos num playground.
Sem ele, a música não existiria. Ouvimos algumas referências, ele sentava na bateria e fazia um beat. Eu guiava algumas vezes sobre quantas vezes repetir e quando entrar alguma virada. Ele trouxe equipamentos excelentes de bateria para a gravação, o que fez toda a diferença para trazer essa estética mais crua das gravações antigas.
Além de compositor e intérprete, assumiste também a produção, mistura e masterização da faixa. Que desafios encontraste ao acumular tantas funções num único projeto?
Cara, para ser sincero, o meu sonho é conseguir uma boa verba e contratar excelentes profissionais para trabalhar comigo. Eu assumo este papel central por causa da dificuldade material e financeira de se ter um projeto artístico no Brasil de 2026, ainda mais sozinho.
Eu gosto bastante de fazer isso e aproveitei o processo ao máximo, mas o trabalho em grupo é algo que sempre acrescenta quando é feito com as pessoas certas. O desafio de trabalhar sozinho é não ter outros olhares, outras ideias além da que você mesmo tem. É aquela eterna dúvida: “Será que é isso mesmo?”
Eu pretendo ter um processo híbrido entre acumular funções e trabalhar em grupo. Acho que os dois processos trazem os seus desafios e as suas qualidades.
Referes que procuraste unir o calor analógico à precisão digital. Como traduziste essa ideia durante o processo de gravação e produção?
A gravação inicial aconteceu num excelente estúdio chamado Estúdio sem Piscina. A engenharia de gravação da bateria foi feita pelo Eduardo Magliano, que trouxe excelentes equipamentos para a gravação, microfones excelentes, uma excelente mesa de mistura e uma caixa Pearl incrível para gravarmos a bateria.
Começando o processo dessa forma, ficou fácil trabalhar dentro dessa estética retro. Porém, a tecnologia permitiu que todos os outros elementos da música fossem gravados em home studios, também com bons equipamentos, mas equipamentos hi-fi e modernos, além de simuladores de equipamentos antigos.
Depois de toda a gravação, utilizei uma técnica de mistura chamada send/return para processar elementos da música em periféricos analógicos. Porque, em todo o processo, eu não gosto de como soa a saturação no digital. Então, delays, echos, saturações e distorções foram quase todos processados em hardware analógico.
Fiz essa mistura geral e o resultado vocês podem conferir em “Duo”, a nova música da Applegate.
Liricamente, “Duo” fala do afeto como um ato de resistência e lealdade. Que experiências ou reflexões estiveram na origem desta mensagem?
A ideia principal da letra da música é justamente essa ideia de lealdade num duo. É sobre quem é a pessoa que te passa uma sensação de um domingo. Domingo na ideia de um dia de descanso, de aproveitar a vida independentemente de qualquer situação.
“Duo” fala muito sobre lealdade e, por isso, também honrei na capa os proletários revolucionários. Creio que fazer parte de um coletivo revolucionário é uma das maiores provas de lealdade que se pode ter.
No plano de fundo, tenho um histórico de resistência na minha família. Durante a ditadura militar brasileira, a minha família era uma família de guerrilheiros, e existe muito de lealdade nessas histórias.
Vivemos uma época em que muitos lançamentos privilegiam o imediatismo. “Duo” segue um caminho mais atmosférico e contemplativo. Acreditas que ainda existe espaço para este tipo de abordagem?
Eu acredito que cada vez mais este tipo de arte vai se tornar algo mais difícil de trabalhar, pensando em termos de profissão. O público em geral já está doutrinado a gostar de padrões capitalistas de arte, onde tudo tem de ser fácil, polido, bonito e imediato.
Creio que este tipo de arte vai ficar cada vez mais restrito a um nicho, ainda mais quando contém questões políticas. Mas eu não me importo. A minha ideia é fazer este tipo de arte para quem aprecia isso, em qualquer lugar do mundo.
Espero muito que um dia isso me dê um retorno financeiro que me possibilite viver apenas disso e continuar a fazer este trabalho. Mas também estou disposto a não ser comercial e a criar aquilo em que acredito, aquilo que acredito que pessoas como eu vão gostar de consumir.
O que gostarias que o público sentisse depois de ouvir “Duo” pela primeira vez? Existe alguma reação que considerarias a melhor recompensa para este trabalho?
Quero que a pessoa se questione, estranhe, se incomode com alguma coisa, não entenda, mas que isso a intrigue e a faça voltar para procurar o som mais vezes.
Que ouça a música várias vezes em loop depois de entender e gostar do que ouviu. Que entre nessa busca constante dentro da música e explore cada elemento, tanto da ideia da canção como das suas camadas de instrumentos e timbres.
Este single antecipa um álbum, um EP ou outros lançamentos? O que podemos esperar da próxima fase de Applegate?
Este single, para mim, é um teste para um EP que estou a trabalhar neste momento. Quero lançar algo sólido e conceptual, com 15 a 20 minutos no máximo, que siga esta ideia.
Estou a ter muitas referências do filme Enter the Void, de Gaspar Noé, para a criação deste EP. Com base na resposta do público a esta música, será definido melhor para onde o EP vai caminhar.
Se tivesses de definir Applegate em apenas uma frase para quem vai descobrir o projeto através de “Duo”, qual seria essa frase?
Eu interesso-me muito mais em saber como essa pessoa definiu a sonoridade da banda do que em dizer alguma coisa. Hahaha.
Escuta sem tentar entender ou colocar em caixas. Apenas sente a história da música.0
LER: https://musicatotal.net/applegate-lanca-duo-e-marca-nova-fase/
