O realizador e argumentista micaelense conduz em Ponta Delgada a residência artística “FAIL BETTER WITH FRAGA”, onde dez criadores desenvolvem projetos de cinema e audiovisual durante cinco dias de trabalho intensivo.
Antes de uma história chegar ao ecrã, existe quase sempre um período em que tudo pode mudar. Uma ideia ainda não encontrou a sua forma, uma personagem pode desaparecer, uma história pode ganhar outro sentido. É nesse momento de construção que Augusto Fraga está a trabalhar em Ponta Delgada, lado a lado com dez criadores açorianos.
O realizador e argumentista micaelense conduz, entre 14 e 18 de setembro, a residência artística “FAIL BETTER WITH FRAGA”, integrada na programação de Audiovisual e Cinema da PDL26, Capital Portuguesa da Cultura. A iniciativa acontece no Hotel Mercure e coloca em discussão projetos concretos que os participantes querem levar mais longe.
O encontro tem também um significado particular por ser conduzido por um criador que nasceu em São Miguel e que entretanto alcançou uma dimensão internacional. Augusto Fraga é um dos nomes associados a “Rabo de Peixe”, série que se tornou um fenómeno de audiência e levou uma história açoriana muito para além do arquipélago.
Agora, regressa ao território de onde partiu para trabalhar com quem está a começar a construir as suas próprias histórias.
Dez criadores, dez projetos em construção
A residência reúne dez participantes, com as vagas totalmente preenchidas, e funciona em regime de imersão. O trabalho decorre das 10h00 às 13h00 e das 15h00 às 18h00, ao longo dos cinco dias.
Cada criador chegou com uma sinopse de um projeto próprio. Podem ser longas-metragens, curtas ou séries, documentais ou de ficção. O ponto de partida não é, por isso, uma ideia abstracta sobre cinema, mas histórias concretas que já existem e que precisam de ser questionadas, desenvolvidas e, em alguns casos, reconstruídas.
É aqui que a experiência de Augusto Fraga entra no processo. A proposta não passa por entregar uma fórmula para fazer um filme, mas por colocar perguntas e testar as ideias antes de estas chegarem a uma fase em que mudar seja mais difícil.
O próprio realizador resume essa abordagem de forma directa: quer ajudar os participantes a descobrir aquilo que existe de mais verdadeiro e específico em cada projeto.
O erro também faz parte do cinema
O nome “FAIL BETTER” vem de uma conhecida formulação de Samuel Beckett e traduz uma ideia simples, mas particularmente útil para quem escreve e cria: nem todos os caminhos precisam de resultar à primeira.
Num processo de desenvolvimento, perceber que uma ideia não funciona pode ser tão importante como encontrar aquela que funciona. A diferença está no momento em que isso acontece.
A residência coloca precisamente esse princípio no centro do trabalho. Falhar enquanto ainda se está a escrever, experimentar ou discutir um projeto permite voltar atrás, alterar personagens, reformular conflitos ou simplesmente abandonar aquilo que não está a funcionar.
É uma visão do processo criativo que contraria a ideia de que um projecto nasce já fechado. Para estes dez criadores, os cinco dias em Ponta Delgada são sobretudo um espaço para testar.
E testar implica aceitar que algumas ideias podem não sobreviver.
De São Miguel para o mundo e de volta aos Açores
Existe uma dimensão territorial que distingue esta residência. Augusto Fraga não chega aos Açores apenas como um profissional reconhecido do audiovisual. É um criador que nasceu em São Miguel e que construiu parte importante do seu percurso fora do arquipélago.
“Rabo de Peixe” tornou essa ligação ainda mais visível. A série colocou paisagens, personagens e referências açorianas perante uma audiência muito mais ampla e demonstrou como uma história profundamente ligada a um território pode encontrar leitores e espectadores muito para além dele.
O regresso para trabalhar com novos criadores estabelece, por isso, uma ligação entre diferentes momentos de um percurso artístico.
Para Luís Filipe Borges, curador de Audiovisual e Cinema da PDL26, esta proximidade responde a uma necessidade que marcou durante anos quem queria desenvolver uma carreira artística nos Açores: a dificuldade em ter contacto directo com figuras de referência.
A residência cria precisamente esse contacto. Sem a distância de uma palestra ou de uma sessão pontual, existe tempo para discutir projectos, voltar às mesmas ideias e perceber onde está realmente a força de cada história.
O que fica depois dos cinco dias
Entre os participantes estão criadores com projetos ainda numa fase inicial e outros que chegam através do Open Call de Apoio à Escrita de Guião, também promovido no âmbito da PDL26.
A residência cruza, assim, formação, criação e acompanhamento. Mas o seu resultado não será necessariamente um conjunto de projectos terminados. O objectivo é outro: que cada participante saia com uma ideia mais clara sobre aquilo que está a tentar construir e com ferramentas para continuar o trabalho.
Augusto Fraga não promete respostas prontas. Propõe perguntas. E talvez seja precisamente aí que esta residência encontre o seu sentido.
Nos Açores existem histórias que ainda estão à procura da sua forma. Durante cinco dias, dez delas têm um espaço para serem discutidas com alguém que conhece o território por dentro e que já viu uma história açoriana chegar muito longe.
Por agora, existem dez projectos sobre a mesa. O que acontecerá com eles depois destes cinco dias já pertence a outro capítulo.
