É difícil resumir os Azymuth a um género sem deixar alguma coisa de fora. Samba, jazz, funk e electrónica fazem parte da história, mas a música do trio brasileiro sempre pareceu interessada em escapar às etiquetas. Foi assim que surgiu o “samba doido”, uma expressão que acabou por definir uma linguagem própria e que, cinco décadas depois da formação da banda, continua a encontrar espaço em diferentes gerações de músicos e ouvintes.
É essa história que os Azymuth trazem agora a Portugal, com concertos em Lisboa e no Porto. A banda chega também num momento particularmente simbólico: “Marca Passo”, o mais recente álbum, é o primeiro trabalho editado desde a morte de Ivan “Mamão” Conti, baterista fundador e uma das figuras centrais do percurso do grupo.
Um som que nunca coube numa só gaveta
O percurso dos Azymuth começou há cerca de 50 anos, mas a música da banda nunca ficou presa ao momento em que foi criada. A fusão entre jazz-funk e ritmos brasileiros tornou-se suficientemente aberta para ser descoberta por músicos de universos diferentes, incluindo aqueles que encontraram na música electrónica uma nova forma de trabalhar o legado do grupo.
Ao longo dos anos, os Azymuth colaboraram com nomes como 4hero, Madlib e Jazzanova. A sua música também passou pelas mãos de produtores e DJs como Theo Parrish, Ron Trent, Global Communication e Daniel Maunick, através de remisturas que ajudaram a transportar os temas da banda para outros contextos.
É aí que a expressão “samba doido” ganha outra dimensão. Não é apenas uma descrição de um cruzamento entre géneros. É também a consequência de uma música que nunca precisou de escolher entre a tradição brasileira, o jazz, o funk ou a pista de dança.
Continuar depois de Ivan “Mamão” Conti
A história recente dos Azymuth passa inevitavelmente por Ivan “Mamão” Conti. O baterista fundador morreu depois de décadas a definir, com Alex Malheiros e os restantes músicos, uma parte essencial da identidade da banda.
Hoje, Alex Malheiros é o único membro original ainda presente e assume a continuidade dos Azymuth como uma responsabilidade que vai além da simples manutenção de um nome. O próprio músico encara a preservação do legado como um dever espiritual.
É nesse contexto que surge “Marca Passo”. O álbum ocupa um lugar particular na discografia do grupo porque representa a primeira edição depois da morte de um dos seus fundadores.
A questão deixa de ser apenas continuar a tocar. Passa também por perceber como uma linguagem musical construída durante meio século pode permanecer viva sem ficar reduzida à memória daquilo que já foi.
Uma influência que chegou muito além do Brasil
A importância dos Azymuth também pode ser percebida na distância percorrida pela sua música.
O grupo nasceu num contexto profundamente ligado à música brasileira, mas acabou por chegar a comunidades musicais muito diferentes. O jazz e o funk abriram uma primeira porta. Mais tarde, a electrónica e a cultura dos DJs encontraram nos seus ritmos, grooves e composições matéria suficiente para novas interpretações.
Essa circulação ajudou a transformar os Azymuth numa referência que não pertence exclusivamente a uma época. A sua música pode ser ouvida como parte da história do jazz brasileiro, mas também como uma das pontes entre essa tradição e algumas das linguagens que se desenvolveram décadas depois.
No Porto, essa ligação terá ainda uma extensão natural antes do concerto, com um DJ set de DJ Farofa, às 20h30.
Lisboa e Porto recebem o “samba doido”
Os concertos em Portugal acontecem num momento em que os Azymuth carregam consigo duas dimensões diferentes. Por um lado, o peso de cinco décadas de história e de uma influência que ultrapassou fronteiras e géneros. Por outro, a necessidade de continuar a criar e tocar depois da perda de Ivan “Mamão” Conti.
É nessa tensão entre memória e continuidade que “Marca Passo” ganha importância. Os Azymuth não chegam apenas para revisitar uma história conhecida. Chegam com música nova, mas também com uma linguagem que continua a provar que algumas misturas não envelhecem da forma esperada.
O “samba doido” nasceu de uma fusão. Meio século depois, continua sem pedir licença para escolher um só lugar.
