Sábado, 7 de Novembro de 2026
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Defmaa Maadef regressa com “Jambaar” e transforma a identidade senegalesa em força contemporânea

Por Mafalda Matos 7 Nov 2026

“Jambaar” é o novo single de Defmaa Maadef, duo senegalês formado por Defa e Mamy Victory. A nova faixa junta rap, R&B e uma matriz rítmica profundamente ligada ao Senegal, confirmando a vontade das duas artistas de construir uma música contemporânea sem cortar a ligação às suas raízes.

 

A primeira coisa que se percebe em “Jambaar” é que Defmaa Maadef não procura escolher entre passado e presente. A música vive precisamente desse confronto. De um lado, uma identidade musical que nasce em Dakar e carrega consigo a tradição senegalesa. Do outro, uma produção pensada para uma geração que cresceu a ouvir hip-hop, R&B, afrobeat e eletrónica.

É nessa zona de contacto que Defa e Mamy Victory encontram o espaço próprio do projeto.

“Jambaar” não aparece como uma tentativa de repetir aquilo que o duo já fez. Funciona antes como mais um passo numa linguagem que tem vindo a ganhar forma ao longo dos últimos anos.

Duas vozes, dois caminhos que se encontram

Defa e Mamy Victory chegam a este projeto com percursos diferentes.

Defa está ligada ao R&B e ao canto, tendo integrado anteriormente o grupo Rafa e colaborado como cantora de apoio dos Daara J Family. Mamy Victory construiu o seu percurso sobretudo através do rap, afirmando uma presença vocal e cénica mais próxima da cultura hip-hop.

Essa diferença é importante porque Defmaa Maadef nunca depende da ideia de duas vozes iguais.

As duas artistas ocupam lugares diferentes dentro da música. Uma pode trabalhar a melodia e a dimensão mais cantada, enquanto a outra introduz a força rítmica e discursiva do rap. Quando essas duas linguagens se encontram, o resultado ganha uma tensão que seria difícil conseguir com uma única abordagem.

É também aí que “Jambaar” encontra parte da sua identidade.

Em vez de esconder as diferenças entre Defa e Mamy Victory, o projeto transforma-as numa vantagem.

A tradição não está no passado

Existe uma tendência para olhar para a música africana através da oposição entre tradição e modernidade. Defmaa Maadef escapa a essa divisão.

A ligação ao Senegal não aparece como decoração ou como uma referência colocada por cima de uma produção contemporânea. Está integrada na própria maneira como as artistas pensam a música.

O duo já assumiu influências de nomes fundamentais da música senegalesa, entre eles Youssou N’Dour, Thione Seck e Orchestra Baobab. Mas a intenção nunca foi reconstruir esses sons tal como existiam. A ideia é perceber o que pode acontecer quando esse património entra em contacto com as linguagens musicais de hoje.

“Jambaar” insere-se nessa procura.

O título também remete para uma palavra de forte significado na cultura wolof, associada à ideia de coragem ou de alguém valente. Essa dimensão encaixa numa música que tem no corpo, na presença e na afirmação uma parte importante da sua força.

A identidade senegalesa, neste caso, não funciona como uma fronteira. Funciona como ponto de partida.

Defmaa Maadef não precisa de escolher entre Dakar e o mundo

A internacionalização do duo é uma consequência natural de uma música que consegue comunicar para além do seu contexto de origem sem apagar esse contexto.

Defmaa Maadef tem vindo a apresentar a sua música em diferentes palcos europeus, levando consigo uma proposta em que o concerto não é apenas a reprodução das gravações. A presença física das duas artistas, a relação entre canto e rap e a dimensão performativa fazem parte da experiência.

Essa capacidade de transportar uma identidade local para um circuito internacional sem a tornar genérica é uma das características mais interessantes do projeto.

Em 2025, o duo passou também pelas Canárias, com uma apresentação no Teatro Circo de Marte, em Santa Cruz de La Palma, integrada no ciclo Músicas del Sur. O concerto colocou novamente em evidência essa relação entre raízes africanas e circulação internacional.

Mas a questão não é apenas geográfica.

Defmaa Maadef representa uma geração de artistas africanas que já não precisa de explicar porque pertence simultaneamente a vários lugares musicais. Pode estar ligada ao Senegal, ao hip-hop, ao R&B e à cultura urbana global sem transformar essas referências numa contradição.

“Jambaar” é mais um passo, não uma ruptura

O novo single chega depois de uma sequência de trabalhos que foi construindo o percurso do duo, entre eles Oh Maliko, Kalanakh e Jaar Jaar.

O mais interessante, porém, não está em fazer uma lista de lançamentos.

Está em perceber a direção.

Defa e Mamy Victory continuam a aproximar mundos que durante demasiado tempo foram tratados como separados. A música tradicional senegalesa pode conversar com o R&B. O rap pode dividir espaço com melodias mais suaves. A cultura local pode entrar num circuito internacional sem perder a sua língua, os seus códigos e a sua personalidade.

É essa capacidade de juntar elementos diferentes sem os tornar artificiais que dá a “Jambaar” o seu lugar dentro do percurso de Defmaa Maadef.

A música não precisa de escolher entre ser senegalesa ou contemporânea.

Pode ser as duas coisas ao mesmo tempo.

E é precisamente nesse espaço que Defmaa Maadef continua a construir a sua voz.

“Jambaar”, de Defmaa Maadef, já está disponível nas plataformas digitais.

 

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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