Sábado, 7 de Novembro de 2026
Lado B da Música

Os Beatles mandaram «Her Majesty» desaparecer. Um erro de estúdio deixou-a em Abbey Road

Por Mafalda Matos 7 Nov 2026

Abbey Road termina. A música acaba, o silêncio instala-se e parece que o disco chegou ao fim. Mas, alguns segundos depois, aparece uma canção que Paul McCartney tinha mandado retirar.

«Her Majesty» não devia estar ali.

 

 

O pequeno tema tinha sido cortado da sequência do álbum, mas o pedaço de fita não desapareceu. Ficou no final da montagem. Quando o disco foi preparado, aquela sobra continuava lá.

Os Beatles ouviram o resultado e decidiram não voltar atrás.

Assim nasceu um dos pequenos acidentes mais famosos da história dos álbuns.

A canção que ficou sem lugar

«Her Majesty» é uma das peças mais pequenas de Abbey Road. Paul McCartney canta e toca guitarra numa gravação que dura pouco mais de vinte segundos.

Não tem a arquitectura de «Something», a força de «Come Together» ou a dimensão do medley que ocupa grande parte do segundo lado do álbum.

É quase uma vinheta.

E talvez por isso tenha causado um problema.

Durante a montagem de Abbey Road, «Her Majesty» fazia inicialmente parte do medley. McCartney acabou por entender que a canção quebrava a sequência e decidiu retirá-la.

O engenheiro John Kurlander recebeu a indicação para cortar o tema. Naquela época, isso significava trabalhar fisicamente com a fita de gravação. A canção foi retirada do lugar onde estava, mas o fragmento não foi simplesmente destruído.

Foi parar ao fim da fita.

Era suposto ser descartado.

Acabou por ser ouvido.

E isso mudou tudo.

Quando o álbum acabou e a música ainda não

Existe uma diferença importante entre saber que uma canção está escondida num disco e encontrá-la pela primeira vez.

Em 1969, quando Abbey Road chegou às lojas, o ouvinte não tinha uma faixa digital que pudesse consultar, nem uma lista que explicasse o que acontecia depois do último tema.

O álbum parecia terminar com «The End».

Depois vinha o silêncio.

E, para quem permanecesse junto do gira-discos, aparecia «Her Majesty».

O efeito é quase cinematográfico. O grande final dos Beatles já aconteceu. A última frase de «The End» desapareceu. O disco parece fechado.

E então, de repente, McCartney volta a cantar.

A canção entra sem preparação e termina quase imediatamente.

Não parece uma nova faixa. Parece uma coisa que ficou esquecida depois de a história acabar.

E, de certa maneira, foi exactamente isso que aconteceu.

Uma pequena canção com uma personalidade muito própria

O acidente de edição é a parte mais conhecida da história, mas «Her Majesty» merece atenção para além da sua condição de faixa escondida.

A canção é deliberadamente simples. McCartney canta acompanhado pela guitarra e constrói uma pequena sátira em torno da figura da rainha Isabel II.

É muito diferente da grandiosidade de outras partes de Abbey Road. Não procura criar um momento épico. Parece quase uma ideia apanhada no estúdio antes de desaparecer.

Essa dimensão ajuda a explicar por que razão o seu aparecimento no final do álbum funciona tão bem.

Depois de uma sequência musical tão cuidadosamente construída, «Her Majesty» surge como uma espécie de comentário à margem.

E há uma ironia difícil de ignorar.

Os Beatles passaram grande parte da sua carreira a desafiar convenções, a experimentar novas formas de gravação e a transformar o estúdio num instrumento criativo. No fim de Abbey Road, uma das pequenas surpresas mais duradouras nasceu precisamente de algo que não estava planeado.

O acidente tornou-se parte do disco

Quando os Beatles ouviram a versão em que «Her Majesty» aparecia no final, decidiram deixá-la.

Não era necessário transformá-la numa faixa oficial do álbum. Não precisavam de lhe dar um lugar no alinhamento. Bastava não a retirar novamente.

E foi assim que uma gravação destinada a desaparecer ficou associada para sempre a Abbey Road.

O mais interessante é que o acidente não diminui o rigor do álbum. Pelo contrário.

Abbey Road é conhecido pela precisão da sua construção, pelo medley, pelos arranjos e pela forma como os Beatles organizaram os últimos momentos da sua carreira de estúdio.

No meio de tudo isso, existe uma pequena sobra de fita.

Uma canção que deveria ter sido apagada.

Um silêncio que não termina exactamente quando esperamos.

E uma voz que regressa por alguns segundos depois de os Beatles já terem dito adeus.

Sabias que?

«Her Majesty» tornou-se um dos exemplos mais célebres daquilo que mais tarde ficaria conhecido como hidden track: uma gravação que aparece no disco sem estar claramente identificada como parte do alinhamento. A sua presença em Abbey Road nasceu de um processo de edição e não de um plano original para criar uma faixa escondida.

Ficha do Lado B

Canção: «Her Majesty»
Artista: The Beatles
Álbum: Abbey Road
Ano: 1969
Autor: Paul McCartney
Duração: cerca de 23 segundos
Curiosidade: foi retirada da sequência do álbum, mas o fragmento acabou por permanecer no final da montagem.

Vale a pena ouvir

O melhor é ouvir Abbey Road sem interromper a reprodução.

Deixa «The End» terminar.

Não avances.

Espera pelo silêncio.

E depois ouve «Her Majesty» aparecer quase do nada.

É um dos raros momentos em que um acidente de estúdio deixou de ser apenas uma história sobre uma gravação e passou a fazer parte da própria maneira como um álbum é ouvido.

Veredito

«Her Majesty» devia ter desaparecido.

Não desapareceu.

Ficou no fim da fita, sobreviveu à edição e acabou por entrar na história de Abbey Road precisamente porque ninguém decidiu voltar atrás.

Talvez seja essa a melhor maneira de ouvir a canção hoje: não como uma grande peça dos Beatles, mas como aquilo que realmente é.

Um pequeno fragmento que ficou quando o resto já tinha terminado.

E, às vezes, é justamente aí que começa o lado B da história.

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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