Segunda-feira, 28 de Setembro de 2026
Lado B da Música

Queen: a canção que quase destruiu a própria gravação

Por Jorge Silva Medeiros 28 Set 2026

Uma fita magnética contra a luz. Era possível ver através dela.

Dentro daquela tira de plástico estava uma das gravações mais ambiciosas que os Queen tinham feito até então. O problema é que, depois de tantas passagens pela máquina, a própria fita começava a não aguentar aquilo que a banda lhe estava a pedir.

 

 

A música era Bohemian Rhapsody.

Em 1975, gravar uma canção daquela dimensão significava trabalhar com uma tecnologia que tinha limites físicos. Não existia o conforto de guardar infinitas versões, apagar uma tentativa sem consequências ou recuperar instantaneamente aquilo que tinha sido feito horas antes.

Havia fita magnética.

E havia uma máquina que tinha de continuar a passar por ela.

A ideia de Freddie Mercury não cabia numa gravação normal

Freddie Mercury sabia o que queria ouvir, mas Bohemian Rhapsody não era uma canção que pudesse simplesmente ser tocada, gravada e terminada.

A música começava como uma balada de piano, mudava de ambiente, entrava numa secção operática e acabava num território completamente diferente. A parte mais complexa estava precisamente no meio, onde as vozes se multiplicam até criarem aquela espécie de coro impossível.

Mercury, Brian May e Roger Taylor gravaram sucessivas harmonias para construir esse efeito.

Não eram apenas três vozes a cantar juntas.

Eram muitas camadas de vozes gravadas umas sobre as outras.

O produtor Roy Thomas Baker e a banda foram empurrando o processo cada vez mais longe. Quando as pistas disponíveis começavam a ficar ocupadas, era necessário combinar material já gravado para libertar espaço para novas gravações.

Era uma espécie de arquitectura feita em fita.

E cada nova construção deixava marcas no suporte.

Quanto mais vozes entravam, mais a fita sofria

Hoje, quando ouvimos os “Galileos” da secção operática, parece que estamos perante um enorme coro.

Na realidade, uma parte desse coro foi construída através de sucessivas sobregravações.

Mercury, May e Taylor repetiram as partes vocais vezes suficientes para que as harmonias ganhassem aquela dimensão. O processo obrigava a passar repetidamente pela fita e a trabalhar com sucessivas gerações do material gravado.

É aqui que a história deixa de ser apenas uma curiosidade sobre os Queen.

Porque a fita não era um recipiente neutro.

Cada passagem podia degradar um pouco o som.

Brian May recordou que, a determinada altura, os agudos começavam a desaparecer. A gravação estava a perder definição precisamente por causa da quantidade de vezes que o material tinha sido manipulado.

Então apareceu um daqueles momentos que dificilmente poderiam acontecer num estúdio digital.

Pegaram na fita.

Colocaram-na contra a luz.

E conseguiram ver através dela.

A camada de óxido que continha a informação magnética estava tão desgastada que a fita parecia estar a desaparecer.

Os “Galileos” estavam a levar a máquina ao limite

A ironia é que aquilo que estava a provocar o problema era também aquilo que tornava a música extraordinária.

A secção operática precisava daquela quantidade de vozes.

As vozes precisavam de ser acumuladas.

E para as acumular era necessário continuar a trabalhar sobre a fita.

Quanto mais grandioso ficava o som, maior era o risco de danificar aquilo que já tinha sido gravado.

É difícil imaginar este processo hoje.

Se uma produção digital chega a um ponto semelhante, podemos duplicar uma sessão, criar uma cópia de segurança ou simplesmente voltar atrás.

Em 1975, a situação era outra.

O suporte físico fazia parte do processo criativo.

E podia falhar.

A equipa acabou por tomar medidas para preservar o material antes que o desgaste comprometesse ainda mais a gravação. A história foi contada posteriormente por Brian May, que descreveu o estado quase transparente da fita depois de tantas passagens. A produção de Bohemian Rhapsody envolveu cerca de 180 sobregravações, um número extraordinário para a época.

O mais curioso é que o perigo ficou escondido na música

Quando Bohemian Rhapsody chegou ao público, ninguém ouvia uma fita em sofrimento.

Ouvia uma música.

Uma música estranha, grandiosa, difícil de classificar e impossível de confundir com outra.

Ouvia-se o piano de Mercury, a guitarra de May, a bateria de Taylor e aquela sucessão de vozes que parecia maior do que as pessoas que a tinham gravado.

Nada na gravação revela imediatamente o risco que existiu no estúdio.

E talvez seja isso que torna esta história tão interessante.

O ouvinte recebe apenas o resultado final.

Não ouve as sucessivas gerações da fita.

Não vê o óxido a desaparecer.

Não vê a equipa a colocar o suporte contra a luz para perceber até onde tinha chegado.

Não vê o momento em que uma das gravações mais importantes dos Queen podia simplesmente ter perdido parte daquilo que já tinha sido criado.

O que ficou registado é a música.

O perigo ficou escondido no suporte.

Ficha do Lado B

Artista: Queen
Canção: Bohemian Rhapsody
Álbum: A Night at the Opera
Ano: 1975
Compositor: Freddie Mercury
Produção: Queen e Roy Thomas Baker
O detalhe: as sucessivas sobregravações levaram a fita magnética ao limite físico.

Vale a pena ouvir

Vale a pena ouvir Bohemian Rhapsody outra vez, mas desta vez com atenção ao que acontece por baixo da melodia.

Escuta as vozes.

Repara na forma como entram e saem.

Ouve a dimensão da secção operática e pensa que aquilo foi construído sem computadores, sem edição digital e sem a possibilidade de simplesmente duplicar uma sessão antes de experimentar novamente.

É uma gravação que hoje parece enorme.

Mas foi construída com recursos que, comparados com os actuais, eram pequenos.

Talvez seja essa a verdadeira curiosidade escondida na canção.

 

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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