Um barco que não quer navegar sozinho. Uma voz que parece trazer consigo uma memória antiga. E uma electrónica que não está ali para decorar a tradição, mas para a empurrar para outro lugar. É neste espaço de tensão que os Bandua constroem o segundo capítulo da sua história.
BANDUA II chega a 2 de outubro e encontra Bernardo D’Addario e Edgar Valente menos interessados em repetir a fórmula que lhes deu identidade no primeiro disco e mais disponíveis para descobrir o que acontece quando essa identidade começa a abrir portas.
A dupla parte novamente de matéria portuguesa, mas o território já não é o mesmo. A Beira Baixa continua presente como raiz, mas o novo disco olha para uma ideia mais ampla de Portugal, feita de deslocações, encontros, influências e contradições. A electrónica continua a ser uma ferramenta central, só que agora o horizonte parece maior.
Da memória para o movimento
O primeiro Bandua trabalhava muito a sensação de território. O segundo não abandona essa relação, mas parece querer perceber o que acontece quando esse território deixa de ser tratado como um lugar fechado.
É uma diferença importante. A tradição pode ser transformada numa peça de museu ou pode continuar a mexer-se. Os Bandua escolhem a segunda hipótese.
A voz de Edgar Valente mantém uma presença profundamente ligada à canção portuguesa, enquanto a produção de Bernardo D’Addario cria o espaço onde essa memória pode respirar de outra maneira. O resultado situa-se entre instrumentos orgânicos e electrónica, entre o reconhecimento imediato de determinadas formas musicais e uma vontade evidente de as deslocar. A própria apresentação do álbum fala de uma passagem da Beira Baixa e do downtempo para outros territórios e outros caminhos.
Não é uma ruptura. É uma transumância.
“Barquinho” como chave para ouvir o disco
“Barquinho” talvez seja a imagem mais clara para perceber esta mudança.
A canção parte de uma embarcação pequena, mas recusa a ideia de viagem solitária. O barco transforma-se em abrigo, em ninho, em espaço de encontro. Musicalmente, o tema abre a linguagem dos Bandua para uma dimensão mais luminosa e dançável, mantendo a relação com as tradições musicais portuguesas.
Essa ideia interessa porque não fica apenas na letra. Ela parece contaminar o próprio conceito do álbum.
Em BANDUA II, diferentes tempos e geografias podem coexistir sem que uma tenha necessariamente de apagar a outra. O passado não aparece como uma fotografia imóvel. Serve antes como matéria para construir música no presente.
E essa é uma das questões mais interessantes colocadas pelo disco: quanto daquilo a que chamamos identidade permanece intacto quando começa a encontrar outras identidades?
Portugal não cabe apenas num lugar
O alinhamento de BANDUA II ajuda a perceber essa deslocação. “E Assim”, “Cigarrinha”, “Gira de S. Miguel”, “Senhora dos Remédios”, “Flor do Rosário”, “Armeiro”, “Senhora d’Azenha II” e “Barquinho” formam um percurso que mantém referências reconhecíveis, mas que não parece interessado em deixá-las sossegadas.
A presença de “Gira de S. Miguel” merece atenção especial para quem acompanha a música portuguesa a partir dos Açores. Não é apenas o título de uma faixa dentro de um alinhamento. É mais uma indicação de que a ideia de território que os Bandua estão a trabalhar não termina nas fronteiras de uma região ou numa imagem única do país.
O projecto continua a olhar para a memória portuguesa, mas já não parece querer encontrar nela uma resposta definitiva. Pelo contrário, interessa-lhe a circulação. O que chega de fora. O que permanece. O que muda quando duas linguagens se encontram.
É também por isso que BANDUA II pode ser lido como um disco sobre identidade sem ser necessariamente um disco preso à ideia de identidade.
O disco começa antes da escuta
No dia 2 de outubro, às 11h00, os Bandua apresentam BANDUA II numa listening session no novo espaço PARA, na Rua Senhora do Monte, em Lisboa. A sessão contará com a presença da dupla e acontece precisamente no momento em que o álbum chega ao público em formato físico e através do Bandcamp, segundo a informação divulgada para o encontro.
A escolha de uma sessão de escuta para apresentar o disco não é um detalhe menor. BANDUA II parece pedir tempo para que as diferentes camadas possam encontrar o ouvinte. Depois dos avanços “Flor do Rosário”, da reVariação de “O Corpo É Que Paga” e de “Barquinho”, chega finalmente o momento de perceber como essas peças funcionam dentro de um corpo maior.
O álbum terá edição pela Ajabu! Records e a edição física está prevista em CD e vinil. A apresentação ao vivo acontece posteriormente, nos dias 24 e 25 de outubro, na Sala Estúdio Valentim de Barros, num espectáculo construído em torno da ideia de travessia.
No fundo, é essa travessia que parece definir os Bandua neste momento.
Não se trata apenas de levar música de raiz para a electrónica. Trata-se de perceber o que essa raiz ainda pode dizer quando deixa de estar parada.
E talvez seja aí que BANDUA II comece verdadeiramente.
Não no lugar onde a memória termina, mas no ponto exacto em que decide continuar a viajar.
