Domingo, 27 de Setembro de 2026
Radar Nacional

Bandua levam a tradição portuguesa para outro lugar em BANDUA II

Por Jorge Silva Medeiros 27 Set 2026

Um barco que não quer navegar sozinho. Uma voz que parece trazer consigo uma memória antiga. E uma electrónica que não está ali para decorar a tradição, mas para a empurrar para outro lugar. É neste espaço de tensão que os Bandua constroem o segundo capítulo da sua história.

BANDUA II chega a 2 de outubro e encontra Bernardo D’Addario e Edgar Valente menos interessados em repetir a fórmula que lhes deu identidade no primeiro disco e mais disponíveis para descobrir o que acontece quando essa identidade começa a abrir portas.

A dupla parte novamente de matéria portuguesa, mas o território já não é o mesmo. A Beira Baixa continua presente como raiz, mas o novo disco olha para uma ideia mais ampla de Portugal, feita de deslocações, encontros, influências e contradições. A electrónica continua a ser uma ferramenta central, só que agora o horizonte parece maior.

 

 

Da memória para o movimento

O primeiro Bandua trabalhava muito a sensação de território. O segundo não abandona essa relação, mas parece querer perceber o que acontece quando esse território deixa de ser tratado como um lugar fechado.

É uma diferença importante. A tradição pode ser transformada numa peça de museu ou pode continuar a mexer-se. Os Bandua escolhem a segunda hipótese.

A voz de Edgar Valente mantém uma presença profundamente ligada à canção portuguesa, enquanto a produção de Bernardo D’Addario cria o espaço onde essa memória pode respirar de outra maneira. O resultado situa-se entre instrumentos orgânicos e electrónica, entre o reconhecimento imediato de determinadas formas musicais e uma vontade evidente de as deslocar. A própria apresentação do álbum fala de uma passagem da Beira Baixa e do downtempo para outros territórios e outros caminhos.

Não é uma ruptura. É uma transumância.

“Barquinho” como chave para ouvir o disco

“Barquinho” talvez seja a imagem mais clara para perceber esta mudança.

A canção parte de uma embarcação pequena, mas recusa a ideia de viagem solitária. O barco transforma-se em abrigo, em ninho, em espaço de encontro. Musicalmente, o tema abre a linguagem dos Bandua para uma dimensão mais luminosa e dançável, mantendo a relação com as tradições musicais portuguesas.

Essa ideia interessa porque não fica apenas na letra. Ela parece contaminar o próprio conceito do álbum.

Em BANDUA II, diferentes tempos e geografias podem coexistir sem que uma tenha necessariamente de apagar a outra. O passado não aparece como uma fotografia imóvel. Serve antes como matéria para construir música no presente.

E essa é uma das questões mais interessantes colocadas pelo disco: quanto daquilo a que chamamos identidade permanece intacto quando começa a encontrar outras identidades?

Portugal não cabe apenas num lugar

O alinhamento de BANDUA II ajuda a perceber essa deslocação. “E Assim”, “Cigarrinha”, “Gira de S. Miguel”, “Senhora dos Remédios”, “Flor do Rosário”, “Armeiro”, “Senhora d’Azenha II” e “Barquinho” formam um percurso que mantém referências reconhecíveis, mas que não parece interessado em deixá-las sossegadas.

A presença de “Gira de S. Miguel” merece atenção especial para quem acompanha a música portuguesa a partir dos Açores. Não é apenas o título de uma faixa dentro de um alinhamento. É mais uma indicação de que a ideia de território que os Bandua estão a trabalhar não termina nas fronteiras de uma região ou numa imagem única do país.

O projecto continua a olhar para a memória portuguesa, mas já não parece querer encontrar nela uma resposta definitiva. Pelo contrário, interessa-lhe a circulação. O que chega de fora. O que permanece. O que muda quando duas linguagens se encontram.

É também por isso que BANDUA II pode ser lido como um disco sobre identidade sem ser necessariamente um disco preso à ideia de identidade.

O disco começa antes da escuta

No dia 2 de outubro, às 11h00, os Bandua apresentam BANDUA II numa listening session no novo espaço PARA, na Rua Senhora do Monte, em Lisboa. A sessão contará com a presença da dupla e acontece precisamente no momento em que o álbum chega ao público em formato físico e através do Bandcamp, segundo a informação divulgada para o encontro.

A escolha de uma sessão de escuta para apresentar o disco não é um detalhe menor. BANDUA II parece pedir tempo para que as diferentes camadas possam encontrar o ouvinte. Depois dos avanços “Flor do Rosário”, da reVariação de “O Corpo É Que Paga” e de “Barquinho”, chega finalmente o momento de perceber como essas peças funcionam dentro de um corpo maior.

O álbum terá edição pela Ajabu! Records e a edição física está prevista em CD e vinil. A apresentação ao vivo acontece posteriormente, nos dias 24 e 25 de outubro, na Sala Estúdio Valentim de Barros, num espectáculo construído em torno da ideia de travessia.

No fundo, é essa travessia que parece definir os Bandua neste momento.

Não se trata apenas de levar música de raiz para a electrónica. Trata-se de perceber o que essa raiz ainda pode dizer quando deixa de estar parada.

E talvez seja aí que BANDUA II comece verdadeiramente.

Não no lugar onde a memória termina, mas no ponto exacto em que decide continuar a viajar.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

Newsletter Semanal

RECEBE A
MÚSICA PRIMEIRO.

Curadoria semanal das melhores novidades musicais, entrevistas exclusivas e agenda de festivais — direto na tua caixa de entrada.

Subscreve gratuitamente

Ao subscrever aceitas os nossos Termos e Condições e Política de Privacidade. Podes cancelar em qualquer momento.