Sexta-feira, 21 de Agosto de 2026
Editorial

Brandon Flowers deixa os The Killers por momentos e regressa às raízes em THRASHER

Por Jorge Silva Medeiros 21 Ago 2026

Brandon Flowers passou boa parte da carreira a escrever sobre desertos, pequenas cidades, grandes sonhos e personagens que parecem querer escapar ao lugar onde nasceram. Com os The Killers, essa América tornou-se uma espécie de cenário permanente. Em THRASHER, o seu terceiro álbum a solo, Flowers volta ao mesmo território, mas muda o ponto de vista. Em vez de olhar para a América a partir dos grandes palcos, regressa à música que ouviu em criança e às histórias da família que ficaram guardadas durante anos.

Lançado hoje, 21 de agosto, pela Island Records, THRASHER é o primeiro álbum a solo de Flowers em mais de uma década. Foi gravado no histórico RCA Studio A, em Nashville, com produção de Shawn Everett e Jonathan Rado e a participação de músicos como David Rawlings, Bruce Bouton e Charlie McCoy. A escolha do lugar e dos músicos não é decoração: o disco procura deliberadamente uma ligação com a tradição country e western que marcou a infância de Flowers em Nephi, Utah.

Antes dos The Killers existia outra América

Flowers cresceu a ouvir Johnny Cash e Waylon Jennings através do pai, Terry. Essa influência nunca desapareceu completamente, mas ficou durante anos escondida atrás de outras referências. O que THRASHER faz é trazê-la novamente para o centro, não como exercício de nostalgia, mas como uma linguagem capaz de contar histórias que Flowers agora sente necessidade de contar. O próprio músico explicou que o country lhe pareceu a forma certa de preservar essas histórias e de continuar uma tradição familiar.

Isso ajuda a perceber porque o disco não soa simplesmente como “Brandon Flowers a fazer country”. A diferença está na matéria das canções. “Tiger’s Blood” recupera o imaginário de pequenas cidades e sonhos americanos que já aparecia na escrita dos The Killers. “Plans” trabalha essa mesma tradição de forma mais íntima, enquanto “Miss America” assume uma dimensão familiar e narrativa muito mais directa. “An American Dream”, colocado no final, leva essa viagem para um território quase psicadélico, onde memória, espiritualidade e mitologia americana começam a misturar-se.

Existe, portanto, uma continuidade escondida. Flowers não está a descobrir uma nova América. Está a voltar à primeira.

Nashville muda o peso das canções

A gravação no RCA Studio A é uma das decisões mais importantes de THRASHER. O estúdio carrega uma história própria, mas Flowers não tenta transformá-la num monumento. Trabalha com músicos que conhecem profundamente aquela linguagem e deixa que guitarra, pedal steel, harmónica, metais e arranjos tradicionais alterem o espaço das canções. David Rawlings, Bruce Bouton e Charlie McCoy dão ao disco uma textura que dificilmente poderia ser obtida apenas através de uma mudança de produção.

“Does It Ever Cross Your Mind?” abre o álbum com uma elegância country que contrasta com a dimensão mais expansiva associada aos The Killers. “One of Us” aproxima-se do honky-tonk, enquanto “Tiger’s Blood” deixa entrar uma energia de country-rock que lembra a tradição de artistas como Bruce Springsteen. “Paradise”, por sua vez, liga a narrativa ao imaginário de Las Vegas, mostrando que Flowers não abandonou completamente o mundo que o tornou conhecido.

É precisamente aí que THRASHER ganha interesse. Flowers muda os instrumentos, muda a escala e muda a textura, mas não abandona a sua obsessão por melodias grandes e personagens em trânsito. O country não apaga Brandon Flowers. Obriga-o a encontrar outra maneira de ser Brandon Flowers.

 

 

Quando a ambição também pesa

O disco não é perfeito, e é importante dizê-lo. A vontade de contar grandes histórias continua a ser uma das forças de Flowers, mas também pode ser uma limitação. Quando encontra detalhes concretos, como em “Plans” ou “Miss America”, a escrita ganha vida. Quando tenta carregar determinadas canções com demasiada importância, a teatralidade aproxima-se novamente daquele excesso que muitas vezes acompanha a sua música.

“Angel” é o exemplo mais evidente dessa dificuldade. A canção procura construir uma narrativa social e familiar ambiciosa, mas algumas das imagens utilizadas tornam-se menos convincentes do que a intenção que lhes está por trás. É um daqueles momentos em que Flowers parece querer dizer mais do que a própria canção consegue suportar.

Ainda assim, THRASHER é mais interessante precisamente porque não tenta ser impecável. O álbum tem carácter. Tem músicos excelentes. Tem uma linguagem própria e, sobretudo, uma razão para existir que vai além da necessidade de lançar outro disco a solo.

Flowers escreveu 23 canções durante um período de apenas três semanas e escolheu dez para este álbum. As restantes deverão alimentar um futuro projecto centrado no amor. Essa rapidez ajuda a explicar a sensação de descoberta que atravessa THRASHER: parece menos um projecto calculado durante anos e mais o resultado de um período em que Flowers encontrou uma porta aberta e decidiu atravessá-la.

Um regresso que não é uma fuga

O mais fácil seria apresentar THRASHER como uma ruptura com os The Killers. Não é.

Flowers continua a escrever sobre a América, sobre pessoas que querem partir, sobre fé, família, desejo e a distância entre aquilo que imaginamos para a nossa vida e aquilo que realmente acontece. O que mudou foi a música que escolheu para contar essas histórias.

Isso faz de THRASHER um disco mais revelador do que parece à primeira vista. A questão não é saber se Brandon Flowers consegue fazer country. Consegue. A questão é perceber o que acontece quando o vocalista de uma das maiores bandas de rock de estádio das últimas duas décadas volta à música que existia antes da fama.

A resposta está nas dez canções do álbum. Nem todas chegam ao mesmo lugar. Algumas carregam demasiado peso. Outras encontram uma simplicidade rara na carreira de Flowers. Mas, juntas, revelam um artista menos interessado em fugir do passado do que em perceber finalmente o que o passado ainda tem para lhe dizer.

E talvez seja essa a verdadeira surpresa de THRASHER: o regresso às raízes não torna Brandon Flowers mais pequeno. Torna mais claro de onde veio a dimensão que sempre tentou colocar nas suas canções.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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