Estrada da Solidão» nasceu de uma viagem interior. Agora, os Bulcânicos levam parte desse caminho para outro lugar. As canções que começaram por explorar o isolamento, a observação e um universo profundamente ligado às ilhas ganharam uma nova vida em palco, transformadas pela energia da atual formação de cinco músicos e pelo encontro com o público.
A banda da ilha Terceira recuperou recentemente «Vaivém Estelar» e «Folhas de Outono» em versões ao vivo, antecipando «Estrada da Multidão», o álbum que deverá reunir esta nova forma de olhar para as canções do primeiro disco. Pelo caminho, os Bulcânicos também continuam a preparar o segundo álbum de originais, previsto para 2027.
Nesta entrevista ao Música Total, a banda fala sobre a identidade construída entre pop, rock e folk, a influência da insularidade na escrita, a transformação das canções quando passam do estúdio para o palco e as perguntas que continuam a procurar resposta através da música.
Para começarmos, apresentem-nos os Bulcânicos. Quem são os cinco músicos que fazem parte da banda e o que trouxe cada um deles para a identidade do projeto?
Os cinco elementos que fazem parte dos Bulcânicos neste momento são Henrique Bulcão, na voz, Vítor Hugo Costa, na guitarra acústica e guitarra ritmo, Dário Ferreira, na guitarra solo, Bruno Ferreira, na bateria, e Antero Ferreira, no baixo.
Cada elemento trouxe um pouco da sua identidade ao projeto, pois procuramos sempre que cada um, dentro das suas valências, acrescente o seu cunho criativo aos arranjos das músicas.
Henrique Bulcão, para além de vocalista, tem sido também letrista e compositor na grande maioria das canções. Mas, nesta nova vida como quinteto, temos tido cada vez mais contributos de todos os músicos para a composição, o que, a nosso ver, é precisamente aquilo que se pretende num coletivo criativo.
Em suma, cada elemento dos Bulcânicos é fundamental, tanto no seu instrumento como na sua criação. É esse coletivo, na sua liberdade de composição e experiência, que acaba por contribuir para a identidade atual da banda.
Os Bulcânicos nasceram na ilha Terceira. Até que ponto viver e fazer música numa ilha influencia aquilo que escrevem, compõem e imaginam para a banda?
Não há dúvida de que viver e fazer música numa ilha influencia a composição e a escrita da banda, pois a insularidade que nos rodeia faz parte constante das nossas vidas. Um escritor ou compositor é, antes de mais, um observador e, num local em que os estímulos são infindáveis, isso acaba por contribuir para a criação.
Por exemplo, no nosso primeiro álbum, «Estrada da Solidão», muito do seu imaginário foi construído tendo a Ilha do Pico como pano de fundo.
Em algumas das nossas novas composições, o mar, a natureza e figuras, mesmo que anónimas, da nossa terra aparecem naquilo que vão conhecer em breve. Por isso, sem dúvida, as ilhas, enquanto casa criativa, acabam sempre por influenciar a escrita e a sonoridade da banda.
A vossa música cruza pop, rock e folk. Essa mistura nasceu de forma natural ou foi algo que foram procurando construir conscientemente ao longo do tempo?
Essa mistura de estilos musicais foi surgindo ao longo do tempo, com a entrada dos elementos que atualmente constituem os Bulcânicos.
No primeiro álbum, «Estrada da Solidão», gravado em plena pandemia, éramos ainda um trio, com Vítor Moreira na bateria e, obviamente, a sonoridade era um pouco diferente da formação atual, na qual o rock acabou também por ganhar uma presença muito forte.
Mas uma coisa que nos agrada enquanto coletivo é procurarmos sempre, de acordo com cada canção, introduzir elementos que consideramos interessantes para aquela composição em concreto, com total liberdade criativa. Isso deixa espaço para a introdução de diferentes estilos musicais, que fazem parte dessa descoberta e do nosso, digamos, léxico musical.
Em suma, as composições misturam esses estilos de forma natural e de acordo com a natureza específica de cada canção.
«Estrada da Solidão», o vosso álbum de estreia, foi pensado como uma viagem interior. Quando começaram a trabalhar no disco, já existia essa ideia de contar uma história ou ela foi surgindo à medida que as canções apareceram?
Essa viagem conceptual presente no álbum foi surgindo à medida que o conjunto de canções selecionadas começou a ser idealizado.
É verdade que algumas das canções foram criadas em momentos cronológicos muito diferentes, mas, enquanto coletivo, reparámos que todas falavam uma linguagem comum, que respondia perfeitamente à estrada que queríamos percorrer.
Resumidamente, começámos a trabalhar em composições antigas e outras mais recentes e percebemos que todas tinham, de facto, essa ligação e uma história comum. Foi daí que acabou por nascer «Estrada da Solidão» enquanto obra.
O disco parte de uma ideia de isolamento e chega a «Terra Molhada», uma canção associada a um sentido mais coletivo. Essa viagem tem alguma relação direta com experiências pessoais ou foi sobretudo uma construção artística?
É uma pergunta interessante e poderei dizer que é um misto dos dois.
As canções que compõem esse álbum são, de facto, baseadas numa construção pessoal do eu poético, mas as composições e os arranjos feitos pela banda acabaram também por conduzir a uma construção artística que complementou essa experiência mais pessoal de composição.
São aquelas coisas que, por vezes, acontecem quando temos a sorte de encontrar músicos talentosos no nosso caminho, que entendem muito bem o conceito que o letrista ou compositor tinha em mente e ajudam a elevá-lo a outro nível.
E sim, o alinhamento das canções não é aleatório. Enquanto nas primeiras encontramos músicas com um certo cariz introspetivo, no fim da viagem surge o encontro com «Terra Molhada» e com o coletivo que nos rodeia.
«Terra Molhada» acabou por levar a música dos Bulcânicos a playlists editoriais do Spotify e a novos espaços de divulgação. Sentiram que alguma coisa mudou para a banda depois desse momento?
Sentimos apenas que trabalhar e divertirmo-nos com a música que criamos é o essencial e que, depois disso, tudo é possível.
Imaginar que um álbum feito no estúdio do Raul Cardoso, em Angra do Heroísmo, totalmente independente e sem qualquer tipo de apoio, conseguiu integrar playlists editoriais do Spotify só nos fez perceber que o caminho é o correto. Motiva-nos a continuar a trabalhar ainda mais para chegar ao maior número possível de ouvidos.
Esse é, no fundo, o nosso propósito enquanto banda.
Tocar quem nos ouve.
Agora recuperaram «Vaivém Estelar» e «Folhas de Outono», originalmente editadas em 2023, em versões ao vivo. Porque escolheram precisamente estas duas canções para este lançamento?
Ao longo deste ano, temos vindo a lançar singles duplos com versões ao vivo de canções do nosso primeiro álbum, para mostrar ao nosso público como estas respiram em palco e como, inevitavelmente, se alteraram em termos de arranjos com a formação atual.
No final do ano, esses lançamentos darão lugar ao nosso álbum ao vivo, «Estrada da Multidão», no qual celebramos estas canções com os nossos ouvintes no seu estado mais puro, ou seja, no palco.
Escolhemos, neste caso, «Vaivém Estelar» e «Folhas de Outono» porque achamos que ambas têm linguagens que se complementam.
O que é que estas versões ao vivo mostram sobre os Bulcânicos que talvez não estivesse tão presente nas gravações anteriores?
Estas versões ao vivo têm elementos que não podiam estar presentes no álbum de estúdio, pois foram gravadas já pela atual formação de quinteto e incluem, por exemplo, solos de guitarra que não existiam anteriormente.
Para além disso, quisemos mostrar a energia atual dos Bulcânicos e a forma como estas canções estão a ser tocadas pela banda em palco.
É, digamos, uma nova vida para estas canções, num outro registo, dando assim a possibilidade a quem nos ouve de escutar as músicas numa versão com a qual talvez mais se identifique.
Quando uma canção passa do estúdio para o palco, existe espaço para ela mudar. Há alguma parte destas duas músicas que hoje tocam ou interpretam de forma diferente daquilo que tinham imaginado quando foram gravadas?
Sim, sem dúvida que existem adições para o formato ao vivo que não estavam concebidas nas versões de estúdio. Entendemos que as canções são organismos vivos e que podem ter várias roupagens e diferentes evoluções ao longo do tempo.
No caso de «Vaivém Estelar» e «Folhas de Outono», isso nota-se particularmente devido à natureza das próprias canções, que, obviamente, no formato ao vivo ganham ainda mais força com essa energia de palco, que julgamos ser visível nas versões que acabámos de lançar.
Estão a preparar o segundo álbum de originais, previsto para 2027. Depois de «Estrada da Solidão», sentiram necessidade de começar um novo capítulo ou ainda existem ideias do primeiro disco que continuam por explorar?
Ao longo deste período foram surgindo novas composições e, por isso, o segundo álbum será diferente de «Estrada da Solidão».
Respondendo diretamente à questão, podemos dizer que sim, será um novo capítulo, com sonoridades diferentes, que refletem a formação atual dos Bulcânicos. Nessa medida, será um álbum com outro tipo de ideias e de vibração.
Sem revelar demasiado, o que podem dizer sobre a música nova? O próximo álbum vai aproximar-se do universo de «Estrada da Solidão» ou esperam surpreender quem já conhece os Bulcânicos?
Existem sempre algumas semelhanças no nosso universo musical, principalmente no que diz respeito ao peso das letras e ao cariz conceptual que marcou muito o nosso primeiro trabalho. Será um álbum diferente em alguns aspetos, mas que mantém a nossa identidade enquanto coletivo.
Podemos dizer que é um álbum que tem sido trabalhado com afinco ao longo dos últimos três anos, desde o nosso último lançamento, e que trará um conjunto de canções totalmente inéditas para quem nos acompanha.
Depois de tudo o que já construíram até agora, qual é a pergunta que ainda querem responder através da música dos Bulcânicos?
Existem ainda muitas coisas a que queremos responder, pois, na música como na vida, estamos em constante evolução e aprendizagem.
O que para nós seria trágico era a nossa música deixar de ter questões às quais responder, pois isso significaria estagnação e, pior ainda, alienação.
Num mundo tão desafiador como aquele que estamos a enfrentar, as perguntas a que queremos responder prendem-se com os caminhos que permanentemente queremos apresentar ao nosso público através das nossas inquietações quotidianas, que inevitavelmente se refletem naquilo que somos e naquilo que criamos.
Ler: Bulcânicos regressam a «Vaivém Estelar»
