Os Cara de Espelho chegam ao fim do verão com duas datas que colocam “B”, o segundo álbum da banda, em contextos muito diferentes. A 29 de agosto, o grupo actua no Largo da Igreja de Santo Isidro de Pegões, no Montijo, num concerto ao ar livre e de entrada gratuita. Uma semana depois, a 5 de setembro, regressa à Quinta da Atalaia para tocar na Festa do Avante!, no Auditório 1.º de Maio, às 21h15.
Entre uma praça e um dos grandes encontros culturais do país, a banda leva consigo um repertório que já não precisa de apresentação. “B” aprofundou a linguagem dos Cara de Espelho e deixou mais claro aquilo que distingue o grupo: canções construídas a partir da música portuguesa, mas sem qualquer vontade de ficar presa a uma ideia confortável de tradição.
“B” é mais do que uma continuação
O segundo álbum, editado em janeiro de 2026, parte do caminho aberto pelo disco homónimo de 2024. A diferença está na confiança. Os Cara de Espelho já conhecem melhor os espaços onde querem mexer e “B” permite-lhes explorar essas zonas com mais liberdade.
A música tradicional continua presente, mas aparece cruzada com guitarras, electrónica, percussão e arranjos que deixam espaço para a estranheza. As canções também não escondem a componente crítica. Existe ironia, humor e comentário social, mas sem transformar cada tema numa declaração de intenções.
É aí que “B” ganha interesse. O grupo não tenta modernizar uma tradição como se estivesse a actualizar um objecto antigo. Usa-a como matéria-prima para falar do presente.
No Montijo, a entrada é livre
A primeira paragem acontece a 29 de agosto, às 22h00, no Largo da Igreja de Santo Isidro de Pegões. O concerto integra o ciclo “Ao Lado”, com programação da Mascarenhas-Martins, e tem entrada gratuita.
O contexto é particularmente interessante para uma banda como os Cara de Espelho. Num espaço exterior e fora do circuito habitual das grandes salas, as canções encontram outra relação com o público. O concerto torna-se menos uma apresentação formal e mais um encontro.
Antes dos Cara de Espelho, a noite conta ainda com a actuação de Sílvio Rosado. A programação começa às 21h00 e prolonga-se depois com o colectivo formado por Carlos Guerreiro, Luís J. Martins, Maria Antónia Mendes, Nuno Prata, Pedro da Silva Martins e Sérgio Nascimento.
Uma semana depois, a escala muda
A 5 de setembro, os Cara de Espelho atravessam para outro cenário. O concerto na Festa do Avante! acontece às 21h15, no Auditório 1.º de Maio, na Quinta da Atalaia.
É uma actuação com outro enquadramento e outro tipo de público. Depois de uma sequência de concertos que levou o grupo por diferentes festivais e palcos nacionais, a banda chega à Atalaia com um segundo álbum já integrado no seu percurso.
O contraste com Pegões interessa precisamente por isso. As mesmas canções podem respirar de maneira diferente quando mudam o espaço, a dimensão do palco e a relação com quem está a ouvir. Para os Cara de Espelho, esta passagem entre contextos faz parte da própria natureza do projecto.
A banda já deixou de ser uma promessa
Quando os Cara de Espelho apareceram em 2024, havia naturalmente uma curiosidade em torno de uma formação que reunia músicos com percursos ligados a nomes como Gaiteiros de Lisboa, Deolinda, A Naifa, Ornatos Violeta e Sérgio Godinho.
Depois vieram os concertos no FNAC Live, Festival MED, FMM Sines, Bons Sons e MEO Kalorama, duas nomeações para os Iberian Festival Awards, o prémio de Melhor Banda nos Futurawards e o Prémio PLAY para Melhor Reinterpretação da Música Tradicional.
Mas o percurso deixou de ser a principal notícia. O segundo álbum mudou esse ponto de equilíbrio. Com “B”, os Cara de Espelho passaram a ser avaliados menos pelo potencial e mais pelo que conseguem fazer com a linguagem que escolheram.
Montijo e Festa do Avante! chegam, por isso, num momento interessante. São duas noites muito diferentes para uma banda que já encontrou o seu território e que agora pode concentrar-se numa coisa mais difícil: continuar a mexer nele.
