Segunda-feira, 12 de Outubro de 2026
Entrevista

DELÍRIA: a viagem de descoberta de um universo musical próprio

Por Mafalda Matos 12 Out 2026
Entre a tradição portuguesa, a eletrónica e as emoções que nem sempre encontram lugar nas palavras, DELÍRIA marca o início de um novo capítulo na vida artística da cantora ANTERA.
Neste primeiro álbum a solo, a música nasce de um lugar íntimo, feito de memórias, fragilidades e encontros que deixam marcas. O adufe, as melodias de inspiração tradicional e as paisagens eletrónicas cruzam-se numa identidade sonora que procura escapar a classificações fáceis. São oito canções que atravessam a perda, o medo, a rutura e a necessidade de olhar a realidade a partir de outro lugar.
Nesta conversa com o MusicaTotal.net, a artista fala sobre o processo de criação de DELÍRIA, a liberdade conquistada ao escrever sozinha, a importância das raízes portuguesas e a relação entre música e imagem. Pelo caminho, revela histórias que deram origem a algumas das canções, incluindo «COMO UM BIG BANG», nascida de um encontro inesperado, e «RAINHA», uma das faixas mais vulneráveis do disco.
A 6 de novembro, DELÍRIA chega ao palco do Festival Pedra Dura. Até lá, fica o retrato de uma artista que transforma experiências pessoais em canções e encontra na música uma forma de compreender aquilo que, por vezes, escapa à própria compreensão.
DELÍRIA marca o início do teu percurso a solo. Em que momento percebeste que tinhas um universo musical próprio que precisava de existir para além de outros projetos ou experiências anteriores?
A intuição e a vontade de um artista começam por se desenhar no imaginário e naquilo que acredita ser possível. A experiência que ganhei noutros projetos musicais deu-me espaço para me compreender melhor enquanto artista e encontrar o meu lugar. Até que chega um momento em que sentes a necessidade de assumir o controlo total do processo e conquistar liberdade para criar de forma verdadeiramente autêntica. Foi esse lugar que encontrei quando comecei a escrever sozinha.
O título do álbum remete para um lugar entre a lucidez e o sonho, como referes na apresentação do disco. Que experiência ou pensamento esteve na origem deste conceito e quando percebeste que seria o centro das oito canções?
A ideia de DELÍRIA surgiu ao reconhecer um fio condutor entre as oito canções: a vontade de sair de mim própria e olhar a realidade de outro lugar. Seja através da tentativa de comunicar com o além, de observar o mundo como quem o vê de cima ou de atravessar emoções tão intensas que quase se tornam delirantes. Foram essas emoções que desencadearam mudanças em mim e criaram a necessidade de escrever canções. Ao mesmo tempo, sinto que vivemos numa espécie de delírio coletivo, tanto pelos tempos que atravessamos como pela nossa condição humana, e o disco acaba também por refletir essa perceção. DELÍRIA nasce, assim, desse lugar ambíguo.
O adufe e o cante português cruzam-se com sintetizadores, ritmos eletrónicos e ambientes próximos do dream pop. Como nasceu esta combinação e que procuravas descobrir ao colocar estas linguagens musicais em diálogo?
Esta combinação nasce naturalmente dos meus interesses musicais e do meu próprio método de composição. Gosto de começar pelas letras e melodias com o adufe, porque me liberta do condicionamento harmónico e me leva a um estado de transe, entre a repetição da batida e a voz. É um lugar quase mágico, de onde surgem ideias e melodias que acabam por trazer consigo referências à música tradicional portuguesa e por orientar todo o processo criativo.
Mais tarde, em estúdio, trabalho com produtores no desenvolvimento da dimensão sonora das canções, explorando texturas e atmosferas através da música eletrónica. O objetivo é experimentar até encontrar a sonoridade que melhor traduz a energia essencial que cada canção já traz desde a sua origem.
A tradição musical portuguesa está profundamente ligada à memória coletiva e às raízes de uma comunidade. No teu trabalho, essas referências são deslocadas do seu contexto habitual. Como encontras o equilíbrio entre respeitar essa herança e dar-lhe uma interpretação pessoal?
O respeito pela herança é uma questão pertinente, mas, embora essa influência seja audível nas minhas melodias, não recorro diretamente a letras ou melodias já existentes. Trabalho no campo da minha própria criação, que é livre e está em constante mutação.
Acredito que esta aproximação contemporânea à tradição deve ser valorizada, porque permite inovar de forma enraizada. Num mundo cada vez mais alienado, é natural que muitos jovens procurem nas tradições um sentido de pertença, comunidade e ligação à terra. Ao mesmo tempo, um artista é, por natureza, alguém que transforma e questiona. A mistura de linguagens e a criação de novos géneros fazem parte desse processo e são inevitáveis.
A perda, a rutura, o medo e a violência fazem parte do universo conceptual de DELÍRIA. De que forma estas experiências influenciaram a escrita das canções e até que ponto a música te permitiu compreender ou transformar aquilo que viveste?
Para mim, escrever uma canção é dar espaço a algo que precisa de ser transformado. É uma forma de ficar mais tempo com aquilo que sinto, de o processar e de olhar para uma emoção de diferentes perspetivas. A música permite-me expressar coisas que, muitas vezes, são maiores do que aquilo que as palavras conseguem dizer. Terminar uma canção pode significar que algo mudou dentro de mim, mas também pode ser uma forma de guardar algo que não quero esquecer, um antídoto para a minha própria falta de memória.
O álbum contou com a participação de Metamito, Sickonce e Diogo Lima na produção criativa. Como se desenvolveu esse trabalho em conjunto e houve alguma ideia inicial que tenha mudado completamente durante o processo de criação?
Cada canção pediu um processo diferente, mas tive a sorte de trabalhar com excelentes produtores e músicos, que respeitaram e acompanharam a minha visão até ao fim. É algo pelo qual lhes estou profundamente agradecida.
Quando trabalhas uma canção, o que aparece primeiro: uma palavra, uma melodia, um ritmo, uma imagem ou uma sonoridade? No caso de DELÍRIA, houve alguma faixa que tenha nascido de uma forma particularmente inesperada?
Ultimamente, tenho procurado colocar-me num estado próximo do transe, seja através do ritmo repetitivo do adufe, do piano ou do harmónio. É uma disposição muito específica, em que me abro para receber algo de um lugar misterioso dentro de mim. Às vezes, surgem melodias que começam a ganhar palavras; outras vezes, são as palavras que trazem consigo uma energia própria. E há ainda momentos em que é uma sensação muito forte, ou uma história que me toca, que me faz sentir que aquilo merece tornar-se canção.
Sinto que DELÍRIA é uma coleção de cartas dirigidas a pessoas que, de alguma forma, acabam também por falar de mim. «COMO UM BIG BANG», por exemplo, nasceu de um encontro com um japonês que sofria de depressão. A canção tem letra na língua dele e ofereci-lha para que se sentisse cuidado e visto, mesmo que eu nunca mais voltasse a encontrá-lo.
Cada faixa ganha também um universo visual, desenvolvido com João Catarino e Daniel Matos. Que importância têm a imagem, o corpo e o movimento na forma como pensas a tua música e o que procuras acrescentar à experiência de quem escuta o álbum?
No processo de produção musical, parto de imagens e abstrações visuais para construir paisagens sonoras, como se pintasse com som, por vezes de forma cinematográfica. Penso que, por vir da direção teatral, que trabalha com imagens em movimento, trago esse universo para a minha música e, por isso, gosto de criar posteriormente um mundo que também se possa ver.
Com o João Catarino, quisemos inundar as imagens de simbologia escondida nas canções, trazendo para primeiro plano o lado mais surrealista e performativo do mundo de DELÍRIA. É algo que acrescenta outra dimensão às músicas e que também revela outras partes de mim enquanto artista.
A tua música aproxima-se de diferentes territórios, da tradição portuguesa à eletrónica e à experimentação. Existem artistas, discos ou experiências musicais que tenham sido especialmente importantes na construção da tua identidade sonora?
Trago o gosto pela música eletrónica por ter vivido vários anos em Berlim e pela música tradicional portuguesa por ter passado muitos anos em coros de música tradicional, com os quais comecei a cantar essas canções. O gosto pela sonoridade foi algo que influenciou, de forma natural, a escrita das letras e melodias de algumas canções. Penso que a vertente de canção de autor é influenciada pelo meu lado francês. Sou luso-francesa, algo que influencia o meu gosto pela mistura e pelo encontro da diferença.
Sendo este o teu primeiro álbum a solo, existe uma exposição pessoal diferente daquela que sentias em trabalhos anteriores? O que foi mais difícil revelar em DELÍRIA e houve alguma canção que te tenha obrigado a enfrentar algo que preferias manter em silêncio?
Sim, DELÍRIA sou eu, pura e dura, na minha verdade e nas minhas fragilidades, algo que não tento esconder porque penso que essa transparência é uma parte importante a preservar. Todas as canções do disco revelam coisas que normalmente ficariam apenas comigo, mas talvez «RAINHA» seja a mais vulnerável, no sentido de falar da minha relação com o meu pai.
A 6 de novembro, apresentas DELÍRIA ao vivo no Festival Pedra Dura. Como estás a preparar a passagem destas canções do estúdio para o palco e o que gostarias que o público sentisse ou descobrisse nessa primeira apresentação?
DELÍRIA vai estrear-se sobre o mar, numa noite em que a luz será rainha. Deixo apenas esta pista e este convite.
Depois deste primeiro capítulo, que portas gostarias que DELÍRIA abrisse no teu percurso? E se alguém terminar a audição do álbum com uma única imagem, sensação ou pergunta na cabeça, qual gostarias que fosse?
Gostava que DELÍRIA abrisse espaço para continuar a criar, explorar novos territórios e encontrar novas parcerias artísticas. E, apesar da travessia intensa que o disco propõe, espero que quem o escute encontre alguma força dentro de si, algo que também fui procurando em mim ao longo destas canções.
Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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