DJ Premier é a última confirmação musical do Festival Iminente 2026. Mas a edição dos dez anos chega a Marvila com uma ambição maior: transformar durante quatro dias uma antiga escola num espaço de música, cinema, artes visuais, conversas e criação com comunidades.
DJ Premier é a última confirmação musical dos dez anos do Iminente. Mas, nesta edição, o festival parece menos preocupado em fechar apenas mais um cartaz do que em testar até onde consegue levar a própria ideia de festival.
Entre 17 e 20 de setembro, a antiga Escola Industrial Afonso Domingues, em Marvila, recebe mais de uma centena de artistas e projetos. Há cinco palcos, mais de 60 atuações musicais, exposições, cinema, conversas, oficinas com comunidades, skate, futebol e gastronomia. O tema escolhido para a edição resume a ambição e também a dúvida: “O que pode um festival?”
DJ Premier atua no sábado, 19 de setembro, e fecha as confirmações musicais de uma edição que celebra dez anos de um festival que nunca ficou inteiramente confortável dentro de uma única linguagem.
DJ Premier fecha um cartaz construído entre diferentes gerações
Metade dos Gang Starr e um dos produtores mais influentes da história do hip-hop, DJ Premier chega ao Iminente com um percurso que atravessa algumas das figuras decisivas do género.
Nas, The Notorious B.I.G., Mos Def e Jay-Z são alguns dos nomes com quem trabalhou ao longo de uma carreira que ajudou a definir o som do hip-hop nas últimas décadas. A sua presença dá peso histórico ao cartaz, mas também estabelece uma ligação natural com uma edição onde o rap português e as diferentes linguagens da música urbana ocupam um lugar central.
O programa reúne ainda regressos e estreias. Original Kappa, também conhecido como Allen Halloween, atravessa diferentes momentos do festival e apresenta NOITE DA LISA, acompanhado por DJ Fumaxa, Landim, Miss Bity, Drunk Master, Jay Cap, Kinous e Kapataz, além de um convidado surpresa que só será revelado na própria noite.
Sam The Kid regressa para apresentar Beats Vol.1: Amor com Orquestra e Orelha Negra, numa atuação particularmente ligada à sua própria história: o espetáculo acontece num campo de futebol com vista para o quarto em Chelas onde nasceu.
Aos regressos juntam-se estreias de Lena d’Água, Ana Lua Caiano, A Garota Não, Expresso Transatlântico e Ustad Fazel Sapand, entre outros.
Uma antiga escola transforma-se no próprio festival
O Iminente não utiliza a antiga Escola Industrial Afonso Domingues apenas como recinto.
As salas de aula, os corredores e os espaços exteriores passam a fazer parte da programação. Obras e intervenções de Vhils, Tamara Alves, ±MAISMENOS±, Wasted Rita, AkaCorleone, Pedrita e vários outros artistas ocupam um edifício cuja história também entra no programa.
Vhils apresenta um retrato de José Saramago, que estudou naquela escola. Pedrita recupera uma peça apresentada na primeira edição do Iminente, enquanto ERROR43, PEDRITA e FURO transformam dez anos de festival num arquivo vivo através de palavras e mensagens deixadas por artistas de edições anteriores.
A memória não aparece, por isso, apenas como celebração. Aparece como matéria de trabalho.
O edifício deixa temporariamente de ser aquilo que foi durante décadas. Durante quatro dias, cada sala pode ser palco, galeria, espaço de encontro ou ponto de partida para outra conversa.
Ao décimo ano, o Iminente entra no cinema
O cinema entra pela primeira vez na programação do Iminente.
São quatro filmes ligados diretamente a pessoas, lugares e movimentos que também fazem parte da história ou do cartaz desta edição.
Entre os destaques está a estreia mundial de Implantação da Rapública #4: Rimar o Hip-Hop, o último episódio da série iniciada pela Antena 3 sobre a compilação Rapública, lançada em 1994 e decisiva para a chegada do rap português ao disco.
O programa inclui ainda Manga d’Terra, de Basil da Cunha, Complô, de João Miller Guerra, e a estreia europeia de Dead City Punx, produzido por Zack de la Rocha, dos Rage Against the Machine.
A entrada do cinema não funciona como um simples acrescento ao programa. Os filmes prolongam algumas das histórias que também se encontram no festival: o hip-hop, os bairros, os artistas, as cidades e as comunidades que existem antes de um palco ser montado.
O que pode um festival e onde estão os seus limites?
Depois de dez anos, seis cidades e mais de seiscentos artistas, o Iminente escolhe fazer uma pergunta que não tem uma resposta simples.
As quatro Conversas Iminente discutem cultura, cidade, língua, gentrificação, vida noturna, espaços devolutos e criação independente. Mas existe um detalhe importante na forma como o próprio festival apresenta o programa: a cultura pode transformar algumas coisas numa cidade, sem que isso signifique confundir intervenção cultural com as respostas que pertencem às políticas públicas.
É talvez aí que a pergunta ganha outra dimensão.
Um festival pode criar encontros, abrir temporariamente espaços que estavam fechados e dar visibilidade a artistas e comunidades. Pode levar pessoas a descobrir uma zona da cidade ou criar relações entre quem dificilmente se encontraria noutro contexto.
Mas quatro dias não resolvem o desaparecimento de espaços culturais, a pressão imobiliária ou as desigualdades que atravessam uma cidade.
O programa BAIRROS aproxima-se dessa fronteira através de um trabalho que não começa quando os portões abrem. As oficinas realizadas ao longo do ano em associações e bairros municipais de Lisboa chegam agora ao festival, levando consigo processos de criação, aprendizagem e colaboração desenvolvidos ao longo de vários meses. Parte das ferramentas criadas nesses projetos pode continuar a ser utilizada depois do fim do evento.
Talvez seja essa a pergunta mais interessante dos dez anos do Iminente. Não apenas o que pode acontecer dentro de um festival, mas o que permanece quando ele termina.
Entre 17 e 20 de setembro, uma antiga escola em Marvila deixa de cumprir a função para que foi construída. Durante quatro dias será ocupada por música, cinema, arte, conversas e pessoas que chegam de lugares diferentes.
Depois, os palcos serão desmontados.
O que ficar não depende apenas do festival.
Festival Iminente 2026
17 a 20 de setembro
Antiga Escola Industrial Afonso Domingues, Marvila, Lisboa
Passe de quatro dias: 60 €
Passe de três dias: 55 €
Passe de fim de semana: 38 €
Bilhete diário: 20 € em venda antecipada / 25 € à porta
