Quarta-feira, 15 de Julho de 2026
Conhecer Melhor

Curar é escolher, Seja na música ou no jornalismo

Por Jorge Silva Medeiros 9 Fev 2026

Há um impulso antigo em acumular. Guardar discos. Guardar ficheiros. Guardar links. Sons. Textos.

 

Como se um dia fossem todos necessários. Como se mais fosse sempre melhor. Não é. Nunca foi. A diferença entre ter coisas e dizer alguma coisa começa num gesto simples e desconfortável. Escolher. E aceitar que escolher dói. Porque implica deixar de fora.

Do colecionador ao curador

O colecionador soma. Conta. Mostra volume. Biblioteca grande. Arquivo pesado. Milhares de faixas. Centenas de textos. É humano. Dá segurança. Mas é um gesto silencioso. Não conta história nenhuma.

O curador trabalha com cortes. Decide. E decide contra. Não para empobrecer. Para criar sentido. Como num museu onde não cabe tudo, alguém tem de escolher o que entra na sala e o que fica na reserva. O valor não está no que se tem. Está na relação entre o que se mostra.

Curadoria como linguagem

Na música isto é óbvio quando se pensa bem. Um DJ não toca tudo. Nunca. Toca o necessário. No momento certo. A pista é o espaço. O set é o discurso. O resto é ruído.

No jornalismo acontece o mesmo. Informar já não chega. Há informação a mais. Comunicados. Opiniões. Cópias de cópias. O jornalista curador filtra. Contextualiza. Liga pontos. Decide o que importa agora e o que pode esperar. Ou desaparecer.

Aqui deixa-se de reagir. Começa-se a pensar.

Arquitetos de emoção e de sentido

Curar música é mexer no corpo dos outros. Criar tensão. Soltar. Voltar a segurar. Cada faixa empurra o estado emocional para um lugar diferente. Nada é neutro.

Curar jornalismo é parecido, mas por dentro. Organizar ideias. Dar sequência. Criar clareza sem simplificar demais. Um texto chama outro. Um tema ganha peso porque não aparece isolado.

O público não vê o trabalho invisível. As pastas. As versões. As horas perdidas. Mas sente. No fluxo de um set que parece inevitável. Numa leitura que não cansa. Que não desperdiça tempo.

A mestria começa na escolha

Ter gosto não chega. Ter informação também não. Sem intenção, tudo soa igual. Sem timing, tudo chega fora de tempo. E quando o ego fala mais alto do que quem escuta, perde-se o contacto. Fica um monólogo. Um set vazio. Um texto que ninguém leva consigo.

A mestria começa quando escolher deixa de ser acumular. Quando omitir deixa de ser falha e passa a ser gesto consciente. Responsável. Ético.

Curar é assumir o tempo do outro.
A atenção do outro.
E aceitar que nem tudo precisa de existir para fazer sentido.

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Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais.