Quarta-feira, 16 de Setembro de 2026
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Em 2000, as Jornadas de Música já queriam mudar o panorama dos concertos nos Açores

Por Mafalda Matos 16 Set 2026

Em abril de 2000, quando a Internet ainda estava longe de transformar a forma como a música era divulgada, um grupo de pessoas nos Açores já discutia o futuro dos concertos, da produção e da própria actividade musical. Criadas por Jorge Silva Medeiros, as Jornadas de Música dos Açores juntaram vozes açorianas e nomes de referência do panorama português, numa iniciativa que procurava quebrar o isolamento entre ilhas e aproximar os Açores do resto do país.

Há documentos que resistem ao tempo porque registam um acontecimento.

E há outros que resistem porque registam uma maneira de pensar.

O programa das II Jornadas de Música dos Açores, realizadas em Ponta Delgada a 15 de abril de 2000, pertence às duas categorias.

Ali estão os nomes, os horários e os temas de uma tarde que queria discutir a música açoriana, mas também tudo aquilo que era necessário para que ela pudesse crescer.

A iniciativa partia de uma preocupação concreta de Jorge Silva Medeiros.

“Já em 2000 havia tentativas de mudar o mundo dos concertos, dos eventos nos Açores.”

Não era apenas uma questão de trazer músicos para um palco.

Era preciso discutir o que estava antes do palco.

E o que acontecia depois dele.

As vozes açorianas que estavam dentro da discussão

Uma das riquezas das Jornadas estava precisamente nas vozes que vinham de dentro do próprio arquipélago.

Tony Pimentel levava para a sala o “Actual Panorama da Música Açoriana”.

Era preciso olhar para aquilo que estava a acontecer nas ilhas, perceber a realidade dos músicos e reconhecer uma produção que muitas vezes permanecia demasiado fechada sobre o próprio território.

Eduardo Reis, ligado à rádio e à organização de eventos, abordava a “Organização e apoios a eventos musicais nos Açores”.

Era uma questão central.

Um concerto não vive apenas da vontade de um músico.

Existem custos, produção, espaços, equipamento, divulgação e apoios.

Manuel Moniz colocava outra questão que, em 2000, começava a ganhar uma importância enorme: “Música e Novas Tecnologias”.

O mundo estava a mudar.

A tecnologia começava a transformar a forma de produzir, gravar e divulgar música.

E os Açores não podiam ficar fora dessa transformação.

Eduardo Botelho, ligado à M.M. Music, abordava “Música e Produção/gravação nos Açores”.

Mais uma vez, a questão era prática.

Como gravar?

Onde produzir?

Que condições existiam?

Como transformar a criação musical em algo que pudesse ser apresentado e divulgado com qualidade?

Estas eram as vozes açorianas de uma discussão que não queria ficar pela teoria.

Eram pessoas que conheciam o terreno.

Trazer outras vozes para dentro dos Açores

Mas Jorge Silva Medeiros percebeu também que era necessário olhar para fora.

Se era importante ouvir quem conhecia a realidade açoriana, também era importante trazer até às ilhas pessoas que estavam ligadas aos principais circuitos da música portuguesa.

A segunda parte das Jornadas juntava Jorge Pires, do Expresso, Luís Montez, da Rádio Comercial, e Kalu, dos Xutos & Pontapés.

Cada um trazia uma perspectiva diferente.

Jorge Pires falava sobre música popular portuguesa, o seu desenvolvimento e o lugar para a crítica.

Luís Montez abordava a formatação de rádio.

Kalu levava para a discussão a experiência de uma carreira na música, através do percurso dos Xutos & Pontapés.

Era uma espécie de ponte.

De um lado, as pessoas que conheciam a realidade açoriana.

Do outro, profissionais ligados ao continente e a estruturas que tinham influência no panorama musical português.

No meio, uma pergunta que continua a ser importante:

Como colocar a música açoriana dentro do mapa nacional?

FOTO de Jorge Silva Medeiros

 

Uma ilha não podia significar isolamento

Os Açores tinham músicos.

Tinham bandas.

Tinham produtores.

Tinham rádios.

Tinham público.

Mas estavam separados por mar.

E essa realidade condicionava a comunicação.

Uma banda de uma ilha podia não conhecer o trabalho de outra.

Um produtor podia desconhecer um grupo que existia noutra parte do arquipélago.

Um organizador podia ter dificuldade em encontrar artistas.

A informação estava dispersa.

Foi também por isso que surgiu o Guia de Música dos Açores.

Um livro que reunia contactos e biografias de bandas e grupos.

Hoje, uma ferramenta destas seria provavelmente uma página na Internet.

Em 2000, era papel.

E era uma ideia com uma função muito concreta: facilitar a comunicação entre quem fazia música nos Açores.

Jorge resume essa realidade de uma forma simples:

“Embora espalhados pelas ilhas, saiu um livro.”

Era uma forma de aproximar o que a geografia separava.

Uma rede musical antes das redes sociais

O Guia pode hoje ser visto como uma espécie de directório musical do arquipélago.

Mas era mais do que isso.

Era uma tentativa de criar uma rede.

Nomes.

Contactos.

Biografias.

Bandas.

Grupos.

Informação.

Tudo reunido num único lugar.

Antes do Facebook.

Antes do Instagram.

Antes do Spotify.

Antes de um artista poder colocar toda a sua informação online em poucos minutos.

Era necessário criar a ligação de outra maneira.

E alguém teve de começar.

“Era preciso mexer no meio.”

As Jornadas criavam o encontro.

O Guia criava a ligação.

O debate que continua actual

A última parte do programa colocava uma questão particularmente significativa: “Música em Portugal e o enquadramento da música Açoriana no todo nacional.”

Não era uma pergunta meramente académica.

Era uma questão de circulação.

Como fazer chegar a música dos Açores ao continente?

Como conseguir que os artistas das ilhas fossem conhecidos?

Como criar mais oportunidades?

Como trazer artistas de fora?

Como profissionalizar os eventos?

Como criar uma actividade musical com continuidade?

Em 2000, estas perguntas eram feitas numa sala, cara a cara.

Hoje, muitas destas conversas acontecem através de plataformas digitais, redes sociais e reuniões online.

Mas a questão de fundo permanece.

Como transformar talento em movimento?

Uma memória que não envelheceu

Passaram 26 anos.

A música mudou.

A tecnologia mudou.

A rádio mudou.

A indústria mudou.

Os concertos mudaram.

Mas aquela folha continua a contar uma história.

Conta a história de um momento em que se procurou juntar as vozes açorianas com algumas das vozes mais importantes do panorama musical português da época.

E mostra também que as Jornadas não ficaram fechadas numa sala.

Houve debate.

Houve contactos.

Houve um livro.

Houve uma tentativa de criar uma rede.

Jorge Silva Medeiros estava no centro desse movimento.

Não esperou que a mudança chegasse aos Açores.

Procurou criar condições para que ela acontecesse dentro dos Açores.

“Já em 2000 havia tentativas de mudar o mundo dos concertos, dos eventos nos Açores.”

Talvez seja essa a frase que melhor resume tudo.

Porque mudar não significava apenas fazer concertos diferentes.

Significava mudar a forma de pensar os concertos.

Perceber que um músico precisa de uma estrutura.

Que uma banda precisa de divulgação.

Que um produtor precisa de condições.

Que os eventos precisam de organização.

Que a música precisa de comunicação.

E que um território musical espalhado por várias ilhas precisa de pontes.

Em 2000, essas pontes começaram a ser construídas.

Uma delas foi uma sala.

Outra foi um livro.

E, no centro das duas, estava uma ideia simples:

aproximar a música dos Açores e dar-lhe mais espaço para respirar.

Hoje, quando olhamos para aquele programa, percebemos que não era apenas uma agenda para uma tarde.

Era um retrato de pessoas que acreditavam que o meio musical açoriano podia ser diferente.

E talvez seja por isso que, 26 anos depois, ainda vale a pena falar das Jornadas.

Porque algumas iniciativas acabam quando termina o evento.

Outras continuam a existir na memória de quem tentou mudar as coisas.

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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