Quinta-feira, 1 de Outubro de 2026
LIVROS

EVIE WOODS REGRESSA À IRLANDA DAS LENDAS COM “O COLECIONADOR DE HISTÓRIAS”

Por Mafalda Matos 1 Out 2026
Um diário escondido, uma árvore carregada de mistério e duas mulheres separadas pelo tempo encontram-se num romance onde memória, folclore e realidade começam a cruzar-se.
Uma árvore, um diário e uma história que atravessa gerações. É a partir destes elementos que Evie Woods constrói “O Colecionador de Histórias”, o novo romance da autora de “A Livraria Perdida”, que chega agora às livrarias portuguesas numa edição da Singular.
A Irlanda volta a ser o território escolhido pela escritora para aproximar o quotidiano do imaginário. Desta vez, a narrativa parte de antigas histórias sobre fadas, tradições locais e acontecimentos que parecem ter ficado enterrados no passado.
Uma velha história começa a ganhar outra forma
No início do século XX, Anna Butler vive numa comunidade rural irlandesa onde as histórias fazem parte da vida diária. Fadas, seres mágicos e antigas crenças passam de geração em geração, misturando-se com as memórias de quem cresceu naquele lugar.
A chegada de Harold, um estudioso norte-americano interessado no folclore irlandês, altera o percurso de Anna. O trabalho de recolha das histórias locais aproxima os dois e leva-os a investigar relatos que parecem esconder mais do que simples lendas.
Entre essas histórias está uma ligada a uma árvore antiga. O que inicialmente parece pertencer ao território da tradição começa a ganhar contornos mais inquietantes.
Um diário encontrado muitos anos depois
A história não fica presa ao passado.
Décadas mais tarde, Sarah Harper, uma artista de Nova Iorque, chega à costa oeste da Irlanda numa tentativa de encontrar distância em relação à sua própria vida. É nesse cenário que encontra o diário de Anna.
O objecto transforma-se numa passagem para outro tempo. À medida que Sarah descobre as palavras deixadas por Anna, começa também a aproximar-se de acontecimentos que pareciam encerrados há muito.
O diário não guarda apenas memórias. Guarda perguntas.
E quanto mais Sarah procura respostas, mais difícil se torna separar aquilo que pertence à imaginação daquilo que pode ter acontecido realmente.
Depois de “A Livraria Perdida”, outra história escondida
O nome Evie Woods ficou particularmente ligado a “A Livraria Perdida”, romance que conquistou leitores em diferentes países e colocou a autora entre os nomes contemporâneos associados à chamada ficção de fantasia literária.
“O Colecionador de Histórias” prolonga esse interesse por lugares, objectos e memórias capazes de abrir portas para outras vidas.
Aqui, a livraria dá lugar a uma árvore. Um espaço onde se guardam livros é substituído por um lugar onde se escondem segredos. E a passagem entre passado e presente acontece através das palavras de uma mulher que viveu muitas décadas antes.
É uma mudança de cenário, mas não necessariamente de obsessão: aquilo que desaparece pode continuar a existir através das histórias de quem se recusa a esquecê-lo.
Quando o passado encontra quem ainda procura respostas
O novo romance de Evie Woods trabalha sobretudo essa relação entre memória e descoberta.
Anna e Sarah vivem em épocas diferentes, mas acabam ligadas por uma história que ultrapassa o tempo. Uma escreve. A outra lê. Entre ambas fica uma série de perguntas que não desaparecem apenas porque passaram décadas.
O folclore irlandês dá ao romance uma atmosfera particular, mas é a relação entre as personagens que sustenta a narrativa. As lendas funcionam como memória colectiva, enquanto o diário permite que uma experiência individual atravesse o tempo.
No centro está uma ideia simples: uma história só desaparece verdadeiramente quando deixa de existir alguém disposto a procurá-la.
“O Colecionador de Histórias” parte precisamente dessa procura. E talvez seja essa a sua maior força: lembrar que, por vezes, o passado não está tão longe quanto pensamos.
Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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