Quarenta anos depois de começar a fazer música em Peixinhos, Gilmar Bolla 8 continua a procurar o que ainda não conhece. Percussionista, compositor e uma das figuras ligadas à formação original de Chico Science & Nação Zumbi, traz a Portugal IA – Inteligência Ancestral, um projeto que olha para o passado sem o transformar numa peça de museu.
O tambor está no centro dessa viagem. Está na memória do Lamento Negro, na cultura popular pernambucana, no Manguebeat e numa forma de fazer música em que tradição e tecnologia não aparecem como opostos. Para Gilmar Bolla 8, a ancestralidade não é uma coisa parada no tempo. É matéria viva, capaz de dialogar com beats eletrónicos, guitarras, samplers e novas linguagens.
Nesta conversa com o MusicaTotal.net, fala dos anos de Peixinhos, da importância do Lamento Negro, da criação de uma nova identidade musical ao lado de Chico Science, das transformações provocadas pelo Manguebeat e das dificuldades de continuar a viver da música numa era dominada pelo streaming.
Fala também de Dynamite Som: O Futuro é Lamento Negro, do reencontro com uma história que ajudou a construir e de Mestre Maureliano, cuja voz ficou registada no filme pouco antes da sua partida.
Aos 57 anos, Gilmar Bolla 8 não olha para quatro décadas de música como um ponto de chegada. Continua a querer experimentar, aprender, tocar e encontrar novos lugares. O menino de Peixinhos que começou a batucar por diversão ainda está lá. E o tambor continua a apontar o caminho.
Está a celebrar 40 anos de carreira e regressa agora a Portugal com IA – Inteligência Ancestral. Quando olha para estas quatro décadas, qual é a primeira imagem ou som que lhe aparece?
Quando penso nesses 40 anos, a minha memória volta ao começo. Às experiências no Lamento Negro, no Daruê Malungo e ao lado do saudoso Chico Science.
Quando gravámos Da Lama ao Caos, eu sabia que tínhamos criado algo novo. Antes, tínhamos apenas uma demo, uma ideia, um sonho que estava a ganhar forma.
Foi durante a construção daquele disco que percebi que a música tinha transformado a minha vida. Foi ali que me reconheci como músico profissional.
Aquele trabalho abriu caminhos, atravessou fronteiras e levou-me ao encontro de grandes críticos e públicos internacionais.
Quando olho para esses 40 anos, lembro-me de onde tudo começou. Das nossas raízes, dos encontros e da certeza de que estávamos a construir algo que marcaria as nossas vidas.
E tudo começou lá atrás, com o Lamento Negro.
O tambor é uma das ideias centrais de IA – Inteligência Ancestral. O que é que o tambor continua a dizer hoje que talvez não consiga ser dito através de outras ferramentas?
O tambor continua a ser muito orgânico. Hoje, está muito mais presente do que no começo, quando tocávamos principalmente nas festas de Carnaval e São João. No São João, era o coco. No Carnaval, o maracatu.
Hoje, aqui no Recife, o tambor está presente em praticamente todos os festejos. É com ele que tudo começa. Na periferia, crescemos próximos dessa sonoridade. Nas festas de candomblé, nas manifestações populares, nas comunidades, as crianças começam a batucar muito cedo.
O tambor é quem nos dá o norte. Enquanto nas classes mais altas existe maior acesso a instrumentos como piano, violoncelo, violão e baixo acústico, para nós, que vivemos na periferia do Recife, o tambor é o instrumento mais próximo da nossa realidade.
É acessível, está presente no nosso quotidiano e faz parte da nossa formação. Para nós, o tambor é tudo.
O conceito de “inteligência ancestral” estabelece um diálogo curioso com a atual obsessão pela inteligência artificial. O que é que a tecnologia contemporânea ainda pode aprender com o conhecimento transmitido pelo corpo, pela comunidade e pela tradição?
No mundo das artes, especialmente da música, quando escutamos um som com o qual o corpo se identifica, ele naturalmente balança, dança, responde.
E isso vem dos nossos ancestrais. Vem dessa relação de festejar com a música, com o batuque, com a dança. É uma maneira de transmitir amor, vivências e conhecimentos que atravessam gerações. É uma vivência ancestral, uma vivência cultural.
Eu acredito que a música sempre vai existir e sempre será contemporânea, porque acompanha o tempo e transforma-se com a maneira como fazemos música hoje.
A ancestralidade não deixa de existir quando a música se renova. Continua presente, a dialogar com o agora. E isso também é tecnologia contemporânea.
Foi fundador do Lamento Negro e integrou a formação original de Chico Science & Nação Zumbi. Quando recorda aquele período, percebeu na altura que estava a participar na construção de algo que iria transformar a música brasileira?
Eu nunca pensei que chegássemos tão longe. E digo “a gente” porque foram oito cabeças que construíram Chico Science & Nação Zumbi. E, antes disso, no Lamento Negro, também foram muitas pessoas que participaram nessa construção.
Quando criámos o Lamento Negro, era pura diversão. Não existia aquele compromisso profissional que fomos adquirindo depois. Queríamos tocar, experimentar e, principalmente, exaltar o nosso lugar: o bairro de Peixinhos.
Naquela época, Peixinhos era um bairro marcado pela violência e pelo preconceito. Muitas vezes, quando conhecíamos alguém e dizíamos que morávamos em Peixinhos, a pessoa já se afastava. Éramos julgados simplesmente pelo lugar de onde vínhamos. E ainda havia a questão de sermos negros. Era um preconceito que se somava ao preconceito contra a periferia.
Hoje, o Brasil está a mudar, e conseguimos falar mais sobre a negritude, sobre a nossa ancestralidade e sobre tudo aquilo que o povo negro construiu e continua a construir: cultura, dança, música, culinária e tantos outros saberes.
Quando formámos Chico Science & Nação Zumbi, eu ainda via a música como um hobby, uma coisa que fazia por prazer. Mas, de repente, tudo mudou. Profissionalizámo-nos. A nossa música começou a atravessar fronteiras e a receber o reconhecimento de grandes críticos musicais do mundo.
Foi quando percebi: tínhamos criado uma música nova, um estilo, uma identidade.
Eu nunca imaginei que chegaríamos tão longe. Um menino da periferia do Brasil geralmente cresce a sonhar em ser jogador de futebol. Ganha uma bola, começa a jogar e imagina aquele futuro. Ser músico profissional nem sempre aparece como uma possibilidade.
Mas tornámo-nos músicos profissionais. Através da música, conheci outros continentes, outras culturas e outros mundos. E o mais importante é que continuo a viver da música até hoje, daquilo que criámos juntos.
Tudo começou em Peixinhos. E eu nunca imaginei que a música pudesse levar-me tão longe.
O Manguebeat aproximou maracatu, cultura popular, rock, hip-hop e música eletrónica numa altura em que essas linguagens ainda eram vistas por muitos como mundos separados. O que ficou dessa atitude na música que faz hoje?
Hoje, o Recife é conhecido como uma cidade multicultural. E acredito que ajudámos a construir esse encontro de culturas.
Conseguimos aproximar o skatista, o rastafári, o punk, o regueiro e quem vive a cultura popular. Hoje, o skatista vai para uma sambada de maracatu na Zona da Mata. O homem do reggae vai assistir a uma banda de punk rock. O camisa-preta está dentro de uma roda de coco. Toda a gente junta, a desfrutar das diferentes manifestações culturais.
E isso tem muito a ver com o maracatu. O maracatu já existia muito antes de nós, há séculos. Quando Chico Science & Nação Zumbi juntou o maracatu com o rock, o hip-hop, o ragga, o drum and bass e o frevo, essas linguagens começaram a encontrar-se.
E, juntamente com essa mistura, surgiu também um novo público, que passou a abraçar tanto a cultura pop mundial como a cultura de raiz.
Estamos juntos e misturados. Ficou muita coisa. Na verdade, essa fonte nunca deixou de alimentar a minha música.
Continuo a trazer o maracatu, o coco, a ciranda, o frevo, a capoeira e as influências da cultura popular pernambucana. Tudo isso dialogando com o rock, o funk, o reggae, o soul e outras sonoridades universais.
São encontros de ritmos, muitos deles atravessados pela diáspora africana. A música que faço hoje continua a beber dessa fonte.
Ela vem do feirante, de uma frase que escuto na rua, de quando estou a brincar no maracatu em que desfilo, de uma roda de samba, de uma vivência no candomblé, dos afoxés.
Tudo isso continua dentro de mim e da minha música. Porque o Manguebeat não foi apenas uma mistura de ritmos. Foi também uma maneira de olhar para a nossa cultura e perceber que as nossas raízes podiam dialogar com o mundo.
E é isso que continuo a fazer até hoje.
O Lamento Negro nasceu de uma forte ligação à comunidade de Peixinhos e à cultura negra pernambucana. O que seria importante que uma nova geração de músicos compreendesse sobre essa história antes de utilizar esses ritmos e referências?
O Lamento Negro nasceu em Peixinhos, na periferia entre Olinda e Recife, de uma juventude negra que encontrou na música uma maneira de se expressar, afirmar a sua identidade e transformar a realidade em que vivia.
Antes de existir um grupo musical, existiam os encontros na associação do bairro, as festas, a black music, o soul, o break, o samba e a vontade de estar juntos.
Depois vieram as experiências com os afoxés, o contacto com as lideranças negras, a descoberta de outras dimensões da ancestralidade africana e o impacto da percussão do Olodum.
Foi dessa mistura que nasceu o Afro Lamento Negro. Dos atabaques do ijexá aos instrumentos de samba, do samba-reggae ao maracatu, a juventude de Peixinhos começou a construir uma linguagem musical própria.
Mas o Lamento Negro não nasceu apenas da música. Nasceu também da necessidade de enfrentar o preconceito racial e a discriminação contra quem morava na periferia.
O que eu gostaria que as novas gerações de músicos compreendessem é que ninguém cria nada sozinho e que nenhuma música nasce sem uma história.
Antes de existir o Manguebeat, já existiam os mestres da cultura popular, os terreiros, os afoxés, as nações de maracatu, as rodas de coco e tantas pessoas que mantiveram esses conhecimentos vivos, mesmo enfrentando preconceitos e perseguições.
Bebemos dessas fontes. E, quando misturámos tudo aquilo com a black music, o rock, o funk e o hip-hop, mostrámos que a cultura da periferia podia dialogar com o mundo sem abandonar as suas raízes.
Quero que os jovens entendam que não precisam de negar o lugar de onde vieram para conquistar outros espaços.
O menino de Peixinhos também pode criar uma música que atravesse oceanos. E que a tecnologia não está apenas nos equipamentos modernos. Existe tecnologia ancestral no tambor, no ritmo, no corpo, na memória e na maneira como os conhecimentos são transmitidos de geração em geração.
O maior legado do Lamento Negro não é somente a música que criámos. É mostrar que a periferia produz conhecimento, arte, inovação e futuro.
E que, para seguir em frente, é preciso conhecer e respeitar quem veio antes de nós.
Não precisámos de sair de Peixinhos para encontrar a nossa identidade. Foi a nossa identidade que levou a música de Peixinhos para o mundo.
Em IA – Inteligência Ancestral, o passado não aparece como algo que tenha de ser simplesmente preservado. Aparece como matéria para criar música nova. Onde termina a tradição e começa a reinvenção?
Eu acho que a tradição não termina. Continua dentro de nós, mesmo quando estamos a criar alguma coisa nova.
No começo, quando fazíamos as nossas primeiras composições, pensávamos muito no maracatu, na ciranda, no coco. Era uma busca por essas referências.
Hoje é diferente. Já trago essa tradição comigo. Faz parte da minha formação, da minha maneira de ouvir, de sentir e de fazer música.
Então, quando aparece uma ferramenta nova, um beat virtual, por exemplo, naturalmente o meu funk vai ter um swing de maracatu. O meu coco vai ganhar um pouco de ragga, de dancehall.
E a ciranda, por causa dos instrumentos de sopro, principalmente dos trompetes, costumo dizer que é o nosso jazz pernambucano.
Às vezes estou a compor uma ciranda e começo a imaginar aquilo como um jazz. Aí penso em chamar um trompetista, que vai chegar com as suas próprias influências, com a sua maneira de tocar, e a música vai-se transformando.
Ela fica ali, entre o jazz e a raiz da ciranda.
É assim que componho hoje. Não preciso mais de procurar a tradição, porque ela já está dentro de mim.
A tecnologia chega, os instrumentos mudam, as linguagens encontram-se, mas a essência continua.
Para mim, a tradição e a reinvenção não estão separadas. Uma alimenta a outra.
O tambor continua presente, mesmo quando estou a trabalhar com um beat eletrónico. A ancestralidade continua viva, mesmo quando estou a experimentar uma sonoridade contemporânea.
Porque reinventar não significa abandonar as raízes. Significa permitir que elas continuem a crescer.
A tradição é a raiz. A reinvenção é o que faz essa raiz continuar a dar frutos.
O trabalho com o Combo X junta percussão, guitarra, teclados, samplers e beats. O que procurava musicalmente quando decidiu colocar estes instrumentos e linguagens dentro do mesmo projeto?
Curiosamente, o meu processo de composição começa pela escrita.
Primeiro escrevo alguma coisa, uma ideia, uma frase, uma história que quero contar. Quando gosto do que escrevi, começo a imaginar como aquilo pode ganhar ritmo.
É aí que entra a base percussiva. Levo as palavras para o tambor, começo a experimentar as batidas e a encontrar o balanço daquela composição.
Depois convido os meus parceiros, que tocam baixo, guitarra e teclado, para trazerem as suas harmonias, as suas influências e as suas maneiras de sentir a música.
E aí a coisa vai acontecendo coletivamente.
A palavra encontra o tambor, o tambor encontra a harmonia e, quando damos por isso, aquilo que começou como uma ideia já se tornou música.
É assim que componho: primeiro vem a palavra, depois o batuque, e desse encontro nasce a música.
A sua passagem por Portugal inclui concertos, uma oficina de percussão, palestra, cinema e debate. O que gostaria que o público português levasse consigo depois de assistir a estas diferentes dimensões do projeto?
Eu gostaria que o público português levasse um pouco da nossa ancestralidade, da força do tambor e da riqueza da cultura negra pernambucana.
Que entendesse que esta música vem de um lugar, de uma história, de uma periferia chamada Peixinhos, onde aprendemos a transformar as nossas vivências em arte.
O que faço hoje carrega muito do Lamento Negro, do Manguebeat, de Chico Science & Nação Zumbi, mas também carrega os mestres, os terreiros, os afoxés, o maracatu, o coco e a ciranda.
Gostaria que as pessoas percebessem que a nossa tradição não ficou no passado. Está viva, a reinventar-se, a dialogar com a tecnologia e com as músicas do mundo.
E, principalmente, que saíssem do espetáculo felizes, com vontade de dançar, mas também com a curiosidade de conhecer de onde vem aquele som.
Porque a música tem essa capacidade de atravessar oceanos e aproximar pessoas.
Se o público português levar um pouco da nossa alegria, da nossa ancestralidade e entender que o tambor também é uma forma de conhecimento, já vou ficar muito feliz.
No fim das contas, é aquilo que Chico dizia: diversão levada a sério.
Dynamite Som: O Futuro é Lamento Negro recupera a história do Lamento Negro através do cinema. Como foi voltar a essa memória através de uma linguagem diferente da música e rever uma parte da sua própria trajetória no ecrã?
É curioso olhar para trás e perceber onde tudo aquilo chegou.
Como já falei, no final dos anos 80 estávamos simplesmente a divertir-nos, a fazer música, a experimentar sons. Nunca imaginei que aquela brincadeira fosse virar disco, virar moda, virar cinema e até sacudir a culinária pernambucana.
De repente, as pessoas começaram a querer conhecer Peixinhos, conhecer os morros, os lugares mais distantes do Recife, entender de onde vinha aquela música.
E isso é muito prazeroso.
Não construímos nada daquilo a pensar no futuro. Eu, particularmente, nunca comecei esta caminhada a pensar em ser um Gilberto Gil ou um Tim Maia.
Sou um músico autodidata. As coisas foram acontecendo naturalmente, a partir das experiências, dos encontros e da vontade de fazer música.
E só tenho a agradecer a Deus, aos orixás, a Oxalá, a Obatalá, por toda esta caminhada.
Tive a oportunidade de conhecer e trabalhar com pessoas que admirava, produtores como Liminha e Mario Caldato, músicos como Frejat, do Barão Vermelho, e tantos outros artistas.
Até hoje é muito prazeroso perceber que aquela música continua a ser lembrada. Outro dia, Max Cavalera, dos Sepultura, citou o meu nome numa entrevista.
É uma caminhada muito bonita, construída por muitas pessoas que fizeram a música pernambucana dos anos 90. E agradeço por ter participado daquela história e por continuar aqui, a fazer música.
Pernambuco tem uma história muito forte com o cinema, com grandes realizadores e uma linguagem muito própria.
Achei uma grande sacada de Pedro Severien, Lia Letícia e do Mestre Maia trazer esta história para o cinema por meio de um documentário de ficção, misturando a linguagem cinematográfica com acontecimentos e personagens reais.
O filme Dynamite Som — O Futuro é Lamento Negro permite revisitar uma história que muita gente conhece apenas a partir do Manguebeat, mas que começou antes, com o Lamento Negro, com a juventude de Peixinhos e com os mestres da nossa cultura.
Uma das coisas mais importantes deste filme é a presença de Mestre Maureliano. Maureliano foi fundamental para a construção desta nova música brasileira.
Ele aprendeu com Mestre Luiz de França a arte de fazer tambores, preservando um conhecimento ancestral que precisava de continuar vivo. E levou os seus tambores para o mundo.
Os seus instrumentos chegaram ao Japão, à Alemanha, a Portugal e a tantos outros lugares.
O mais emocionante é que conseguimos registar o seu depoimento no filme. Cerca de um mês depois, ele fez a sua passagem para o Orun, o mundo espiritual dos nossos ancestrais.
Mas a sua voz, a sua história e o seu conhecimento ficaram registados.
Mesmo sendo um documentário que utiliza elementos de ficção, o que Mestre Maureliano conta é verdadeiro. É a memória de alguém que viveu e ajudou a construir esta história.
Por isso, este filme é tão importante. Não fala apenas de uma banda ou de um movimento musical. Fala das pessoas, dos territórios, dos mestres e dos conhecimentos que tornaram tudo isto possível.
O futuro é Lamento Negro porque esta história não termina na nossa geração. Continua viva em cada jovem que pega num tambor, conhece as suas raízes e descobre que também pode criar a sua própria música.
Quatro décadas permitem observar várias mudanças profundas na música brasileira, desde a indústria discográfica até ao streaming e às novas tecnologias de produção. O que ganhou a música com essas mudanças e o que considera que se perdeu pelo caminho?
Eu acho que a música ganhou muita coisa com a tecnologia, principalmente a facilidade de produzir.
Hoje, quem tem acesso a um computador, uma placa de som e alguns equipamentos já consegue fazer a sua música dentro de casa. Não precisa mais de entrar num estúdio famoso, nem mesmo num estúdio de médio porte, para começar a produzir.
Isso é uma conquista muito grande, principalmente para quem vem da periferia, porque abriu possibilidades que antes eram muito mais difíceis.
Agora, o que perdemos, pensando na sustentabilidade da vida de quem faz música, foi dinheiro.
Hoje vivemos na era do streaming. A música circula pelo mundo inteiro, mas fico a perguntar-me: onde está o dinheiro?
Porque a música toca, as pessoas escutam, partilham, mas o retorno financeiro para o artista muitas vezes não aparece.
Antigamente, criticávamos muito as gravadoras, e existiam motivos para isso. Mas também havia um suporte.
A gravadora investia na gravação de um disco, ajudava na produção e, em alguns casos, dava condições para o artista se manter durante alguns meses, até o trabalho começar a caminhar.
Hoje é diferente. Já não procuramos necessariamente uma gravadora. Fazemos a música com os recursos que temos, lançamos da forma que conseguimos e vamos atrás das plataformas digitais, das redes sociais e dos meios de comunicação para fazer aquela música circular.
A tecnologia deu mais autonomia para criar e divulgar, mas isso não significa que tenha garantido melhores condições para viver de música.
E aí lembro-me de uma palavra que estava muito presente no movimento Manguebeat: dinheiro.
Porque queríamos fazer música, queríamos experimentar, queríamos levar a nossa cultura para o mundo, mas também queríamos viver melhor com aquilo que produzíamos.
Não queremos apenas que a música chegue ao mundo. Queremos que o músico também consiga viver dignamente do seu trabalho.
Então, para mim, esse é o grande desafio de hoje: a tecnologia facilitou a criação, mas ainda precisamos de encontrar maneiras mais justas de remunerar quem cria.
Porque a música é arte, é cultura, é ancestralidade, mas também é trabalho.
E quem vive de música também precisa de dinheiro para viver melhor.
Depois de 40 anos ligados ao tambor, ao Lamento Negro e a tantas transformações da música pernambucana, o que ainda falta a Gilmar Bolla 8 fazer, experimentar ou descobrir?
Eu acho que o artista nunca deixa de querer criar.
No começo, estamos sempre a experimentar, a procurar novos sons, novas ideias, novas possibilidades. E, depois de 40 anos, essa vontade continua dentro de mim.
O que muda é que começamos a perceber que, para continuar a criar, também precisamos de condições.
Sou um músico autodidata. Aprendi muita coisa sozinho, experimentando, observando, ouvindo e fazendo. Nunca tive todas as ferramentas que gostaria de ter.
Hoje, a internet facilita muito o acesso ao conhecimento, mas as ferramentas de produção musical continuam a custar caro. Um bom computador, equipamentos de gravação, programas, instrumentos, tudo isso exige investimento.
E, para quem vive no chamado terceiro mundo, essas dificuldades são ainda maiores. Até o idioma se torna uma barreira. Muitas tecnologias chegam com as suas instruções em inglês, e precisamos de aprender sozinhos a lidar com elas.
Costumo dizer que o dinheiro é a mola do mundo. Porque não basta ter criatividade, talento e vontade de fazer. É preciso ter condições para realizar.
Depois de 40 anos a fazer uma música que já atravessou continentes, gostaria que algumas coisas fossem mais fáceis.
Ainda enfrentamos uma luta diária para produzir arte. Muitas vezes dependemos de editais, de apoios que nem sempre chegam, de oportunidades que são poucas diante da quantidade de artistas e da riqueza cultural que temos.
Mas continuo a criar, a estudar, a experimentar e a preparar-me para o amanhã.
Quero mais palcos, mais oportunidades de apresentar a minha música e encontrar novos públicos.
Quero dialogar com outros artistas, partilhar experiências, aprender outras maneiras de fazer música e construir novas parcerias.
Quero levar a minha música para novos lugares, mas também quero trazer essas experiências para dentro das minhas composições.
E quero que esta trajetória seja mais reconhecida no meu próprio país.
Não falo apenas de reconhecimento pessoal. Gostaria de ver esta caminhada reconhecida também através de prémios, homenagens, convites, oportunidades e políticas culturais que valorizem quem dedicou a vida à música brasileira.
Porque ajudámos a construir uma sonoridade que ganhou o mundo, mas ainda precisamos de lutar muito para continuar a produzir.
Eu não quero viver apenas da memória do que fiz. Quero ter condições para continuar a criar aquilo que ainda não fiz.
Tenho 57 anos de idade, 40 anos de música, sou um jovem senhor, mas não perdi a curiosidade daquele menino de Peixinhos que começou a batucar por diversão.
Ainda tenho muita coisa para aprender, muita música para fazer, muitos artistas para conhecer e muitos lugares aonde chegar.
O tambor continua a dar-me o meu guia.
E, enquanto tiver vida, a minha história continua a ser escrita.
Porque 40 anos ainda não são o fim desta caminhada. São a experiência que levo para tudo aquilo que ainda quero construir.
