Aos oito anos, Gonçalo Gonçalves Alves pegou numa guitarra quase por acaso. O pai, apaixonado por música, lançou-lhe o desafio. Se não gostasse, podia sempre voltar ao futebol. A música demorou algum tempo a conquistar espaço, mas acabou por ganhar.
Hoje, o músico vimaranense assume o próprio nome num projecto a solo que começa com “Cá Pra Mim”, o primeiro de vários temas que prometem revelar diferentes lados da sua identidade musical. Guitarrista acima de tudo, Gonçalo não quer ficar preso a um único género nem a uma fórmula. O álbum de estreia, já gravado, deverá chegar no início de 2027.
Nesta conversa com o Música Total, fala sobre a relação com a guitarra, os projectos que o ajudaram a crescer, a origem de “Cá Pra Mim”, o videoclipe realizado por Leonardo Sol e o trabalho desenvolvido com David Varela no Above The Record Studio. Fala também sobre a vontade de mostrar diferentes culturas, estilos e sonoridades sem aceitar demasiado cedo um rótulo.
Começaste a tocar guitarra aos oito anos. Lembras-te do que te levou, naquela altura, a pegar numa guitarra e perceber que a música poderia fazer parte da tua vida?
Como todos os meus amigos, o que eu queria era jogar futebol. O meu pai, que sempre foi um grande apaixonado por música, desafiou-me a experimentar tocar guitarra e disse-me que, se não gostasse, podia ir para o futebol.
Durante muitos anos, a música não me disse muito, mas nunca quis parar. No secundário, quando tive de decidir o que queria fazer para o resto da vida, percebi que a música era aquilo de que gostava mais. A partir daí, dediquei-lhe todo o meu tempo.
Antes de assumires este projecto a solo, passaste por diferentes projectos musicais. O que trouxeste dessas experiências para o artista que és hoje?
Para fazer um projecto a solo tenho de entender o lugar de cada instrumento e o seu papel. Sei tocar alguns instrumentos, mas vou ser sempre guitarrista acima de tudo.
Por muito que ache que sei o que os outros instrumentos devem fazer, é a trabalhar com outros músicos e em projectos diferentes que consigo aprender e explorar identidades mais abrangentes.
“Cá Pra Mim” é a tua primeira apresentação a solo. Quando percebeste que esta era a música certa para abrir este novo capítulo?
Na verdade, não sinto que esta seja a música certa. Foi apenas a primeira que escrevi.
Lembro-me de que, quando a acabei, prometi a mim mesmo que iria avançar com um projecto a solo e que este seria o primeiro single.
A canção parte da sensação de má sorte e dos altos e baixos de situações que não conseguimos controlar. Que experiência ou estado de espírito esteve na origem da composição?
Este tema reflecte um pouco a minha relação com a música. É essa vontade constante de querer mostrar quem sou e de saber que tenho muito para dar, mas acabo muitas vezes por me desculpar a dizer que “não tenho sorte”.
Isso quase se tornou um vício, até perceber que, no fundo, estou apenas a ser perseguido por mim mesmo.
Em “Cá Pra Mim” cruzas referências de rock, blues e jazz. São géneros que sempre fizeram parte das tuas referências ou esta mistura foi acontecendo naturalmente enquanto escrevias?
Não diria que foi algo totalmente natural, sobretudo se pensar nos próximos singles.
Sempre tive muita vontade de mostrar os estilos e as culturas diferentes que fazem parte da minha vida e que fui cultivando desde pequeno, principalmente em casa, onde sempre ouvi uma panóplia de referências muito distintas.
A música passa por diferentes estados e momentos de maior tensão. Quando compões, partes primeiro da guitarra, de uma ideia melódica, de uma letra ou de uma sensação que queres transformar em música?
Depende um pouco da música.
Normalmente começo por uma sensação ou por uma sonoridade que tento passar para a guitarra, que é o meu ponto forte, e, a partir daí, vou construindo a canção por partes.
O videoclipe leva a ideia da má sorte para um lado mais satírico e termina com uma revelação curiosa: percebes que estás a ser perseguido por ti próprio. O que querias dizer com essa imagem?
O vídeo foi escrito e realizado pelo Leonardo Sol e decidimos, em conjunto, levar a ideia para um lado mais satírico, até porque os meus dotes de actor não são os melhores para algo muito sério.
O vídeo brinca com essa ideia de má sorte e de me sentir perseguido, até perceber, no final, que quem me persegue sou eu próprio. É a minha cabeça.
Existe uma certa leveza em “Cá Pra Mim” perante situações que poderiam ser vistas de forma mais pesada. O humor é também uma forma de lidar com os problemas que aparecem pelo caminho?
Claro. Na música tento ser sério e mostrar realmente uma parte de mim, mas fora dela tento levar as coisas com leveza.
Acho que, artística e pessoalmente, faz sentido mostrar que nem tudo precisa de ser levado a sério.
Agora que assumes o teu próprio nome, sentes que tens finalmente liberdade para mostrar exactamente a música que queres fazer ou essa liberdade também traz uma responsabilidade maior?
Sem dúvida.
Mal posso esperar para mostrar o trabalho que tenho vindo a fazer com o David Varela, no Above The Record Studio. Quero muito mostrar aquilo de que sou capaz e sinto uma grande responsabilidade em fazê-lo com a melhor qualidade possível.
O teu álbum de estreia já está gravado e deverá chegar no início de 2027. O que podemos esperar desse disco e até que ponto “Cá Pra Mim” representa aquilo que vamos encontrar nele?
Em parte, sim, mas em parte não.
O meu objectivo é não ficar preso a um único estilo. Ao longo do disco vou mostrar coisas muito diferentes. Quero que quem o ouça sinta a chegada constante de novas sonoridades.
Está previsto um segundo single ainda antes do final de 2026. O que podes revelar sobre essa próxima música e sobre a forma como ela vai continuar a história iniciada com “Cá Pra Mim”?
Exacto. O próximo single é outra parte dessa relação que tenho com a música e, tal como em “Cá Pra Mim”, vou tentar mostrá-la através de dinâmicas e estilos diferentes.
Se tivesses de apresentar Gonçalo Gonçalves Alves a alguém que ainda não ouviu a tua música, sem falar em géneros musicais, como descreverias o artista que estás agora a começar a construir?
O Gonçalo Gonçalves Alves é um artista que não quer ser rotulado.
Cada single fala por si e cada momento tem o seu lugar. Este projecto é para quem quer sair um pouco do panorama musical português mais habitual e viajar por sonoridades um pouco diferentes.
Ler: https://musicatotal.net/goncalo-goncalves-alves-estreia-se-com-ca-pra-mim/
