Segunda-feira, 7 de Setembro de 2026
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GumaJazz 2026: uma antiga escola de Penafiel volta a ganhar vida através do jazz e da criação

Por Mafalda Matos 7 Set 2026

Uma antiga escola pode voltar a abrir portas sem voltar a ser aquilo que era. Em Gumarães, Penafiel, essa parece ser a ideia por trás da segunda edição do GumaJazz. Nos dias 12 e 13 de setembro, o edifício deixa de ser apenas um lugar marcado pela memória para receber jazz, improvisação, dança, criação artística e participação comunitária.

O desafio do GumaJazz 2026 não está apenas em apresentar mais concertos ou alargar a programação. Está em perceber até que ponto um festival pode realmente pertencer ao lugar onde acontece. Organizado pela Associação 140, o evento regressa agora como Festival de Jazz e Artes e reforça uma ambição que vai além do palco: fazer da antiga Escola de Gumarães um espaço onde o público não chega apenas para assistir.

A entrada é gratuita.

Um festival que não quer apenas passar por Gumarães

É fácil levar uma programação cultural a um lugar. Mais difícil é fazer com que esse lugar entre na programação.

O GumaJazz parte precisamente dessa diferença. Gumarães não surge apenas como ponto no mapa ou cenário para dois dias de concertos. A antiga escola, a memória da comunidade, a paisagem e os elementos que fazem parte da identidade local são tratados como matéria do próprio festival.

A escolha da antiga escola ajuda a perceber essa intenção. Durante anos, aquele edifício foi um espaço de aprendizagem e convivência. Em 2026, volta a receber pessoas para aprender e partilhar, mas através de outros processos. A música substitui a sala de aula convencional, a criação ocupa o lugar da rotina e a participação torna-se parte da experiência.

A identidade visual desta edição segue a mesma lógica. Desenvolvida pelo artista local Francisco Fonseca, parte de elementos da paisagem e do património de Gumarães para construir uma linguagem própria para o festival.

Não é apenas uma questão gráfica. É uma forma de afirmar que o GumaJazz não procura apagar o lugar onde acontece para lhe impor uma identidade temporária. Pelo contrário, tenta partir daquilo que já existe.

A comunidade deixa de ser apenas público

A grande diferença desta segunda edição está na vontade de aproximar a comunidade do próprio processo artístico.

A Residência Gumarães, conduzida pelo músico, performer e mediador artístico Artur Carvalho, é talvez o exemplo mais claro dessa mudança. O projeto propõe um processo de criação construído através do encontro entre pessoas, sons, experiências e diferentes formas de expressão.

Com um percurso ligado a projetos de criação artística e comunitária, incluindo vários anos de colaboração com o Serviço Educativo da Casa da Música, Artur Carvalho trabalha aqui a partir de uma ideia que nem sempre encontra espaço nos festivais: não separar de forma rígida quem cria de quem recebe a criação.

A antiga escola volta, assim, a ser um lugar de aprendizagem, mas sem a hierarquia habitual entre quem ensina e quem aprende. A proposta passa por experimentar, ouvir e construir em conjunto.

O resultado da residência será apresentado publicamente no dia 12 de setembro, integrado na programação do GumaJazz.

É um gesto importante porque coloca uma questão que atravessa toda esta edição: até que ponto a cultura pode deixar de ser algo simplesmente apresentado a uma comunidade e passar a ser construída com ela?

O jazz como ponto de partida, não como fronteira

O jazz continua no centro do GumaJazz, mas o festival parece cada vez menos interessado em tratá-lo como um território fechado.

A programação percorre diferentes linguagens do jazz contemporâneo, da improvisação e da experimentação sonora. Entre os nomes anunciados está o Duarte Ventura Quinteto, liderado pelo vibrafonista Duarte Ventura, distinguido com o Prémio Jovens Músicos e ligado ao trabalho desenvolvido no álbum Blurred Image.

O programa inclui também Themandus, trio do Porto que cruza jazz, eletrónica e improvisação, e Yudit Almeida, contrabaixista e compositora cubana formada em jazz pela ESMAE. A artista apresenta-se acompanhada por Ricardo Moreira, ao piano, e João Ribeiro, na bateria, numa proposta que abre igualmente espaço ao Lindy Hop.

Tota + Ricardo Coelho levam a Gumarães Reencantos de Trabalho, projeto que parte das canções de trabalho para tentar recuperar, através da música, uma relação diferente com aquilo que o trabalho representa.

Clara Lacerda, Catarino – Kualan e Frederica Campos + Inês Gouveia fazem igualmente parte das propostas anunciadas para esta edição.

O GumaJazz inclui ainda o Combo Azevinhos, escola de música de Penafiel, reforçando a presença de jovens músicos e aproximando o festival dos processos de aprendizagem que continuam a acontecer fora dos grandes centros.

A parceria com o Ponto C — Cultura e Criatividade acrescenta outra ligação ao território. Desta colaboração resulta a presença do Eugénia Contente Trio, numa programação que procura aproximar diferentes agentes culturais da região.

O jazz, neste contexto, funciona menos como uma etiqueta e mais como uma maneira de deixar espaço para o inesperado.

Mais do que assistir, ficar

 

 

A programação não termina quando termina um concerto.

DJ sets, Lindy Hop e uma jam session prolongam os dias e criam momentos onde a fronteira entre palco e público pode tornar-se menos rígida. O GumaJazz inclui também workshops, uma feira de artes e artesanato, comes e bebes e outras atividades distribuídas pela antiga escola e pelo espaço envolvente.

Os workshops recuperam diretamente a ideia da escola como lugar de descoberta. As propostas são abertas a diferentes públicos, com atenção também às famílias e às crianças, e cruzam processos criativos com elementos ligados à memória local, incluindo a relação histórica de Gumarães com o linho.

Esta dimensão é importante para perceber o que o GumaJazz parece querer construir. Um festival não precisa de ser apenas uma sequência de horários e concertos. Pode também ser um lugar onde se permanece.

Ficar depois da música. Conversar entre atividades. Descobrir um artista sem o ter procurado. Participar numa oficina. Encontrar pessoas.

É provavelmente aí que a segunda edição do GumaJazz encontra a sua maior ambição. Não apenas levar programação cultural a Gumarães, mas tentar devolver à antiga escola uma das funções que sempre teve: juntar pessoas.

O edifício já não é uma escola no sentido em que foi durante anos. Mas durante dois dias pode voltar a ensinar alguma coisa, mesmo que ninguém saiba exatamente o que vai aprender.

Programa GumaJazz 2026

12 de setembro, sábado

15h00 — Combo Azevinhos

16h15 — Tota + Ricardo Coelho

17h30 — Clara Lacerda Solo

19h00 — Duarte Ventura Quinteto

21h00 — Lindy Hop: Yudit Almeida Trio

22h45 — Jam Session

13 de setembro, domingo

15h00 — Combo Azevinhos

16h15 — Tota + Ricardo Coelho

17h30 — Clara Lacerda Solo

19h00 — Duarte Ventura Quinteto

21h00 — Lindy Hop: Yudit Almeida Trio

22h45 — Jam Session

GumaJazz 2026

12 e 13 de setembro

Gumarães, Penafiel

Entrada gratuita

Mais informações em GumaJazz

Instagram: @gumajazz

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Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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