Terça-feira, 6 de Outubro de 2026
Entrevista

Inesh Bueno: “Hoje canto estas canções com orgulho…percebam que há esperança”

Por Mafalda Matos 6 Out 2026

Um ano depois de My Song By The River, Inesh Bueno olha para o álbum como quem regressa a um lugar que já não é o mesmo. Algumas das canções nasceram em 2020, ficaram guardadas durante anos e só voltaram a respirar quando a artista decidiu retomá-las, em 2024. Pelo caminho, ficaram histórias de dor, identidade, pertença, trauma, esperança e resiliência.

O disco acabou por transformar uma fase particularmente difícil da sua vida numa obra que hoje leva para os palcos com outra consciência. A Inesh que escreveu aquelas canções não é exactamente a mesma que agora as canta. Entre o inglês, o espanhol, o rock alternativo, o blues e o metal, My Song By The River tornou-se também um espaço onde a artista se permite estar sem capas.

Nesta conversa com o Música Total, Inesh Bueno fala sobre a origem do álbum, a vulnerabilidade que atravessa a sua música, a importância das diferentes línguas na sua escrita, a memória do avô em “Luna En 100 Años” e aquilo que descobriu ao levar estas canções para diferentes palcos, em Portugal e Espanha. Mas fala também do que vem a seguir: há já três temas novos a ganhar vida nos concertos e uma surpresa preparada para a celebração de um ano de My Song By The River, a 23 de outubro, na Criarte, em Carcavelos.

 

 

 

My Song By The River começou a ser escrito vários anos antes de ser lançado e o projeto chegou a ficar interrompido. Quando voltou a essas canções, em 2024, o que encontrou nelas que a fez perceber que ainda havia um álbum para construir?

Havia algumas músicas que tinha escrito em 2020 e que ainda ressoavam em mim, como se aquele capítulo ainda não tivesse fechado. Continuava a tocar, continuava a ter muito carinho por elas. Queria concluí-las, mas não sabia como avançar, como fazer. Em 2024, um amigo meu disse-me que as tinha de tirar de vez da caixa e permitir-lhes respirar. Realmente, essas músicas ainda faziam sentido e não iam parar de “quase viver” até saírem da caixinha.

Elas eram “Tell Me If I’m Wrong”, “My Song By The River” e “People”.

O disco nasceu de um período particularmente difícil da sua vida. Hoje, com alguma distância, consegue ouvir estas canções de uma forma diferente daquela que tinha quando as escreveu?

Sim, consigo sentir a mágoa com que as escrevi, mas com um respirar bem fundo por onde estou agora mesmo. A verdade é que a Inesh Bueno dessa altura não acreditava que ia superar os 20/21 anos. As músicas eram escritas com uma dor imensa. Aos 25, quando fui ao estúdio, já me encontrava numa fase mais calma, com imenso trabalho pessoal feito, e recordo-me de ser quase um universo paralelo ao cantá-las.

Hoje, aos 27, canto-as com orgulho e quero imenso que, com isso, as pessoas que se sentem numa situação profunda, como eu estive, se abracem e percebam que há esperança. Hoje em dia, partilho a mensagem dessa dor, mas com garra.

No álbum fala de identidade, pertença, trauma, esperança e resiliência. Qual destas palavras sente que melhor representa aquilo que My Song By The River significa para si neste momento?

Resiliência. Olhando para essas palavras, acho que é a que melhor descreve a visão geral do álbum. Vamos desde a procura da criança interior, as lágrimas da alma, o nascimento de Phoenix, o querer ser mais.

A vulnerabilidade ocupa um lugar importante na sua relação com a música. Onde termina a experiência pessoal e começa a criação artística quando escreve uma canção?

Acho que nenhuma substitui a outra, mas sim caminham de mãos dadas. Neste projeto é onde eu sou mais “eu”, real e sem capas. Não componho para ocultar, ou para encaixar, ou para agradar. Componho o que faz sentido perante aquilo que sinto, para como abraço a música e o que sinto perante a vida.

Às vezes tento vestir uma capa, agarrar no meu eu e, com isso, criar uma fórmula artística, dentro do que significa “ser” Inesh Bueno. Mas não combina, não funciona, não resulta. Para isso tenho outros projetos, ou outras ideias. Aqui, “dispo-me” e sou meramente eu.

O álbum cruza inglês e espanhol. O que muda na sua forma de escrever, interpretar ou transmitir uma emoção quando muda de idioma?

Para mim, o inglês torna as palavras mais leves. Talvez porque foi um idioma que aprendi mais tarde, quando já tinha 20 anos. Vivia em Inglaterra, então acabou por ser um espaço seguro para escrever. As palavras em português tinham mais peso, eram mais reais, e talvez o inglês permitia-me ser mais leve.

No entanto, para mim, o espanhol é a verdade absoluta. Andei desde pequena até à minha adolescência no Instituto Espanhol, era o meu idioma base. Quando canto em espanhol, sinto-me visível, mas com garra. Acho que isso acaba por desvendar-se nas músicas: o que está em inglês são emoções “no ar”, enquanto os temas em espanhol são emoções “na terra”.

A sua música atravessa referências ao rock alternativo, pop, blues e metal. Essas influências surgem de forma consciente no processo de composição ou aparecem naturalmente quando começa a construir uma canção?

Algumas sem pensar, noutras tenho a ideia, tenho uma sensação que quero. Por exemplo, na “My Song By The River” era inspirado no blues, tanto que, ao vivo, a estética realça-se muito mais. A “Guerrera de Mil Aguas” foi sempre inspirada num rock mais pesado.

Mas, no final das contas, estou sempre só a “sentir” e permito-me ver no que dá.

“Luna En 100 Años” é dedicada ao seu avô por ocasião do seu centésimo aniversário. O que significa fechar o álbum com uma canção ligada à memória e à família?

Para mim, essa música tem um lugar especial no meu coração. Foi a única que não foi gravada em estúdio, mas sim no jardim ao pé da casa do meu avô, na terra dele. A música nunca foi pensada para estar no álbum, era apenas uma prenda que lhe fiz.

Mas, um mês após o seu aniversário, infelizmente faleceu. Quando foi a hora de pensar no álbum, não tinha dúvidas de que queria honrá-lo e, tendo em conta o próprio ciclo do álbum, de que a vida é uma, fez todo o sentido.

Depois de um álbum tão ligado a experiências pessoais, como é que se sente ao interpretar estas canções ao vivo perante pessoas que podem conhecer apenas uma parte da história que está por trás delas?

Sem medos, sem bloqueios. Sou um livro aberto e tento sempre alertar, ao vivo, sobre a saúde mental. Quem me conhece sabe o que vivi e quem não, é bem-vindo a conhecer-me.

Mas o mais importante é relembrar que não estamos sós e que há sempre alguém que está a passar pelo mesmo, todos os dias, a todas as horas. Quero dar esse conforto e, para isso, tenho que demonstrar que ser vulnerável não é sinal de ser frágil, mas sim de força, que foi isso que me fez andar para a frente.

Interpretá-las é uma forma de relembrar-me.

Já apresentou My Song By The River em diferentes pontos de Portugal e também em Espanha. O que descobriu sobre as suas próprias canções depois de as levar para diferentes palcos e públicos?

Que são um mundo! Que evoluem, que se reconstroem. Tocar o álbum ao vivo tem sido uma experiência especial, viva e intensa. A música cresceu, tal como eu, e isso enche-me o coração.

A verdade é que quem vai aos concertos ouve uma versão diferente e dão sempre feedbacks positivos.

A 23 de outubro celebra um ano de My Song By The River na Criarte, em Carcavelos, acompanhada por Prisão Platão e Beach Wreck. O que gostaria que uma pessoa que nunca ouviu o álbum levasse consigo depois desse concerto?

Alegria, paz e esperança. Quero que o público vibre tanto como eu, que o sinta com gosto e que saia de lá com o maior sorriso possível. Que relaxem e aproveitem a experiência, isso vale tudo!

Olhando para o último ano, qual foi o momento em que sentiu, pela primeira vez, que My Song By The River tinha deixado de ser apenas o seu disco de estreia e começava realmente a encontrar o seu público?

Em Espanha senti isso, especialmente no concerto na capital, Madrid. A sensação de ter um público que não me conhece a vibrar, a sentir, a apaixonar-se pelo que criei, foi um momento muito bonito.

Saí de lá leve, feliz e com uma sensação de missão cumprida enorme.

Depois de tudo o que aconteceu desde a escrita das primeiras canções até ao primeiro aniversário do álbum, o que está hoje a nascer em Inesh Bueno que ainda não conseguimos ouvir?

Tenho três temas novos que temos apresentado em poucos concertos, um deles somente em Espanha. Posso dizer já que um deles, que será concretizado e lançado em 2027, é um dos meus preferidos, e dos meus músicos.

É um gozo cantá-las ao vivo, mal posso esperar para vê-las no formato de estúdio! Acho que o público vai gostar muito delas, principalmente na Criarte, porque vai ter uma pequena surpresa!

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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