Janine Mathias regressa a Portugal em setembro, dois anos depois da sua primeira passagem pelo país, para apresentar um trabalho onde o samba e o RAP não aparecem como linguagens concorrentes, mas como partes de uma mesma história. A digressão Devoção passa por Lisboa, Porto e Coimbra entre 18 e 26 de setembro e cruza concertos, rodas de samba e uma conversa com o público.
A viagem acontece na sequência de O RAP do meu Samba, segundo álbum da cantora brasileira, um título que funciona quase como uma declaração artística. Nele cabem as referências que acompanham Janine desde diferentes momentos da sua vida: o samba que cresceu a ouvir, o RAP encontrado nas ruas e uma relação com a música profundamente ligada à cultura negra brasileira e à ancestralidade.
Quando o samba encontra o RAP
A música de Janine Mathias não parte da ideia de aproximar artificialmente dois géneros. Samba e RAP fazem parte do percurso da cantora e aparecem no seu trabalho como linguagens que podem ocupar o mesmo espaço.
Filha de sambista e ligada desde cedo à música, Janine cresceu em Brasília e construiu posteriormente a sua carreira profissional em Curitiba. Foi também nesse percurso que o RAP entrou na sua formação artística, trazendo outra relação com a palavra, com a rua e com a realidade social.
O RAP do meu Samba nasce desse cruzamento. A direção musical é de Rodrigo Campos e o álbum conta com a participação de Criolo, dois nomes que ajudam a situar um trabalho onde a tradição do samba convive com outras formas de expressão da música negra brasileira.
A ancestralidade surge, por isso, menos como conceito decorativo e mais como matéria de criação. Janine procura olhar para aquilo que recebeu, para aquilo que encontrou pelo caminho e para a forma como essas referências continuam a transformar-se quando passam pela sua própria voz.
Portugal como lugar de encontro
A passagem por Portugal não foi pensada apenas em torno dos palcos. As cinco datas de Devoção distribuem-se por diferentes formatos, aproximando Janine de espaços onde o samba é vivido de forma colectiva.
A primeira paragem acontece em Lisboa, a 18 de setembro, numa roda de samba com o Gira Coletivo, no 8 Marvila. Três dias depois, a 21 de setembro, a cantora volta a encontrar o público lisboeta no Lat.A, no Armazém CP, para uma roda de samba com o Viva o Samba.
O Porto recebe o concerto autoral a 24 de setembro, na Casa da Música, com entrada gratuita. No dia seguinte, Janine desloca-se a Coimbra, cidade onde se apresentou pela primeira vez em Portugal, em 2024, no Carnaval de Coimbra. No Liquidâmbar, o programa junta conversa e música: primeiro uma roda de conversa com o público, às 19h, depois o concerto, às 21h.
A última data está marcada para 26 de setembro, no The Passenger, no Porto, onde Janine participa como convidada especial no Samba a Gomes de Sá.
A escolha destes formatos revela uma passagem pelo país que não depende apenas da relação entre artista e palco. As rodas permitem outra proximidade, enquanto o concerto autoral coloca O RAP do meu Samba no centro da viagem.
Uma devoção que vem de longe
“Devoção” é também o nome de uma das canções do repertório de Janine e traduz uma ideia central na sua relação com a música. A cantora fala dela como uma escolha de vida, algo que ultrapassa a noção de talento ou profissão.
“Mais que um dom, minha devoção, minha razão para sonhar” resume essa perspectiva.
É uma frase que ganha outro peso quando observamos o percurso da artista. Janine Mathias não se limitou a construir uma carreira discográfica. Em 2014 criou o Samba da Nêga, projecto itinerante dedicado ao samba, à cultura negra e à memória da música brasileira, que passou por Curitiba, São Paulo e Brasília e reuniu milhares de pessoas.
Existe aí uma continuidade importante. A música aparece tanto no palco como no espaço colectivo, tanto através das canções como através da criação de lugares onde essas canções podem ser partilhadas.
Na digressão portuguesa, essa dimensão volta a aparecer. Janine estará acompanhada nos concertos autorais por Lizzie Marchi, Ilen Monteiro, Mauro Jorge, Rodrigo Silveira e Júnior Travassos, levando para o palco uma formação que acompanha a dimensão colectiva do projecto.
Da memória brasileira para uma nova voz
Antes de O RAP do meu Samba, Janine Mathias tinha lançado o EP Eu Quero Mergulhar, em 2012, e o álbum Dendê, em 2018, com participação de Rincon Sapiência. Ao longo do percurso, dividiu palcos com artistas como Sandra Sá, Criolo, Fabiana Cozza, Karol Conká, Ellen Oléria e Nei Lopes.
É uma trajectória que passa por diferentes gerações e linguagens da música brasileira, sem abandonar a ligação às suas raízes. Janine é também irmã do rapper Afrorragga, outra ligação familiar a uma cultura musical onde palavra, ritmo e identidade se cruzam.
Em Portugal, a cantora chega agora com um repertório que nasce desse percurso e que encontra no samba e no RAP duas formas de contar uma história maior. Não é apenas uma questão de género musical. É uma questão de origem, memória e transformação.
Lisboa, Coimbra e Porto serão, durante alguns dias, lugares diferentes para a mesma experiência. Uma roda de samba, um concerto, uma conversa, uma participação especial. Cinco encontros que deixam a música circular de outra maneira.
E talvez seja precisamente aí que a palavra “Devoção” encontre o seu lugar: não como ponto final, mas como aquilo que continua a fazer Janine Mathias regressar à música.
Agenda em Portugal
18 de setembro | Lisboa
Gira Coletivo, roda de samba com Janine Mathias
8 Marvila | 20h
Bilhetes: 7 € antecipado | 10 € à porta
21 de setembro | Lisboa
Viva o Samba, roda de samba com Janine Mathias
Lat.A, Armazém CP, Doca de Santo Amaro | 17h
Bilhetes: 10 €
24 de setembro | Porto
Janine Mathias, show autoral
Casa da Música | 21h30
Entrada gratuita
25 de setembro | Coimbra
Show autoral + roda de conversa
Liquidâmbar | Roda de conversa às 19h | Concerto às 21h
Bilhetes: 5 €
26 de setembro | Porto
Samba a Gomes de Sá, participação especial de Janine Mathias
The Passenger Hostel, Estação de São Bento | 20h30
Bilhetes: 7 €
