Depois de uma série de lançamentos que mostram uma nova dimensão da sua identidade artística, Joanna Coelho atravessa um dos momentos mais marcantes da carreira. Entre o techno, o hard bounce e o acid, a DJ e produtora portuguesa afirma uma visão cada vez mais pessoal, sem perder a autenticidade que considera essencial dentro da música eletrónica.
Nesta entrevista ao Música Total, Joanna Coelho fala sobre a evolução do seu som, a entrada para a Goldroom Agency, o impacto das redes sociais e da inteligência artificial na criação musical, as influências brasileiras que continuam presentes nas suas produções e os objetivos que traça para os próximos anos. Uma conversa sobre identidade, risco e a procura constante por uma ligação verdadeira com o público.
Os últimos meses trouxeram vários lançamentos e uma clara evolução na tua sonoridade. Sentiste necessidade de reinventar a tua identidade musical ou este foi um processo que aconteceu de forma natural?
Acho que foi uma mistura dos dois. Senti vontade de me desafiar e de sair de zonas onde já sabia exatamente o que estava a fazer, mas, ao mesmo tempo, tudo aconteceu de forma muito natural. Nunca senti que precisava de reinventar a minha identidade, apenas de lhe dar mais espaço para evoluir. Hoje sinto-me mais livre para misturar referências e criar música sem me prender a rótulos. No fim, a essência continua a ser a mesma, apenas encontrou novas formas de se expressar.
“Feel the Acid” mostra uma faceta diferente do teu trabalho, com elementos acid e hard bounce. O que despertou o interesse por estas sonoridades e o que procuravas transmitir com esta faixa?
Sempre gostei da energia crua do acid, mas em Feel the Acid quis cruzá-la com uma abordagem mais física, mais explosiva. O hard bounce trouxe esse lado mais corporal, quase instintivo. Queria criar uma faixa agressiva, mas divertida ao mesmo tempo, que puxasse as pessoas para o movimento sem pensarem demasiado.
“You Can’t Fake This” fala de autenticidade dentro da cena eletrónica. Achas que, com o crescimento do techno nas redes sociais, essa autenticidade se tornou mais difícil de preservar?
Sem dúvida. Hoje há muito foco na imagem e no conteúdo rápido e, por vezes, isso pode criar personagens em vez de artistas. Mas, ao mesmo tempo, isso também faz com que a autenticidade tenha ainda mais valor. You Can’t Fake This nasceu muito dessa ideia: no fim, a verdade aparece sempre. A pista sente quando algo é real.
Em “Duro” incorporas vozes em espanhol e influências latinas. Até que ponto as tuas raízes brasileiras continuam presentes quando produzes música para pistas de dança internacionais?
As minhas raízes brasileiras estão sempre presentes, independentemente da língua ou da estética. A forma como sinto o ritmo, o groove e a energia vem muito daí. Em Duro, apesar das vozes em espanhol e de uma abordagem mais ampla dentro do universo latino, há uma força rítmica e uma intensidade que vêm diretamente da minha identidade brasileira. Isso nunca desaparece.
O EP “Techno” apresenta duas faixas bastante distintas. O objetivo foi mostrar diferentes lados da tua produção ou retratar o momento artístico em que te encontras?
Os dois. Acho que neste momento estou numa fase em que não me interessa estar presa a uma única fórmula. Esse EP reflete exatamente isso: a possibilidade de explorar lados diferentes sem perder coerência. É um retrato honesto do meu momento artístico.
Trabalhas entre estilos como o neorave, schranz, hardcore e techno. Quando começas uma nova produção, pensas primeiro no género ou deixas que a música encontre o seu próprio caminho?
Nunca começo por pensar no género. Normalmente parto de uma sensação, de uma energia ou de uma ideia muito específica. Depois, a música vai encontrando o seu caminho. Acho que, quando pensas demasiado em encaixar num género, acabas por limitar o processo criativo.
Entraste recentemente para a Goldroom Agency, uma agência que representa alguns dos maiores nomes da eletrónica. O que significa este passo para a tua carreira e que objetivos traças a partir daqui?
É um passo muito importante porque valida uma fase de transformação em que tenho investido muito, tanto musicalmente como na minha visão artística. Mais do que aumentar a agenda, quero usar esta oportunidade para chegar a palcos maiores, a públicos diferentes e consolidar uma identidade que seja reconhecível e sólida a longo prazo.
Tens atuado em diferentes países e festivais. Que diferenças encontras entre o público europeu e o público sul-americano quando estás atrás da cabine?
Acho que as diferenças têm mais a ver com a cultura de cada país do que propriamente com o continente. Já encontrei públicos extremamente técnicos e atentos ao set na América do Sul, e pistas na Europa completamente entregues à emoção. O que muda mais é a forma como cada lugar vive a música. Há países onde as pessoas expressam tudo de forma mais intensa e outros onde a reação é mais contida, mas isso não significa que estejam a sentir menos. Como artista, gosto precisamente desse desafio de perceber a energia de cada pista e criar uma ligação única em cada atuação.
A tecnologia tem transformado a forma como os DJs produzem e atuam. Como encaras ferramentas como a inteligência artificial dentro da produção musical? Vês potencial criativo ou também alguns riscos?
Vejo potencial, sem dúvida, sobretudo como ferramenta de apoio e de expansão criativa. Pode acelerar processos e abrir novas possibilidades. Mas também vejo riscos se começar a substituir demasiado a intenção humana. A técnica pode evoluir, mas a visão, a experiência e a emoção continuam a ser insubstituíveis.
As redes sociais exigem hoje uma presença constante dos artistas. Como consegues equilibrar essa exposição com o tempo necessário para criar música de forma genuína?
É um equilíbrio difícil. Hoje em dia parece que és quase tão criadora de conteúdos quanto música, e isso pode ser desgastante. Tento usar as redes sociais como uma extensão da minha identidade, e não como algo separado. Mas protejo muito o meu tempo de estúdio, porque, no final, é a música que sustenta tudo.
Existe algum festival, clube ou colaboração que ainda esteja por concretizar e que represente um objetivo especial para ti nos próximos anos?
Há vários. Gostava muito de chegar a festivais e plataformas mais híbridas, onde a minha visão mais ampla da hard dance e do techno possa existir sem tantas barreiras de género. E, claro, há editoras e artistas com quem ainda sonho colaborar. Acho que isso faz parte de continuar a crescer.
Depois desta série de lançamentos e da nova representação internacional, o que gostarias que o público dissesse sobre a Joanna Coelho quando ouvir a tua música daqui a cinco anos?
Gostava que dissessem que a minha música sempre teve verdade. Que, independentemente das tendências ou das fases, houve sempre identidade, coragem e evolução. Para mim, o mais importante é isso: ser reconhecida não só pelo som, mas também pela intenção por trás dele.
