Há produtores que entram num estúdio para gravar um disco. João Brandão pertence a uma geração que aprendeu a fazer do próprio estúdio uma parte da linguagem musical.
Ao longo de mais de 15 anos de trabalho, o produtor e engenheiro de gravação e mistura cruzou universos tão diferentes como o rock, a electrónica, a música experimental, o pop, o hip hop e a música pesada. Trabalhou com nomes como Sensible Soccers, Glockenwise, Capicua, Manel Cruz, Best Youth, Moullinex, GAEREA, Marisa Liz, Dealema e muitos outros. Mas a dimensão da sua carreira não se mede apenas pelos discos em que aparece nos créditos.
João Brandão é também uma das figuras associadas à criação da Arda Recorders, no Porto, um espaço que nasceu com uma ambição maior do que a de ser simplesmente um estúdio de gravação. A sua história passa pela construção de uma casa para músicos, produtores, engenheiros e compositores, num momento em que a produção musical atravessava uma transformação profunda.
É aí que está a verdadeira importância do seu percurso.
João Brandão ajudou a defender uma ideia que parecia cada vez menos óbvia num mundo dominado pela produção dentro de computadores: o estúdio pode continuar a ser um instrumento musical.
Antes da Arda, o estúdio já fazia parte do processo
Antes de existir a Arda Recorders, João Brandão já tinha construído uma relação particular com a gravação.
O seu percurso desenvolveu-se entre diferentes salas, equipamentos e métodos de trabalho, acumulando experiência como engenheiro de gravação, mistura e produtor. Essa experiência permitiu-lhe conhecer as possibilidades e limitações de diferentes ambientes de estúdio, mas também perceber uma coisa essencial: não existe uma única forma correcta de gravar um disco.
A técnica pode ser rigorosa sem ser neutra.
Uma guitarra pode ser colocada diante de um microfone de determinada maneira porque essa posição produz uma determinada textura. Uma bateria pode ser gravada de forma aparentemente menos convencional porque a acústica da sala cria precisamente a dimensão procurada. Um sintetizador pode ser processado, reamplificado ou enviado para outro espaço porque a imperfeição acrescenta qualquer coisa à gravação.
É neste território que João Brandão se move.
A sua relação com o analógico não parece nascer de uma nostalgia por equipamentos antigos. Nasce antes da convicção de que diferentes ferramentas provocam diferentes decisões.
A fita, por exemplo, obriga a pensar de outra maneira. O processamento analógico introduz características que não são simplesmente equivalentes a uma operação digital. A própria passagem de um sinal por determinado equipamento pode alterar textura, dinâmica, profundidade e comportamento dos instrumentos.
Mas o equipamento, por si só, não resolve uma produção.
É o produtor que decide quando deve ser usado, porque deve ser usado e, sobretudo, quando deve ser deixado de lado.
Essa perspectiva ajuda a compreender a assinatura de João Brandão. O seu trabalho procura frequentemente preservar uma dimensão física da música, permitindo que guitarras, baterias, vozes, sintetizadores e outros instrumentos mantenham personalidade própria dentro da mistura.
Em vez de tentar apagar todas as imperfeições, interessa-lhe perceber quais delas fazem parte da identidade de uma gravação.
Essa diferença é fundamental.
Na produção contemporânea, existe uma tendência para corrigir quase tudo. Afinação, tempo, dinâmica, ruído, espaço e até pequenas oscilações de execução podem ser alterados depois de uma gravação. João Brandão trabalha muitas vezes no sentido contrário: primeiro procura perceber o que existe na performance e só depois decide o que precisa realmente de ser transformado.
O objectivo não é gravar como se gravava há décadas.
É utilizar o conhecimento acumulado desde então para tomar melhores decisões agora.
Quando o produtor passa a fazer parte da composição
Um dos melhores exemplos desta filosofia encontra-se em PLÁSTICO, dos Glockenwise.
Editado em 2018, o álbum marcou uma mudança importante no percurso da banda de Barcelos. Era o primeiro disco dos Glockenwise escrito em português e representava também uma nova direcção musical.
João Brandão partilhou a produção com a banda e assumiu a gravação e a mistura nos Estúdios Sá da Bandeira.
A importância deste trabalho não está apenas nos créditos. Está na forma como a produção acompanha a transformação de uma banda que já tinha uma identidade própria.
Os Glockenwise vinham de um universo associado ao rock, mas PLÁSTICO procurava outro tipo de espaço. As guitarras continuavam a ter peso, mas havia uma preocupação diferente com as texturas, com a voz e com a construção das canções.
Aqui, produzir não significava substituir a identidade da banda por uma assinatura externa.
Significava criar condições para que uma nova identidade pudesse aparecer.
É uma distinção importante. Um produtor pode impor uma estética. Também pode funcionar como uma espécie de arquitecto invisível, reorganizando o espaço à volta dos músicos até que aquilo que já estava dentro das canções consiga finalmente ouvir-se.
João Brandão aproxima-se mais deste segundo papel.
A produção torna-se uma conversa.
A banda traz as canções, os instrumentos e a experiência acumulada. O produtor acrescenta escuta, conhecimento técnico e capacidade para imaginar outras possibilidades. A gravação passa então a ser um processo de descoberta.
O resultado é particularmente interessante porque PLÁSTICO não parece procurar uma sonoridade espectacular apenas para impressionar. A produção serve uma mudança artística que já estava a acontecer dentro dos Glockenwise.
É precisamente aí que se percebe o valor de um produtor.
Não se trata de ser a pessoa que mais aparece nos créditos.
Trata-se de saber quando intervir.
Manoel: quando o estúdio se transforma numa linguagem
Se PLÁSTICO mostra João Brandão a trabalhar sobre a transformação de uma banda, Manoel, dos Sensible Soccers, revela outra dimensão do seu método.
O quarto álbum dos Sensible Soccers nasceu de uma relação com o cinema de Manoel de Oliveira e com dois filmes fundamentais do realizador portuense, Douro, Faina Fluvial e O Pintor e a Cidade.
A banda partiu desse universo para criar novas bandas sonoras. Dessas experiências nasceu depois um disco que passou a existir para lá das imagens que lhe deram origem.
O álbum foi produzido pelos Sensible Soccers e João Brandão, gravado e misturado pelo produtor na Arda Recorders.
O resultado atravessa diferentes territórios: ambiente, techno, jazz, dub, pop e experimentalismo.
Mas a verdadeira riqueza de Manoel está na liberdade com que essas linguagens convivem.
A produção tinha de permitir que a música respirasse de maneira diferente consoante o momento. Uma passagem podia exigir espaço e silêncio. Outra precisava de pulsação. Outra podia aproximar-se do dub, enquanto uma sequência seguinte se tornava quase cinematográfica.
É neste tipo de trabalho que a ideia do estúdio como instrumento ganha verdadeiro significado.
A sala, a acústica, os microfones, a consola, o processamento e a própria possibilidade de experimentar não são elementos exteriores à música.
Passam a fazer parte dela.
O produtor deixa de ser apenas a pessoa que garante que tudo fica correctamente gravado.
Começa a participar na construção do espaço sonoro.
No caso de Manoel, essa função é particularmente importante porque a música nasceu de imagens, mas precisava de sobreviver sem elas. O disco tinha de criar uma atmosfera própria, capaz de sugerir movimento, memória e paisagem sem depender do filme.
A produção funciona então como uma espécie de tradução.
Não traduz apenas imagens em som. Traduz uma determinada maneira de olhar para uma cidade.
O Porto de Manoel de Oliveira passa pela música dos Sensible Soccers sem ser transformado numa simples banda sonora tradicional. Torna-se matéria para uma nova obra.
E João Brandão está no centro desse processo.
Um estúdio não é apenas uma sala cheia de equipamento
A criação da Arda Recorders levou esta filosofia para uma dimensão diferente.
Fundada em 2017 por uma equipa de produtores e engenheiros, a Arda nasceu num antigo espaço industrial em Campanhã, no Porto. O projecto foi desenvolvido ao longo de vários anos e deu origem a um complexo dedicado à gravação, produção e criação musical.
A dimensão física do espaço é importante, mas não explica tudo.
Um estúdio pode ter uma excelente consola, máquinas de fita, microfones raros e uma colecção impressionante de instrumentos. Nada disso garante bons discos.
A importância da Arda está também na possibilidade de reunir pessoas e linguagens diferentes no mesmo lugar.
É nesse ponto que a história de João Brandão ultrapassa a sua discografia pessoal.
A Arda tornou-se uma estrutura onde podem coexistir músicos de diferentes gerações e géneros. Rock, electrónica, pop, hip hop, experimentalismo e música pesada podem encontrar ali condições para trabalhar.
O próprio percurso dos artistas associados ao espaço mostra essa diversidade.
Sensible Soccers e Glockenwise representam dois universos bastante diferentes. Capicua introduz outra relação com a produção, baseada na palavra, no ritmo e na construção electrónica. Manel Cruz traz outro tipo de escrita e interpretação. GAEREA trabalha dentro de uma linguagem extrema e pesada. Best Youth, Moullinex, Marisa Liz e outros projectos acrescentam novas perspectivas.
A variedade é importante porque demonstra que a filosofia de estúdio não depende de um género específico.
Depende de uma forma de trabalhar.
João Brandão tornou-se, neste contexto, uma espécie de ponto de encontro entre músicos e tecnologia.
A sua experiência permite-lhe entrar em diferentes universos sem tentar uniformizá-los.
É uma qualidade difícil de encontrar.
Um produtor pode ter uma assinatura demasiado forte e acabar por fazer com que artistas diferentes soem demasiado semelhantes. O desafio de um produtor com experiência é precisamente o contrário: manter uma identidade profissional sem apagar a identidade de quem está do outro lado da mesa.
A Arda e a nova geografia da gravação portuguesa
Durante décadas, Lisboa concentrou uma parte significativa da indústria musical portuguesa, sobretudo no que dizia respeito a editoras, estúdios e estruturas profissionais.
O Porto sempre teve uma tradição musical própria e uma história importante de gravação, mas a existência de estruturas capazes de acolher projectos muito diferentes ajudou a reforçar a cidade como centro de criação.
A Arda surge nesse contexto.
Não é apenas um estúdio onde bandas do Porto gravam porque estão perto de casa. É um espaço que recebe artistas de diferentes pontos do país e diferentes áreas musicais.
Essa diferença altera a própria geografia da produção.
Quando um músico sabe que existe um espaço equipado, preparado para trabalhar com diferentes formatos de gravação e acompanhado por profissionais especializados, a distância deixa de ser uma barreira tão significativa.
O estúdio torna-se destino.
E quando um estúdio se transforma em destino, começa também a funcionar como comunidade.
Essa dimensão é particularmente importante num período em que a tecnologia tornou possível produzir praticamente tudo num computador pessoal.
Nunca foi tão fácil começar a fazer música sozinho.
Mas essa facilidade trouxe também uma consequência: o desaparecimento de muitos espaços de encontro.
Um estúdio profissional oferece precisamente aquilo que um quarto não oferece.
Tempo partilhado.
Escuta.
Equipamento.
Acústica.
Interacção.
Decisões colectivas.
A possibilidade de uma música mudar porque alguém, do outro lado da consola, ouviu uma coisa que o músico ainda não tinha percebido.
É nesse espaço que João Brandão parece encontrar uma das suas funções mais importantes.
Produzir também é saber escutar
Existe uma ideia romântica do produtor como alguém que chega ao estúdio com todas as respostas.
Na realidade, os melhores produtores costumam trabalhar com perguntas.
O que é essencial nesta música?
Onde está a emoção?
O que está a mais?
O que falta?
Que instrumento precisa de espaço?
Que parte deve permanecer imperfeita?
Que elemento pode ser levado mais longe?
João Brandão construiu a sua reputação precisamente nesse território entre técnica e intuição.
O seu trabalho como engenheiro permite-lhe perceber rapidamente problemas de gravação, mistura e dinâmica. A experiência como produtor permite-lhe ir além da correcção técnica e perguntar o que a música precisa artisticamente.
Essa combinação é particularmente importante na música independente.
Em muitos projectos, o orçamento não permite dezenas de músicos de sessão, grandes equipas de produção ou longos períodos de gravação. O produtor precisa de saber encontrar soluções com os recursos disponíveis.
Por vezes, a solução está num microfone.
Noutras, numa alteração de arranjo.
Noutras ainda, em gravar novamente uma parte.
E algumas vezes a melhor decisão é não mexer.
Saber não fazer também é uma competência de produção.
O legado de João Brandão está nos discos, mas também no lugar
É fácil medir a carreira de um produtor através dos nomes que aparecem numa discografia.
É mais difícil medir aquilo que acontece depois de um estúdio abrir portas.
Um músico grava um disco, outro conhece um engenheiro, uma banda descobre uma nova forma de trabalhar, um produtor encontra outro produtor, um técnico ganha experiência, uma gravação conduz a outra.
É assim que se constrói uma cena musical.
A importância de João Brandão pode ser lida precisamente nessa perspectiva.
A sua carreira individual é significativa, mas a criação da Arda Recorders acrescenta outra camada ao percurso. Em vez de permanecer apenas como profissional contratado para determinados projectos, ajudou a criar uma estrutura permanente onde outros profissionais e artistas também podem desenvolver trabalho.
É uma forma diferente de influência.
Não está necessariamente presente numa faixa específica.
Está nas condições que permitem que essa faixa seja gravada.
Por isso, olhar para João Brandão apenas como engenheiro ou apenas como produtor seria limitar a dimensão do seu percurso.
Ele pertence a uma geração que cresceu quando o digital já era dominante, mas que decidiu recuperar o valor da matéria, da sala, da fita, dos microfones e da experiência colectiva.
Não por rejeição da tecnologia.
Pelo contrário.
A tecnologia é utilizada precisamente para ampliar as possibilidades da música.
O analógico pode coexistir com edição digital. A gravação tradicional pode conviver com produção electrónica. Uma banda pode tocar numa sala e depois transformar completamente o material na mistura.
O importante é que a ferramenta esteja ao serviço da ideia.
Essa é talvez a característica que melhor define João Brandão.
Um produtor que ajudou a construir o futuro
A história dos grandes produtores portugueses não pode ser contada apenas através dos discos que chegaram ao público.
É preciso olhar também para os estúdios, para os técnicos, para as salas onde as decisões foram tomadas e para as pessoas que criaram condições para que novas gerações pudessem gravar.
João Brandão ocupa um lugar especial nessa história porque reúne essas duas dimensões.
É produtor e engenheiro.
É músico de estúdio no sentido mais amplo da expressão.
E é também construtor de uma estrutura que ultrapassa a sua própria carreira.
Os seus créditos atravessam géneros que raramente cabem na mesma lista. O que os aproxima não é uma sonoridade única. É a possibilidade de procurar uma sonoridade própria para cada projecto.
Essa talvez seja a melhor definição de um produtor.
Não fazer com que todos os artistas soem à mesma pessoa.
Ajudá-los a descobrir aquilo que só eles podem soar.
Na Arda, entre consolas, máquinas de fita, microfones, instrumentos e salas construídas para ouvir, essa procura ganhou uma casa.
E é aí que a história de João Brandão se torna maior do que uma sucessão de créditos.
Ele não apenas ajudou artistas a encontrar um som.
Ajudou a construir um lugar onde novos sons podiam nascer.
SABIAS QUE?
A Arda Recorders foi fundada em 2017 e nasceu da experiência acumulada por uma equipa de produtores e engenheiros. O complexo foi construído de raiz num antigo espaço industrial em Campanhã, no Porto, e integra vários estúdios e salas de produção. O projecto passou também a acolher a Fonoteca Municipal do Porto, aproximando a criação musical contemporânea da preservação da memória sonora da cidade.
FICHA DO LADO B
Nome: João Brandão
Profissão: Produtor, engenheiro de gravação e engenheiro de mistura
Base de trabalho: Porto
Projecto central: Arda Recorders
Área de especialização: Gravação, produção e mistura
Abordagem: Analógica, orgânica e experimental
Áreas musicais: Rock, pop, electrónica, hip hop, música experimental e música pesada
Artistas associados: Sensible Soccers, Glockenwise, Capicua, Manel Cruz, Best Youth, Moullinex, GAEREA, Marisa Liz, Dealema, entre muitos outros
TRABALHOS ESSENCIAIS
Glockenwise, PLÁSTICO (2018)
Um momento de mudança na carreira dos Glockenwise e um exemplo claro da colaboração entre João Brandão e uma banda na construção de uma nova identidade sonora.
Sensible Soccers, Manoel (2021)
Um dos exemplos mais interessantes da utilização do estúdio como espaço de experimentação, cruzando electrónica, ambiente, jazz, dub, pop e composição para cinema.
Sensible Soccers, Aurora (2019)
Um projecto gravado em contexto de residência, mostrando outra dimensão do trabalho de João Brandão e uma abordagem menos convencional ao processo de produção.
VALE A PENA OUVIR
Começar por PLÁSTICO, dos Glockenwise, e seguir depois para Manoel, dos Sensible Soccers. A comparação revela duas formas muito diferentes de trabalhar com João Brandão e permite perceber melhor aquilo que distingue um produtor de um simples responsável técnico.
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