Quatro décadas depois de os Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre! terem interrompido o caminho, Jorge Ferraz voltou a pegar nas guitarras, nas memórias e nas músicas que ficaram suspensas. Não para reconstruir a banda nem para fazer uma réplica do passado, mas para perceber o que ainda existe naquele som quando passa pelas mãos do músico que hoje é.
É essa a ideia de “Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre! REDUX”, espectáculo que Jorge Ferraz apresenta a 10 de Setembro no Coliseu Club. O repertório é reconhecível, mas a forma de o tocar mudou. Uma guitarra, electrónica, tecnologia digital, loops e programação substituem a antiga formação e transformam as composições sem apagar aquilo que lhes deu origem.
Na conversa com o Música Total, Jorge Ferraz fala de liberdade, aventura, do ambiente musical português dos anos 80, da vida própria que o primeiro disco ganhou, dos temas que ficaram por editar e da dificuldade de reconstruir partes de uma música que nasceu do diálogo entre vários músicos. Fala também da guitarra como instrumento ainda aberto à descoberta e de uma palavra que resume bem este regresso: REDUX.
Porque, para Jorge Ferraz, voltar aos Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre! não significa ficar preso ao passado. Significa descobrir o que ainda pode acontecer com uma música que, afinal, nunca ficou completamente terminada.
Quando pensa hoje nos Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre!, qual é a primeira imagem que lhe aparece?
Liberdade, aventura, o entusiasmo e a fúria de quem acredita em sonhos, quebrar e baralhar regras, mesmo as do “underground”, desafiar e surpreender. Cumplicidade entre os membros da banda. Prazer e candura, muita candura.
O que é que ainda reconhece naquele Jorge Ferraz de 1986?
Primeiro que tudo, entre 1986 e 1991, no fim da banda, eu fui mudando, arriscando e aprendendo. A banda também foi mudando nesses cinco anos. Mas, fazendo a ponte para hoje, penso que há ainda muito do mesmo, com uns “mas mais e menos”. As aprendizagens e esquecimentos do tempo e da dedicação, articulações dos dedos das mãos e dos pulsos mais fragilizadas. Um pouco menos de impetuosidade e, ainda, mais afastamento das redes de sociabilidade e legitimação. Mas os mesmos sonhos e intransigência sobre a arte da música e sobre o seu lugar na minha vida. A aventura e a descoberta a partir das possibilidades da guitarra eléctrica transformada inesperadamente. Continuar a recorrer às possibilidades das várias tecnologias usadas como elemento de transformação e composição “guitarrística”. E os mesmos princípios da música como poesia, fazer canções que baralhem as regras dos jogos como uma criança ou um adolescente fariam e que sejam inesperadamente líricas e caleidoscópicas, não lineares.
Na altura, o que procuravam fazer musicalmente que não encontravam à vossa volta?
Repetindo um pouco o que disse antes, pois o que era verdade antes continua a ter o seu espaço hoje: fazer poesia com guitarras eléctricas furiosas, multipolares e líricas, criando um mundo simultaneamente perturbante e encantador, como um lugar no espaço, caleidoscópico, levantando voo; quebrar e baralhar as regras, a começar logo pelos lugares-comuns do rock alternativo, misturando coisas inesperadas e tirando o tapete a todos como crianças; nunca nos deixarmos agarrar ou aprisionar numa categoria; e dizer que noise, quase dissonância e música livre poderiam ser coisas encantadoras e apreciadas por gente muito diferente; dar liberdade criativa e voz à expressividade de cada músico, cada um mostrando as suas singularidades e todos nos ouvindo uns aos outros no que poderia parecer, por vezes, algo confuso ou caótico. Isso era o que eu adorava, por exemplo, no jazz de Sun Ra.
Mas a verdade é que era música muito rigorosa e muito ensaiada e recomposta, em todos os detalhes, até estar ao nosso agrado, nos fazer sentir bem e envolvidos emocionalmente. E é também verdade que, em alguns temas, fazia parte da composição a existência de espaço para improvisar em diálogo, sobretudo recorrendo a coisas pouco habituais, feedbacks, alterar os tempos do stutter de um delay digital, tocar com baquetas nas cordas do baixo, usar objectos de plástico e metal para tocar a guitarra, etc.
E, claro, também usar como matéria de motivação, não de cópia ou versão adaptada, o que nos encantava em músicos que, inconsciente e conscientemente, nos influenciavam ou que valorizávamos. E os ensinamentos que trazíamos eram sobretudo o estímulo e os objectivos criativos, mais do que técnicas e estilos.
Tinham consciência de que estavam a fazer algo fora do comum ou isso só se tornou evidente mais tarde?
Meio-meio. Não tivemos um momento eureka, nem um programa pré-definido desde o início. Havia coisas que queríamos experimentar, caminhos por onde ir, mas a sua definição mais clara foi acontecendo à medida que se compunha, explorava e ensaiava em conjunto. Como a vida e os processos de aprendizagem e de criação abertos. O que as mãos faziam modificava o que a mente e os sentidos queriam e vice-versa.
E, sobretudo, a vontade de não nos deixarmos aprisionar em categorias de arrumação ou estereótipos, como adolescentes fugidios. Por exemplo, na fase final estávamos levemente incomodados com a categoria de noise-rock onde nos queriam encaixar. Preferíamos o free-rock. Vê-se isso em alguns apontamentos do EP final, onde dávamos mais visibilidade a coisas que estavam em segundo plano no primeiro álbum. E essas fugas e tirar do tapete podem trazer dissabores e incompreensões.
Como era ser músico experimental em Portugal no final dos anos 80?
Talvez ser mais livre do que hoje. Havia menos categorias de classificação estabilizadas como espaços regulados e havia a sensação de que se estava a tentar “re-inventar” algo de novo, com entusiasmo juvenil ou mesmo com a imprudência que anima a subversão criativa.
Depois, sinceramente, nunca gostei muito da designação “experimental”. Percebo que ela tem uma função de reconhecimento, mas ainda assim acho que nos limita. E nunca me vi verdadeiramente como tal. Prefiro a ideia da “aventura”. Quando oiço “experimental”, parece que se está a testar uma coisa e se fica satisfeito com isso, com o acto em si. Ou que é uma porta para que venha depois alguém ou algo transformar aquilo numa coisa “a sério”.
E, na verdade, experimental, exploratório ou coisas equivalentes é hoje uma categoria de classificação com as suas redes, agentes, mercado, promotores, canais de divulgação, um campo à maneira de Bourdieu com as suas “autoridades”, discurso codificado e dogmas. E, que diabo, é bem melhor ser livre.
Ficar fora das categorias e dos campos é tão difícil e tem custos. Mas é isso que continuo a querer. E isso não significa confrontação ou isolamento, pois pode ser partilha e contaminação, mas sem espartilhos e preconceitos.
O entusiasmo e aventura de então, porque esses “mundos” estavam menos organizados e “profissionalizados”, transformaram-se em mercadorias com canais promocionais e aparato de marketing e legitimação muito bem definidos e controlados. O que não quer dizer que as pessoas que criam boa música nesses campos não tenham a sensação de entusiasmo e aventura. Eu acho que têm, mas há um espartilho que invisivelmente lhes molda o horizonte e o futuro.
Nos anos 1980, tudo isso estava por fazer e o que havia era incipiente, por isso mais precário, mas também paradoxalmente mais livre. O que se ganhou em profissionalismo, condições e eficácia comunicativa e técnica, e isso é bom, acabou por ser contrabalançado pela perda da aventura e pela diminuição da liberdade “não regulada” e que não seja “marketinguizável”.
Dou o exemplo do Rock Rendez Vous. Tanto lá ia o Rui Veloso como os Pop Dell’Arte, a Anamar, os NAM ou os Crise Total. Entregava-se uma cassete e havia sempre uma possibilidade de tocar, mesmo que o pessoal de lá achasse a música horrível e que nós não sabíamos tocar. O segundo concerto que dei na minha vida foi com os Ezra Pound e A Loucura, em 1984, no RRV, e foi assim que aconteceu. E tínhamos meia dúzia de pessoas.
Agora está tudo “regulado” e codificado. Ainda noutro dia li o organizador do Festival Paredes de Coura a queixar-se disso: quando alguém que tem o seu lugar diz isso, estamos esclarecidos.
Outro exemplo: nos concertos de tantas bandas, incluindo os Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre!, havia gente de “meios” tão diferentes e isso era fantástico.
Mas não glorifico o passado nem quero repeti-lo. Ainda há futuro para construir e mudar, mesmo se mais difícil.
Free-Terminator / Falcão Solitário Sem Ser Distorção acabou por ganhar um estatuto de culto. Quando percebeu que o disco já não vos pertencia apenas a vocês?
Primeiro, devo dizer que fico contente com isso. Quanto ao quando, uns anos após o fim da banda. Primeiro, no final dos anos 1990, com o livro do Público/FNAC sobre os melhores discos de sempre da música moderna portuguesa desde os anos 1960 e, sobretudo, depois de meados da década de 2000, com a reedição em CD de toda a obra pela Zounds Records e quando vejo, nas redes sociais, pessoas a falar da banda.
Mas não é linear. Há momentos de desaparecimento como de ressurgimento. Mas, sim, ganhou essa vida própria, às vezes até com equívocos positivos e negativos ou com histórias imprecisas e até efabuladas. Tal como com deturpações e omissões. O que acaba por ser normal, sobretudo quando se está na margem. Mas o grave é que isso reescreve a história.
Por exemplo, recordo-me de uma enciclopédia da música moderna/popular portuguesa dos anos 2000, com chancela universitária, que só menciona os Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre! numa entrada genérica da Ama Romanta, dizendo uma coisa que não é verdade: ou seja, os Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre! são mencionados como muitas outras bandas que gravaram um ou outro tema para as suas colectâneas.
Mas, na verdade, vivemos sempre à margem dos circuitos. Por exemplo, os Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre! nunca tocaram fora de Lisboa, ou melhor, chegámos uma vez a tocar em Loures. Apenas não estivemos à margem quando beneficiámos da projecção da Ama Romanta ou pela publicidade que músicos com notoriedade no meio alternativo, como o João Peste ou o Adolfo Luxúria Canibal, faziam ao falar da banda. Ou ainda do entusiasmo de um ou outro jornalista, a começar pelo António Sérgio, entre alguns outros.
Quando me afastei desse ambiente, o meu trabalho foi ficando progressivamente mais invisível. É a vida e é esse o modo de as coisas funcionarem. Mas, sinceramente, não me parece que o que faço ou edito agora seja inferior. Certamente menos alienígena e inesperado do que foi à época o trabalho dos Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre!, mas não o acho esteticamente inferior, apesar de haver um ou outro momento menos conseguido.
O que o levou, tantos anos depois, a voltar a estas músicas?
O prazer, a sensação de incompletude e de história acabada antes de tempo, repor a justiça e o prazer dos sentidos na memória. E, obviamente, e sendo transparente, também um modo de dizer que estou vivo, a tocar e a compor.
Mas note-se que a minha primeira tentativa foi mesmo a de reconstruir a banda com todos, ou quase todos, os músicos que por lá passaram. Propus isso às pessoas, ainda chegámos a fazer um pseudo-ensaio, mas não havia da parte dos outros vontade clara para isso. Tal aconteceu há uns oito anos, talvez, antes da pandemia.
Portanto, o bichinho sempre aqui esteve.
E depois: o desafio, o teste. Eu já não me lembrava do que fazia na maior parte dos temas e, no jogo de guitarras, muito intrincado, é, por vezes, difícil distinguir quem fazia o quê. Ou então, em certa parte de certo tema, era a guitarra do Luís Corado ou a do Tó Trips que se destacavam, ou a minha, ou o baixo do Vítor Inácio. Ou seja, também tinha de saber alguma coisa das partes deles.
Deu trabalho, muito mesmo. Por isso, foi preciso muita vontade e paciência. No final, tive ainda de passar o que atingi para pauta, semi-convencional, pois há coisas na música não transponíveis para uma pauta “clássica”, assente, por exemplo, na altura, duração, intensidade e timbre.
Quando voltou agora a ouvir estas composições, o que mais o surpreendeu?
Repito-me um pouco: a urgência sem concessões e com bonitos erros, o seu lado aventureiro e desmesurado, a caleidoscopia da música, os diálogos intensos entre os músicos e a capacidade de encantar. Também a dimensão transparente e sem subterfúgios da música, uma fragilidade tão forte.
E, sobretudo, como a música estava ainda mais longe do que eu pensava dos estereótipos e categorias onde alguns nos tentavam colocar, em especial o noise-rock mais óbvio. Tornaram-se mais únicas. Afinal, há mais Sun Ra, King Crimson, música portuguesa de intervenção, melodias infantis, música sci-fi, Pink Floyd do início, épicos à la Godspeed You! Black Emperor antes destes existirem ou no-wave do que Sonic Youth.
Existem temas que nunca chegaram a ser editados nem tocados ao vivo. Porque ficaram de fora naquela altura?
Sim, dois temas originais, mais duas versões, uma dos Pink Floyd e outra dos Love. Ficaram de fora, pois a banda terminou antes da conclusão do segundo álbum, que ficou assim um EP. Além do mais, em relação às versões, também não era simples licenciar aquilo naquela altura.
O que procurou nessas composições quando decidiu recuperá-las agora?
A caleidoscopia original em termos melódicos, harmónicos, concretos e rítmicos, adaptada ao músico que sou hoje, às limitações de tocar sozinho e às descobertas e criações que tenho feito com a guitartrónica e com as possibilidades das novas tecnologias.
Por exemplo, só com uma guitarra e usando todas essas tecnologias, incluindo loopers granulares e loopers convencionais, que gravo em tempo real, tocando. Igualmente, acrescento-lhes baterias que programei e que procuram recuperar o espírito e a intenção, não são iguais, mas respiram a motivação original, do toque peculiar do Fernando Quaresma e do Sapo, que não tocavam os ritmos expectáveis numa banda de guitarras eléctricas bem altas.
Onde termina a recuperação dos Santa Maria e começa o Jorge Ferraz de hoje?
No modo como uso a música original. Seja pelas razões atrás apontadas, seja porque o que toco na guitarra não é necessariamente a minha guitarra, a do Luís ou a do Tó, ou o baixo do Vítor. É algo que salta entre eles, vai de um ao outro, faz a ponte e procura os locais do diálogo, naturalmente à luz do guitarrista em que me fui transformado, sem esquecer de onde vim.
Depois, os meus trabalhos a solo têm todas pontes com esse mundo, não deixam de ser também herdeiros, com autonomia e personalidade próprias, do que fiz e pretendi com os Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre!.
Aliás, quem gosta de Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre! pela sua música e quem gostar deste concerto, que venha ver-me tocar a partir de fevereiro de 2027 ao vivo, quando começar a apresentar um novo álbum. Penso que gostará. Encontrará pontes, a mesma galáxia com algumas mudanças que o tempo traz ao espaço, embora não os mesmos planetas.
O que significa, para si, a palavra “REDUX” neste projecto?
A honestidade e a transparência. E o respeito pelo público e pelos outros músicos que fizeram parte da banda. Embora haja muita coisa similar ao original, inclusive na programação de ritmos e baixos, não é um concerto com uma banda e muito menos com os músicos que dela fizeram parte.
Mas o que fizeram também lá está. Eu reinterpreto partes das outras guitarras, da minha, do baixo e da bateria. Reconhecerão facilmente as músicas da banda. Não corro muitos riscos ao dizer que aquilo que vou apresentar ao vivo não será uma coisa assim muito diferente do que poderiam ser hoje os Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre! se não tivessem acabado.
A guitarra continua no centro do seu trabalho. O que mudou na sua forma de a ouvir e de a tocar ao longo destas quatro décadas?
Usar as possibilidades da electrónica e do digital para trabalhar o som da guitarra e as suas potencialidades, não só o som em concreto, mas também como o fazer mudar no tempo e no espaço.
Por exemplo: usar delays que programo de forma que a força do ataque às cordas altera a rapidez da repetição e o seu pitch; usar o modo como toco na guitarra ou em que notas para disparar aleatoriamente certos efeitos; usar a tecnologia granular para pegar em pequenos pedaços do que acabei de tocar e deixá-los repetir-se de modo diferente e quase aleatório; programar sequenciadores disparados pela guitarra, em que cada repetição produz uma sonoridade diferente.
Tudo isto vejo como matéria de composição, que não se fique pela autocongratulação exibicionista do experimentar, mas que traga prazer, algo encantatório.
Não quero perder esse lado de poesia e aventura com a guitarra. É uma continuação do que antes fazia com clipes e escovas de cabelos nas cordas da guitarra, com feedbacks do amplificador ou com um pedal de delay usado ao contrário do que era habitual, não como digital delay linear e limpo, mas como um pedal de glitch e stutter, o modo Hold do Boss DD-2 manipulado em tempo real.
Fala em “guitartronica”. Como explicaria esse conceito a alguém que nunca ouviu o seu trabalho?
Para além do que atrás disse, reforço a ideia de explorar as possibilidades da tecnologia electrónica e digital, programando-a para interagir com o “tocar a guitarra”, abrindo novos caminhos de som e de composição para esta.
Até que ponto é preciso respeitar a música original quando se decide reinventá-la?
Depende do contexto, de quem o faz e de como se a apresenta. Neste caso, devo respeitar nos limites do possível, adaptando tudo às limitações de ser um só músico a tocar, mas também às possibilidades aumentadas trazidas por novas técnicas e tecnologias e pelo que entretanto aprendi e que fazem sentido usar no respeito pelo espírito da música da banda.
Não é reinventar nem fazer versões: é tocá-las como talvez pudessem ser tocadas pela banda hoje, com os constrangimentos óbvios de só haver um músico em palco.
Ou seja, não vão ver uma versão dos Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre! tocada por outra pessoa, nem uma simples imitação, impossível. Mas sim o que seriam hoje essas músicas passadas pelo tempo dos músicos. Aliás, nós éramos muito inquietos, sempre disponíveis para novas coisas.
O espectáculo recupera referências de ficção científica retro, banda desenhada, poesia vanguardista e literatura cyberpunk. Porque continuam esses imaginários tão ligados aos Santa Maria?
Porque eram parte integrante da sonoridade e dos poemas-títulos das músicas, da banda e do mundo onde “vivíamos”. Aliás, continuo a adorar essas coisas e algumas delas estão presentes no meu trabalho actual.
Faziam parte da identidade da banda. Até isso era “estranho” no mundo do, digamos, rock e em Portugal.
Que papel têm as imagens de Carlos Miguel Ferreira e a manipulação de Vítor Inácio na experiência que preparou para o Coliseu Club?
São sobretudo elementos complementares do espectáculo, reforçam o imaginário e a experiência ao vivo, pois eu estou sentado a tocar e não há banda a mover-se.
Isto é o contrário do papel que têm nos concertos que dou em nome próprio, onde eles são responsáveis pelas imagens, pelo vídeo-jockey e pela cenografia, como Cellarius Noisy Machinae. Aí, a componente visual tem uma dimensão não apenas ilustrativa, entrando mais pelo território do espectáculo multimédia, embora com a música como ponto de partida.
Aliás, esse trabalho conjunto também está presente no filme “Vintage Glitch. Cidades para acabar com todos os verões e crepúsculos”, que estreou no IndieLisboa deste ano e que é uma criação de nós três, mais os cineastas Carlos Mendes e Vasco Bação.
Depois de tantos anos de trabalho, ainda existe alguma coisa que queira descobrir na guitarra?
Claro. Para começar, continuo a achar que preciso de tocar melhor, experimentar novas formas de pôr os dedos e mexer os pulsos, experimentar modos rítmicos, harmonias e melodias que não sejam as habituais em mim e que me encantam. Tentar traduzir em som novos sonhos.
Olha, por exemplo, ando a usar, aqui e acolá, ritmos latino-americanos na programação de bateria, em interacção com uma guitarra que parece tudo menos isso.
Se pudesse voltar ao primeiro ensaio dos Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre!, que conselho daria ao Jorge Ferraz de então?
Nenhum! Para quê? Ou melhor, talvez apenas lhe dizer que tivesse mais calma e menos impulsividade em 1991 e não acabasse a banda porque ela estava a passar por uma crise de maturidade.
Respirar mais devagar, atravessar os silêncios e o deserto que aí vinham e perceber que nunca há recomeços inteiramente novos. Mas, ainda assim, acreditar que sim.
Este concerto fecha um capítulo ou abre finalmente a possibilidade de descobrir outros capítulos dos Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre!?
Não faço a mínima ideia. Depende de haver convites para tocar. Há pessoas que me enviam mensagens a perguntar: “E então o Porto, Braga, Coimbra, etc.?” Bem, eu não sou promotor nem organizador de concertos, portanto não depende de mim, mesmo que eu manifeste, e tenho-o feito, a existência deste projecto e a vontade de o continuar.
Mas, claro, isto não vai ter vida longa, uma vez que a banda não existe como tal e não vou tocar músicas novas apresentadas num modelo “Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre! REDUX”. Mas, ainda assim, há muito lugar onde se pode ainda ir apresentar este espectáculo.
Por exemplo, em Novembro irei apresentar este espectáculo em Leiria, no Ciclo de Música Exploratória Portuguesa, a convite do Carlos Matos e da associação Fade In.
